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Jogos universitários em SP liberam presença de atletas trans na competição

João Victor Marques

Do UOL, em São Paulo

08/02/2018 04h00

Um dos assuntos mais discutidos atualmente dentro do mundo esportivo chegou ao nível universitário: a inclusão de atletas transgêneros em competições. Nesta semana, as redes sociais do Juca (Jogos Universitários de Comunicação e Artes), em São Paulo, divulgaram que, a partir da edição de 2018, atletas trans serão permitidos, por regulamento, a jogar nas modalidades dos gêneros que se identificam.

“Pessoas transgênero ainda brigam para conquistar seu espaço na sociedade. No esporte, não é diferente. Enquanto a legitimidade da participação da Tiffany, uma atleta transexual na Superliga de Vôlei, é colocada em jogo, o esporte universitário dá um passo à frente. As atléticas que compõem o JUCA aprovaram a participação de atletas transexuais nos Jogos”, escreveu o Instagram oficial da competição.

Essa discussão dentro da competição universitária não é uma novidade. Em contato com a reportagem do UOL Esporte, Yuri Zveibil, atual diretor geral de esportes do Juca, afirmou que a discussão sobre a inclusão de atletas trans em regulamento teve início durante a preparação da edição do ano passado.

“A demanda surgiu quando estávamos discutindo o regulamento da edição do ano passado do Juca, 2017. A Belas Artes trouxe na reunião um caso de uma atleta deles que é um homem trans. Porém a discussão acabou “ficando para lá” porque o atleta da faculdade não iria mais jogar. Neste ano, a diretoria da Laaca (Liga das Atléticas Acadêmicas de Comunicação e Artes) retomou a discussão entre agosto e setembro, com a nova formação, por acreditarmos que isso deveria conter em regulamento”, disse ele.

O novo artigo do regulamento dos jogos universitários protege dois procedimentos possíveis para os transgêneros. Um deles é só para o caso do atleta querer usar o nome social mas, ainda sim, jogar pela modalidade de seu gênero biológico. A segunda parte do artigo abrange as pessoas que querem jogar a competição pelo gênero que se identifica.

Zveibil afirmou que para um atleta ser inscrito na competição como trans é necessário apenas uma auto declaração, solicitando seu desejo. Tal carta deve ser assinada pelo competidor em questão e pelo presidente e pelo diretor geral de esportes da atlética.

“O procedimento para inscrever estes atletas é similar a todos os outros, no sentido de que a pessoa tem que estar na lista de alunos da faculdade e na lista de atletas que a atlética entregar para a Laaca. A única coisa é que tem que ter esse documento a mais”, explicou.

Liga pode vetar inscrições suspeitas

Segundo a liga, durante as reuniões sobre o tema, as discussões fluíram muito bem, no sentido de que todas as atléticas envolvidas votaram sim para a nova regulamentação. Entretanto, um dos únicos contrapontos levantados pelas instituições participantes é o possível fato de uso da nova regra com má fé, colocando homens para jogar com mulheres – e vice-versa, alegando que estes são atletas transgêneros.

Sendo assim, a diretoria da Laaca incluiu em regulamento que deve ser informada, com no mínimo uma semana antes da inscrição dos atletas, sobre a existência de atletas nesta condição. E, fora isso, foi dado poder de veto à diretoria, caso suspeite de uso indevido da nova regra.

“Está regulamentado e apalavrado com as atléticas, que todo caso será submetido a apreciação da Laaca, sendo esta imparcial e com poder de veto, caso ache algum caso suspeito. Essa parte do artigo é para garantir o bom senso”, confirmou Yuri.

Yuri também disse que não será possível a realização de nenhum exame biológico e hormonal nos jogos, para comprovar que os atletas trans estão em níveis similares, das pessoas nascidas com o gênero da modalidade. “No Juca, não tem a condição de fazer exames para comprovar níveis hormonais nestes atletas, como acontece em competições de outros níveis esportivos”, contou.

Os Jogos Universitários de Comunicação e Artes é uma competição paulista, em nível universitário. Hoje em dia, oito faculdades fazem parte, sendo elas Faculdade Belas Artes, Escola de Comunicação e Arte da USP, Faculdade Cásper Líbero, Mackenzie, Universidade Metodista, PUC de São Paulo, PUC de Campinas e Anhembi Morumbi.

A edição de 2018 acontecerá entre os dias 28 de abril e 1 de maio, no feriado do Dia do Trabalhador. Tradicionalmente, os jogos acontecem no feriado de Corpo Christi. Entretanto, devido a Copa do Mundo, a competição foi antecipada. A cidade-sede dos Jogos ainda não foi divulgada.

O pioneiro no JUCA

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal
O primeiro atleta transgênero que pode disputar o Juca vem da Faculdade Belas Artes, em São Paulo. Guilherme Abreu, 23, é aluno de Publicidade e Propaganda da instituição e fez sua mudança de gênero quando ainda tinha 17 anos.

Ele disse que chegou a jogar nos times femininos da faculdade, mas quer conquistar seu espaço nos times masculinos, que é o gênero que Guilherme sempre se identificou. “Cheguei a jogar pelo time feminino, mas parei por querer meu espaço. Para isso, compro qualquer briga para jogar de acordo com o meu gênero”, contou.

Guilherme afirmou que irá participar das seletivas dos times masculinos da Belas Artes, como futsal e handebol, e disse estar empolgado em representar sua faculdade no Juca. “Estou ansioso para as seletivas e quero conseguir jogar os jogos, defendendo as cores da minha faculdade pelo gênero que eu realmente sou”, disse.

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