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Paratleta radical irá a Jogos de Inverno com prótese comprada por correio

Divulgação
André Cintra com prótese especial de snowboard comprada pelo correio Imagem: Divulgação

Karla Torralba

Do UOL, em São Paulo

10/03/2018 04h00

Quando André Cintra perdeu parte da perna direita em um acidente de moto não imaginava que 20 anos depois fosse ser um dos paratletas mais radicais do Brasil. Até o momento ele pratica: kitesurfe, wakeboard, stand up paddle, snowboard, snowkite - uma mistura de snowboard e kitesurf. E não pode ver um esporte novo que já quer se aventurar. Com os mais variados tipos de próteses para cada modalidade, disputará sua segunda Paralimpíada de Inverno, na Coreia do Sul, com um equipamento comprado pelo correio durante uma viagem de férias.

“Eu construía as minhas próprias próteses e quis fazer snowboard como turista, mas não consegui ficar em pé com minha prótese, fiquei frustrado. Estava nos Estados Unidos e descobri que tinha um cara que tinha voltado da guerra que construía próteses pra snowboard. Eu liguei na empresa dele e disse que queria comprar as próteses de snowboard.  Eu estava na Califórnia e a moça que me atendeu falou pra passar uma semana em Utah pra tirar as medidas, mas eu não teria tempo. Eu falei pra ela passar o cartão de crédito e me mandar a prótese, porque eu só iria ficar dois dias. Ela me achou maluco, ninguém compra uma prótese por correio”, contou André Cintra.

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A prótese desenhada a mão de kitesurf Imagem: Divulgação
São cinco próteses no total, todas feitas pensando totalmente no esporte que seu dono praticará. Das mais modernas até as feitas de forma quase que artesanal, André Cintra é atleta radical por natureza e está sempre experimentando as mais novas modalidades.

“Eu fui fazendo, construindo. Com a prática, você vai aprendendo o que precisa em cada esporte. No kite, por exemplo, como eu já perdi três próteses, eu fiz uma que flutua. Ela tem um sistema específico pro kite e um sistema de flutuação, agora eu consigo achar ela na água. Isso faz parte da vida, perde mesmo, porque ela cai e afunda”, explicou.

A prótese de kite de André Cintra foi feita de maneira artesanal. “A gente desenha as próteses. Essa que tenho foi num formato que a gente desenhou, a do kite. Fiz com um amigo que faz prancha de kite, construímos juntos”.

André admite que o investimento em próteses específicas para conseguir praticar os mais diversos tipos de esporte não é baixo, mas preferiu não entrar em detalhes de valores. O UOL Espore apurou que um equipamento mais simples de corrida pode custar a partir de R$ 10 mil.

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Imagem: Divulgação

A curiosidade de conhecer e praticar diversos esportes fez André parar na seleção paraolímpica de inverno. Em uma conversa durante uma consulta de rotina para ajustar uma das próteses, recebeu o contato de um selecionador da seleção brasileira que procurava um snowboarder brasileiro. Tempos depois foi fazer uma prova no Chile e passou mesmo estando com o braço quebrado.

“O cara do comitê brasileiro me mandou uma mensagem em cima da hora falando ‘essa é sua grande chance, próxima quarta no Chile’. Arrumei as malas correndo. Eu tinha acabado de voltar do Chile, tinha quebrado o braço, mas arrumei as malas correndo, fui para o Chile, onde aconteceriam as seletivas e aí me convidaram pra ser atleta. Fiz a prova sem tipoia. Não falei pra ninguém que estava com o braço quebrado, porque senão não iriam me deixar fazer. Se eu não tivesse feito, não estaria onde estou agora”, relembrou André o episódio que o colocou na seleção em 2012.

Além de praticar vários esportes, André também é empresário e se divide na rotina de atleta e de homem de negócios. Há 10 dias do início da Paraolimpíada de Inverno da Coreia do Sul viajou para o Japão para intensificar os treinamentos e a adaptação ao clima frio. André estreia no dia 11 de março na competição. O Brasil vai com três atletas no total. "Conseguimos mais uma vez classificar o Brasil, isso já é uma vitória. O fato de o Brasil estar entre os 30 atletas do mundo na modalidade é uma vitória”, ressaltou.

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