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Systema: a arte marcial russa que conquistou atores famosos e games de ação

Facebook/Systema Brazil
Imagem: Facebook/Systema Brazil

Priscila Gorzoni

Colaboração para o UOL, em São Paulo

15/03/2018 04h00

O que os games Call of Duty Black Ops e Splinter Cell-Blacklist têm em comum? Os dois jogos foram feitos a partir de sensores usados em instrutores de uma arte marcial russa. O Systema, também chamado de "poznai sebia", que significa “conheça você mesmo”, ainda aparece em filmes como 'Santos e Pecadores' (2010) e 'Codinome Cassius' (2011), estrelado por Richard Gere, além da série Blindspot, em que a agente principal revela que tem treinamento em Systema.

Mas não é só nas películas e games que a arte marcial tem chamado atenção. Atores como Wesley Snipes, Mickey Rourke, Charlie Hunnan e o brasileiro Kiko Pissolato praticam a modalidade. Ela foi criada pelo povo eslavo, na região da atual Rússia, que precisou repelir invasores de muitas origens, com diferentes estilos de combate e armamento. No entanto, as autoridades passaram a limitar este tipo de treinamento a unidades das Forças Especiais. Por isso se chama o Systema de "a luta da KGB" ou "dos espiões russos".

Sem katas, uniformes ou rituais

O Systema é praticado na Rússia em várias escolas e com metodologias diferentes. Mas a arte tem sido difundida no Canadá, Japão, Estados Unidos, todos os países da Europa e América do Sul, Austrália e África do Sul.

No Brasil, o primeiro grupo de treino surgiu em São Paulo em 2000 com o Gustavo Castilhos, Guilherme Stamato, o Gaffa, e Nelson Wagner. Gaffa conta que nesse início a única maneira de aprender era assistindo a fitas VHS e praticando em grupo. Ele ouviu falar da arte pela primeira vez, em 2001, já formado em educação física, e praticante de várias outras artes marciais.

"Em 2009 começamos juntos a dar aulas de Systema em São Paulo (Gaffa e Nelson), mas anos depois tomamos caminhos independentes. Hoje há instrutores certificados nos estados de SP, RJ, RS, PA, MA, além de alguns grupos de treino em PE, RN e AL", diz Gaffa.

Larry Busacca/Getty Images for Overture Films
O ator Wesley Snipes é um praticante de systema Imagem: Larry Busacca/Getty Images for Overture Films

Nelson Wagner dos Santos, educador físico, pós-graduado em Reabilitação Postural, virou instrutor desta arte em 2008, criando a escola Systema Brazil. "Eu vinha procurando uma arte marcial mais simples para ensinar a um grupo da Polícia Federal. Foi quando me deparei com o Systema".

O Systema não possui katas (sequência de movimentos das artes marciais japonesas), nem faixas, graduações, uniformes, rituais ou campeonatos. Gaffa relata que nessa arte a "improvisação" é mais importante do que a automatização de uma resposta. As "técnicas" são usadas como ferramentas de estudo, sem se limitarem a elas.

Por isso, todas as possibilidades de combate, em pé, no solo ou sentado contra um ou mais oponentes são bem vindas. Desde golpes contundentes, como socos, chutes, cotoveladas, joelhadas, cabeçadas, golpes com os ombros, quadril e chaves articulares, alavancas, imobilizações e projeções.

Nessa arte há treinos com facas, bastões, correntes, armas de fogo ou improvisadas, como: chaves, livro, revista, caneta, cadeira e mesas, por exemplo. O foco do Systema é lidar rapidamente com as circunstâncias apresentadas para se chegar a um resultado efetivo. É por isso que não há campeonatos, o objetivo é resolver.

Gaffa explica que é muito mais efetivo se manter alerta a cada situação e usar os movimentos naturais do corpo em cada situação. "Não é apenas a adaptação imediata a cada situação que difere o Systema das outras artes marciais. Uma diferença fundamental é o foco no relaxamento. Pode parecer contraditório estar relaxado em uma situação de combate, é um dos principais objetivos a serem alcançados no Systema", conta.

Duas escolas, poucos alunos e alunas

Existem duas escolas de Systema no País, a do grupo do Gaffa Systema Brasil e a do Nelson Wagner Systema Brazil. O público que pratica systema no Brasil ainda é pequeno: em sua maioria praticantes de outras artes marciais, profissionais da área de segurança, policiais e militares.

Facebook/Systema Brazil
Imagem: Facebook/Systema Brazil

É comum se encantar com o Systema depois de conhecer outras artes marciais e perceber como a prática é efetiva. "Força, agilidade, flexibilidade sempre ajudam em qualquer aspecto da vida, mas não são necessários para treinar Systema, ou ser efetivo em combate", diz Guilherme.

Os alunos não planejam como vão golpear ou defender, mas a se virar durante a situação que se apresenta. Os pilares fundamentais dessa arte marcial são: a respiração, o relaxamento, a postura e a movimentação. "Todas as táticas são baseadas em reações instintivas, habilidades e características individuais, projetadas especialmente para um rápido aprendizado. O lado competitivo e combativo da arte se transforma em um embate individual e psicológico consigo mesmo", explica Gaffa.

No treino de Systema os alunos lidam com as situações reais, caminhando livremente ou em ambientes confinados (como escritório), começando de pé, sentados em cadeiras ou deitados no chão.

A fisioterapeuta e instrutora de systema Tatiana Wscieklica, 26 anos, conta que os principais movimentos dessa arte marcial são os humanos. "Dizemos que marcializamos o gesto do dia a dia e não que aprendemos técnicas específicas. Um movimento básico que treinamos bastante é o andar, pois é por meio da forma como andamos que treinamos distância de ataque, posicionamento adequado para executar um movimento, esquiva, entre outras coisas", exemplifica.

O treino de Systema é intenso fisicamente, e possibilita às mulheres desenvolveram a força, autoestima, segurança, percepção e a tranquilidade.

Tatiana conta que treinar Systema lhe permitiu acreditar em suas capacidades. "Só de aprender a respirar e controlar as minhas emoções em uma situação de estresse, vale o treino. Talvez eu não seja atacada na rua, mas com certeza passo por estresses na vida, seja no trânsito, em uma reunião de trabalho", aconselha a instrutora.

Simulação de situações reais

O publicitário Pablo Lobo, 40 anos, começou no Systema em 2014 com o Gaffa. De uns anos para cá, por causa da prática muita coisa mudou em sua vida, desde a respiração, postura, nível de relaxamento, entendimento do corpo humano e seus limites. Ele conta que as aulas de Systema são movimentadas e exigem atenção. Sempre tem um treino de respiração, alongamento e depois acontecem treinos de quedas, agarrões, socos, chutes e projeções.

"A parte mais difícil no treino de Systema é entender que a dor existe mas você consegue superá-la. Os treinos de strikes sempre são mais dolorosos. Na minha visão o Systema é uma mistura de brutalidade, energia e a ciência onde tudo é explicado na biodinâmica", conta.

Facebook/Systema Brazil
Imagem: Facebook/Systema Brazil

Assim como Pablo, a jornalista Louise Sottomaior, 39 anos, completou dois anos de treino de Systema. Ela começou a treinar em 2016 e percebeu que as aulas desenvolvem a sua mobilidade, percepção e capacidades de combate. Mais do que isso, a deixam confiante de que consegue lidar com diversos tipos de situação. Melhorou em vários sentidos, desde a percepção de espaço e risco, respiração, autoconhecimento, mobilidade, combate, autoconhecimento, autoconfiança.

"Valoriza as capacidades, ensina cada um a encontrar as técnicas mais eficientes para embates com diversos tipos de pessoas. Por exemplo: sou mulher e pequena, o Gaffa me ensina a tirar vantagem disso em um embate com homens grandes e fortes", conta.

Por motivos de saúde e estresse, a fotógrafa Ana Beatriz, 26 anos, resolveu procurar o Systema em 2016. "Treinei alguns meses de Muay Thai e consigo perceber que o Systema tem um cuidado muito maior com o corpo, principalmente na percepção dos movimentos com os limites do seu corpo. Não é uma questão de força ou altura que são determinantes para a aplicação de um golpe contra o seu oponente. Se você tem os princípios bem treinados e bem fundamentados não importa o físico do seu oponente, você vai conseguir sair da situação de risco sem grandes danos. Além disso, o Systema também ensina a usar a força do oponente contra ele mesmo e isso é uma vantagem para mim que não conto com uma grande massa muscular ou muita força".

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