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"Falavam que eu tinha Aids". Atletas relatam a obsessão pela beleza

Arquivo Pessoal
Andrea Lopes superou a anorexia e foi tetracampeã brasileira de surfe Imagem: Arquivo Pessoal

Beatriz Cesarini e Karla Torralba

Do UOL, em São Paulo

01/05/2018 04h00

Ondas radicais, piruetas, saltos, tudo isso com extrema perfeição. Mas pode não ser suficiente e para a surfista Andrea Lopes, a ginasta Angélica Kvieczynski e as patinadoras artística Isadora Williams e Maryna Scocca muitas vezes não foi. A estética era exigida mais e mais. Para atingir o padrão ideal de magreza considerado essencial para conseguir sucesso no esporte, as quatro atletas viram loucuras: ingestão de remédios, ficar sem comer e beber água, rotinas exaustivas de exercícios.

Muitas também fizeram loucuras. “Falavam que eu tinha Aids”, diz a surfista Andrea Lopes. A esse ponto ela chegou. As ondas radicais e as boas notas em competições não satisfaziam a atleta de 23 anos. Ainda no início da carreira, a tetracampeã brasileira de surfe não estava feliz com o próprio corpo. A obsessão em ser magra a levou a sofrer de anorexia e a desistir do esporte para sobreviver.

Assim como Andrea, Angélica, considerada por 12 anos a melhor competidora da ginástica rítmica do país, viu-se obcecada por ter um corpo magro. Aos 16 anos, comprava laxantes escondida e não tomava água. “Logo que entrei na seleção eu tomava laxante pra manter o peso, não podia aumentar. Eu tomava todo dia uma cartela toda para no outro dia não pesar. Eu tenho problema até hoje em beber água. É difícil eu tomar, porque falavam que água engorda. Eu fiquei muitos anos com o treino todo sem beber água”, relata.

“Cheguei aos 38 kg. "Falavam que eu estava com Aids”

Arquivo Pessoal
Andrea Lopes na época que sofria de anorexia, aos 23 anos Imagem: Arquivo Pessoal
Andrea Lopes foi tetracampeã brasileira, campeã de uma etapa mundial de surfe e virou referência na modalidade depois de superar a doença. “Cheguei a pesar 38 kg. As pessoas que me viam não falaram que eu estava com anorexia. As pessoas falavam: 'Ela está com Aids'. Eu me pesava toda hora, não comia. Eu fiquei um ano e meio sem menstruar, fiquei anêmica e mexeu bastante com minha libido. Quando voltei para o Brasil de novo e falaram perto da minha mãe que acharam que eu estava com Aids, ela reuniu os patrocinadores e falou que eu ia parar de competir. Larguei as competições por um ano e comecei a resgatar o prazer de comer. Quatro anos depois fui a um campeonato mundial e fui convidada para representar o Brasil em 1999, ganhei a etapa no Brasil”, conta Andrea.

“Comprava laxante escondido e passava a noite no banheiro”

Saulo Cruz/Exemplus/COB
Angélica no Pan de 2015 Imagem: Saulo Cruz/Exemplus/COB
Angélica Kvieczynski ganhou medalhas e campeonatos pelo Brasil. Nos bastidores, vivia a batalha e a cobrança pelo peso ideal. “Eu convivi com muitas atletas que vomitavam e tinham bulimia. Não que eu não tenha tentado vomitar, mas foi com uma atleta mais velha que aprendi a tomar laxante. Passava a noite no banheiro. Hoje quero ser técnica e tenho uma metodologia diferente. Não é só pressionar o atleta e acho que não é necessário. Eu tinha medo de subir na balança. Hoje ainda não bebo muita água e tenho receio de usar roupa justa”.  

“Sinto pressão, mas conheço meus limites”

Harry How/Getty Images
Isadora Williams foi destaque do Brasil na Olimpíada de Inverno de 2018 Imagem: Harry How/Getty Images
Isadora Williams virou sensação do Brasil na última Olimpíada de Inverno. A patinadora fala que a questão do peso na patinação é vista como tabu. A russa Yulia Lipnitskaya, que se destacou em Sochi-2014, por exemplo deixou o esporte aos 19 anos por causa da anorexia. “A cobrança é muito grande. A patinação tem muito a ver com a física da rotação do salto e o momento de inércia, portanto se o patinador ganhar ou perder muito peso, ele também perde a consistência dos saltos. A luta com a auto-estima é muito grande. Finalmente alguns atletas estão falando mais sobre isso. Eu sinto pressão, mas conheço os meus limites. Com alimentação certa e equilibrada, é possível comer de forma saudável e sem ganhar peso”, diz Isadora.

“Tive amigas que ficavam sem comer e passavam mal nos treinos”

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Maryna Scocca em competição de patinação artística Imagem: Arquivo Pessoal
Maryra Scocca competiu profissionalmente na patinação artística por 12 anos e viu amigas fazerem extremos pela estética. “Para você ser avaliada na patinação tem a nota A e a nota B, a técnica e a artística. A artística conta muito e vai desde a coreografia até a estética. Tive amigas que tiveram anemia, ficava sem comer e passavam mal no treino. Uma delas já precisou tomar soro na veia. Tinha gente que fazia medida de collant mais apertadas para dar um gás antes do campeonato e emagrecer. Tive amigas que falavam que a mãe que tinha mandado, monitorava para não comer”. 

Como perceber que algo está errado:

O médico psiquiatra Luiz Scocca ressalta que o ambiente esportivo é propício aos transtornos alimentares e que casos assim em atletas acontecem até dez vezes mais que em não-atletas. "A incidência é maior no ambiente dos atletas. Esse ambiente tem que ser muito bem entendido pelos profissionais, porque não pode se negar que se quer que a pessoa conquiste um feito heroico, superior, que supere limites e atinja, o desejo dos seres humanos. Isso não tem nada a ver com o transtorno alimentar, porque não é preciso. O que acontece, acontece por um erro. Temos tecnologia em nutrição, também em atividades físicas, atendimento psicológico e psiquiátrico suficiente pra dar conta disso", ressalta.

O endocrinologista Renato Zilli aponta riscos a longo prazo. "A primeira coisa mais comum é a amenorreia secundária (ausência de menstruação) por causa do baixo peso. Com a atividade física, as atletas podem desenvolver e isso pode gerar consequências pra saúde dos ossos. Também pode gerar problemas musculares por causa da desnutrição. A massa mineral óssea é formada até os 25 anos e se tem baixo peso, a pessoa pode não formar a massa óssea", explica. 

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Andrea Lopes teve anorexia e ficou longe do surfe por um ano Imagem: Arquivo Pessoal
Os sinais da anorexia: A pessoa se recusa a ganhar peso, busca peso abaixo do normal no contexto dela de faixa etária, de idade e gênero. Tem um distúrbio da imagem corporal que é bastante famoso que a pessoa se vê gorda e continua se vendo como gorda e muitas vezes no caso da mulher a ausência de menstruo ou do volume ou até a amenorreia.

Os sinais da bulimia: Come-se mais rápido que o normal, até se sentir desconfortável, muitas vezes não se sentindo com fome, o hábito de comer sozinho é comum por se sentir envergonhado com o jeito que come e finalmente se sentir depressivo, culpado e com a autoestima baixa. Um sentimento de estresse mesmo, mal-estar, desgosto. 

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