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Helena Calil revela motivos de saída da Fox Sports e fala de novos desafios

Helena Calil se despede da Fox Sports - Reprodução/Instagram
Helena Calil se despede da Fox Sports Imagem: Reprodução/Instagram

Debora Luvizotto

Do UOL, em São Paulo

19/07/2019 04h00

Depois de quase oito anos de Fox Sports, a jornalista Helena Calil se despediu da emissora na última semana. Ela vai em busca de novos desafios profissionais, estreia no DAZN na próxima semana e já tem o piloto de um programa que pretende colocar em prática em breve.

Em entrevista ao UOL Esporte, a ex-apresentadora dos programas "Bom dia Fox" e "Boa Tarde Fox" contou os motivos que a levaram a pedir o desligamento da emissora.

"Em 2012, quando entrei na Fox, coloquei os meus sonhos no papel. Fiz uma lista e coloquei todas as minhas metas; o que eu queria fazer, o que queria apresentar, as reportagens e coberturas que queria participar. Neste ciclo que acabei de encerrar, eu completei todos esses itens. Mais que isso; tive conquistas que eu nem imaginava que pudesse ter quando entrei. Isso me deu um orgulho, mas uma ansiedade muito grande. A hora que eu fui colocar os sonhos de 2019, vi que não era justo colocar os mesmos sonhos de 2012. Não vou fazer as mesmas ações para ter os mesmos resultados. Preciso evoluir. Veio uma inquietação. Pode até parecer que eu saí precipitadamente, mas foi um sentimento trabalhado durante meses. Neste momento, percebi que estava segura e poderia vir com mais autonomia para este mercado que está se transformando", explicou.

Agora, ela analisa com calma as mudanças na forma com que as pessoas estão consumindo as informações. "Quando eu entrei, era um modelo de jornalismo, de programa que estava em alta, que todo mundo sonhava, mas a internet transformou a maneira de as pessoas consumirem os conteúdos esportivos. Você acha que em 2012 alguém ia vislumbrar a possibilidade de fazer uma entrevista por Skype com um jogador que está na China? Abriu um mundo de possibilidades e, quando vi isso acontecendo, senti a necessidade de fazer parte de toda esta transformação. Essa decisão de pedir demissão foi uma necessidade de me transformar e ganhar mais autonomia como jornalista", pondera.

A jornalista não cansa de dizer o quanto aprendeu e cresceu junto com a emissora durante esses anos e guarda com carinho as lembranças de quando foi contratada.
"Quando eu cheguei, os computadores ainda estavam nas caixas, estava tudo ainda sendo construído. Era engraçado ver a reação das pessoas nas ruas. Muita gente não fazia ideia do que era a Fox Sports, o que estava fazendo no Brasil. Eu cresci junto com a Fox. Foi um caminho que a gente trilhou junto. Criei um vínculo muito grande, considero como minha família. Quando eu cheguei, era um grupo muito pequeno de profissionais, muita gente de fora, como eu. A gente se apoiou muito e essa força foi fundamental para os meus passos seguintes", disse.

Trajetória na Fox Sports

Ela começou como repórter, teve a oportunidade de fazer coberturas internacionais até ganhar o comando do programa "Bom Dia Fox". "Inicialmente, a atração tinha 1 hora de duração e aumentou para 3h. Um modelo de programa que está lá até hoje, fomos nós que criamos. Fui para o Rio de Janeiro para a Copa do Mundo. Depois me passaram para o 'Boa Tarde Fox'".

Depois disso, achou que não teria mais conquistas como repórter. "Até que me mandaram para fazer a chegada do Paulinho no Barcelona, em 2017. No ano seguinte, me mandaram para fazer um Barcelona x Real Madrid. Isso para mim era o máximo, muito mais que a minha listinha de 2012. Logo depois, fiz a Copa da França, em que o Daniel Alves saiu lesionado e fiquei mais tempo em Paris do que o normal. Tive uma informação privilegiada que ele não iria para a Copa do Mundo e passei isso em primeira mão".

Momentos de superação

Uma das experiências que destaca foi a cobertura da prova de rali mais longa do mundo. "Eu sobrevivi ao Rali Dakar, foi uma superação como ser humano e profissional. A gente tinha a infraestrutura básica de sobrevivência e, ao mesmo tempo, tinha que trazer uma cobertura de qualidade de um evento que é monstruoso. Tive a oportunidade de participar das edições de 2014 e 2015".

Maior tristeza

No entanto, não foram só dias felizes em sua carreira. Ele relembra a tragédia com o avião da Chapecoense em 2016. "Foi o dia mais triste da minha vida. Estava indo para a emissora quando descobri que meus companheiros estavam no avião também. Estávamos cobrindo intensamente o time, então também tínhamos um envolvimento com os jogadores. Foi um luto coletivo, momento em que a gente se tornou mais ainda uma família".

Quando eu cheguei, tinha computador na caixa ainda, embrulhado. O teto da redação era alto. Um aviso pra não sonhar baixo. Sonhos que ganharam cheiro também. De tinta fresca. Mal sabia eu que não era o estúdio no palacete do Cosme Velho que estava em reforma. Era a menina Helena de 2012, empolgada com a sua primeira matéria no FOX SPORTS, cobrindo a saída do Giba do hospital. Aliás, garota, sabe essa canopla do microfone que você está segurando? Essa camisa que você está vestindo? Elas te levarão para conhecer o mundo. Pra contar de perto as histórias de seus ídolos. Inclusive, sabe aqueles profissionais que você admira tanto na TV? Você trabalhará com eles. E vai ter gente te vendo na telinha, também querendo estar ao seu lado nas coberturas. Pode ir de coração aberto bater na porta da diretoria desse novo canal. Será que ele vai dar certo no Brasil? Acredite em mim, como vai! E será que você vai se encaixar nele? Olha, mocinha, serão os quase 8 anos mais intensos da sua vida. Vai cobrir Copa do Mundo e Olimpíada. Sabe aquela maluquice de Rally Dakar? Você vai pra lá também. Duas vezes. Vai pra Camarões reportar como funciona o futebol por lá. E esteja preparada, porque o Neymar deixará o Santos, rumo a Barcelona, e você estará no Camp Nou pra fazer a apresentação dele. Prepare-se também para anunciar, de Paris, que Daniel Alves não vai pra Copa do Mundo. O Nordeste que você tanto ama? Está no roteiro também. Assim como o campeonato espanhol. Não se assuste, mas você vai cobrir um Barcelona x Real Madrid. E não tenha medo de comandar programas diários da casa. E até em transmissão de basquete, você vai se jogar. No entanto, já aviso que nem tudo serão flores. Algumas (muitas) gafes e escorregões farão parte desse período. Não se preocupe, faz parte (e você vai rir disso também). Vai ter o luto mais difícil da sua vida. Porém, muita gente fantástica estará ao seu lado nessa. Ah, essas pessoas, inclusive, merecem um capítulo à parte. Quanta gente incrível você vai conhecer. Da portaria até o estúdio. E fora dos muros da emissora também. Pessoas da mais alta qualidade. Como profissionais e seres humanos. (Continua nos comentários)

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Novos desafios profissionais

Helena Calil fará jogos da Copa Sul-Americana pelo DAZN - Reprodução/Instagram
Helena Calil fará jogos da Copa Sul-Americana pelo DAZN
Imagem: Reprodução/Instagram

Nesta semana, o DAZN anunciou Helena como a nova integrante da equipe, que fará sua estreia na próxima quarta-feira (24).

"Quando pedi meu desligamento, não tinha absolutamente nenhuma proposta. Foi a necessidade de me transformar que levei em consideração. Estava assistindo essa mudança nos meios de comunicação, buscando essa adequação à nova realidade. Pensei em estudar, propor modelos de produção de conteúdo e distribuição às organizações internacionais. Foi nesse turbilhão de pensamentos que apareceu o convite do DAZN".

No entanto, ela pondera sobre essa nova experiência: "Muita gente está falando que sou a nova contratada, mas acho importante ressaltar que a maneira de trabalhar é diferente. Vou estrear na Sul-Americana para fazer dois jogos: Botafogo x Atlético-MG e depois faço o jogo de volta em Belo Horizonte. Pontualmente, vou fazer esses dois jogos. Depois, continuaremos com o projeto".

Novidades

Não será só no serviço de streaming que ela irá se aventurar nesta nova fase. Ela já projeta outros desafios e faz mistério sobre o que vem por aí. "Já tenho um piloto em mente, que estou começando a colocá-lo em prática. É algo que penso há muito tempo e acho que agora chegou o momento propício para dar uma atenção especial. Quem sabe, em breve, poderemos ter novidades".

Vida pessoal

Na vida pessoal, ela acaba de passar por mais uma mudança. Natural de São Carlos, interior de São Paulo, passou um tempo na capital até se mudar para o Rio de Janeiro. Agora decidiu voltar para a capital paulista. "Esta cidade respira transformação e novas oportunidades".
Helena namora o espanhol Albert Castelló, o representante da LaLiga no Brasil e já pensa em ampliar a família. Mas calma! Não é em filhos que ela está pensando no momento. "Pretendo adotar uma cachorra vira-lata. Já tem até nome, Carmem Lúcia. Se forem dois, ela terá a companhia de Luizito Suarez".

Opressão no trabalho por ser mulher

Mesmo com toda sua experiência no mundo esportivo, Helena já sofreu preconceito por ser uma mulher em um ambiente que por muitos anos foi dominado por homens. Seja por oportunidades perdidas por conta do gênero ou situações humilhantes que passou.

"Estava em uma coletiva de imprensa em que o entrevistado estava muito tenso, passando por uma crise e a minha pergunta era em relação exatamente a isso. Era algo pertinente e ele cresceu para cima de mim visivelmente pelo fato de eu ser mulher. Lógico que isso gerou um desconforto em toda coletiva, eu tive que responder sem o microfone de uma maneira educada para não atrapalhar", relembrou.

Ela comparou a cobrança que as mulheres recebem em relação ao mesmo trabalho exercido por homens. "A gente vê o 'feedback' na internet. Quando o homem comete algum equívoco, a paciência é muito maior. Quando a mulher erra, é porque é incapaz, incompetente, está ali só porque tem uma aparência bonita. Tem que provar sempre, estar acima de qualquer expectativa, trabalhar o dobro em relação à credibilidade para conseguir ter o mesmo prestígio. Aqui no Brasil, é um leão por dia".

Legado da Copa do Mundo feminina de 2019

"O grande aprendizado desta Copa foi derrubar conceitos preestabelecidos e completamente sem fundamentos, por exemplo, que o futebol feminino não é atrativo, não é bem jogado e não dá audiência", disse sobre o campeonato realizado este ano na França.

Ela também destacou as mudanças que a modalidade passou no país. "Aqui no Brasil teve muita visibilidade, não só em números de audiência, mas também nos debates e espaço que o assunto ganhou para ser discutido. Isso não pode acabar com o mundial. 2019 é um ano crucial, não só pela Copa que foi transmitida pela TV aberta, mas também pela exigência que fez com que os times da série A se mexessem e se adequassem a essa nova regra de criar times de femininos, obviamente os que ainda não tinham".

Apesar do momento de visibilidade que o esporte passou, a jornalista ressalta: "O futebol feminino é promissor, mas tem que batalhar, continuar cobrando. Isso se estender a outras modalidades".