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Isaquias: técnico deixou 700 horas de treino até 2020 antes de morrer

Isaquias Queiroz com uma das medalhas de prata conquistadas em 2016: foram 3 medalhas nas Olimpíadas do Rio - Eduardo Knapp/Folhapress
Isaquias Queiroz com uma das medalhas de prata conquistadas em 2016: foram 3 medalhas nas Olimpíadas do Rio Imagem: Eduardo Knapp/Folhapress

Léo Burlá

Do UOL, no Rio de Janeiro

24/07/2019 04h00

Jesus Morlán perdeu a batalha contra um câncer cerebral em novembro do ano passado, mas deixou um enorme legado. O maior medalhista da história do esporte espanhol foi atleta dele, assim como o maior multimedalhista olímpico brasileiro. São, por enquanto, nove medalhas em Jogos Olímpicos, mas a décima já está encomendada.

Isaquias Queiroz continua lidando diariamente com o treinador que o lapidou para ser a joia rara do esporte brasileiro. Todos os dias, até a Olimpíada de Tóquio, ele sabe exatamente o que precisa fazer. Morlán foi embora, mas deixou um programa detalhado de treinamento como herança.

"Jesus deixou, até Tóquio, um programa de treinos. Depois vamos adaptar os treinos, ver o programa olímpico para depois. Mas até lá, ele deixou tudo esquematizado. A gente sabe que, num ano, temos de conseguir uns 4 mil quilômetros. Isso dá umas 700 horas. Até Tóquio, dá uma faixa de 4,8 mil quilômetros, umas 700 e poucas horas. Se fizer menos, perde treinamento e prejudica no rendimento", ensina Isaquias.

O UOL Esporte falou com Isaquias na semana passada, antes do embarque para o Pan-Americano de Lima, no Peru. O canoísta estreia nos Jogos no sábado. Ele está inscrito nas provas do C-1 1000 e do C-2 1000 (com Erlon Souza). Veja os principais pontos:

Jesus Morlan, técnico da seleção brasileira de canoagem até o ano passado, posa ao lado de Isaquias Queiroz, Ronilson Oliveira e Erlon Silva - Juca Varella/Folhapress
Jesus Morlan, técnico da seleção brasileira de canoagem até o ano passado, posa ao lado de Isaquias Queiroz, Ronilson Oliveira e Erlon Silva
Imagem: Juca Varella/Folhapress
Mudança de prova

"Vou mudar para prova mais curta. C-1 500m para Paris-2024. Mas até lá, o foco é no C-1 1000m e no C-2 1000m."

Sem Jesus

"A gente sente falta dele, do que ele ensinava. Nos últimos anos, ele sabia o que podia acontecer. Foi se preparando e nos preparando. Ele foi se afastando mais da gente, para que a gente não sentisse tanta falta quando chegasse o momento. Mas sempre vamos sentir falta. A gente está se preparando para chegar em Tóquio e conseguir o que ele queria: a décima medalha olímpica dele. Por mais que tenha a perda dele, tivemos que superar rapidamente."

Como ele preparou

"Ele se afastou, saiu da casa [em que todos da delegação de canoagem moravam, em Lagoa Santa, em Minas Gerais], foi para um hotel. De vez em quando ia no treino. Não podia mais ficar no sol, não ia na lancha. Aí deixava o pessoal com a gente. Foi se afastando, mas as lembranças são muitas de 2013 para cá."

Contato com família

"Falamos com a esposa dele e com a filha. Sempre trocamos mensagem. Elas nos manda mensagens de apoio antes das provas e sempre dizem que ele está olhando por nós. Ela mandou recentemente um vídeo dele fumando um cigarrinho. Parece até que ele estava lá, foi muito especial ver o vídeo. A filha manda mensagem de apoio e cobranças. Ela tem a personalidade dele. Exige da gente foco e determinação."

Vida com novo técnico

"O Lauro [de Souza Júnior, que era auxiliar de Morlán] está fazendo um ótimo trabalho, mas é lógico que é uma pressão a mais de manter o resultado. Ele tem queixas, dúvidas, mas fica feliz e confiante quando vê o treinamento. Ele vê que a gente treina forte todo dia."

Cobrança por ouro em 2020

"Medalha é igual, filho. A gente não escolhe. O trabalho é pelo ouro, mas se vier prata vou estar feliz. E se vier o bronze, também. O foco é ouro. Se pensar em prata, fico com o bronze. Se pensar em bronze, fico em quarto."