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Jogadora da seleção de 3x3 tem de treinar em tabela no quintal de casa

No basquete 3x3, Lu Ariescha treina mais em casa, enquano a pivô Nete trabalha em escola de inglês - Alexandre Loureiro/COB
No basquete 3x3, Lu Ariescha treina mais em casa, enquano a pivô Nete trabalha em escola de inglês Imagem: Alexandre Loureiro/COB

Demétrio Vecchioli

Do UOL, em Lima (Peru)

30/07/2019 04h00

O basquete 3x3 agora é modalidade pan-americana e olímpica, mas o Brasil ainda está na época da pelada de rua. Faltam torneios, faltam equipes, falta dinheiro, falta estrutura, falta experiência, falta apoio da Confederação Brasileira de Basquete (CBB). "Só não faltou vontade de ganhar", diz Nete Mineiro, pivô do time brasileiro que chegou até a disputa pelo bronze em Lima, mas caiu diante da República Dominicana por 20 a 15.

As duas armadoras do time nunca haviam dado uma assistência para ela até 12 dias atrás. A CBB e o Comitê Olímpico do Brasil (COB) ofereceram quatro dias de treinamento no Brasil para a seleção feminina montada às pressas antes dos Jogos Pan-Americanos. Os outros treinos foram em Lima.

"Não é o suficiente, não é o suficiente mesmo", diz a armadora Carla Lucchini, única profissional entre as quatro jogadoras do time - três ficam em quadra, mas todas se revezam de forma muito ágil. Carla é uma das armadoras reservas da equipe de basquete 5x5 (o famoso "basquete de quadra") do Vera Cruz/Campinas, finalista da Liga de Basquete Feminino (LBF) e atual campeão da liga.

Carla é, também, a única que treina basquete com regularidade. Lu Ariescha também bate bola todos os dias, mas o local passa longe de ser apropriado. "Eu só treino porque, graças a Deus, eu tenho uma tabela na minha casa. A gente não tem estrutura nenhuma, nenhuma. As pessoas cobram, mas não sabem como é", reclama a jogadora de 21 anos, que disputou a LBF 2018 por São Bernardo

A tabela, diz Lu (de Luana), é dessas que se compra em qualquer megastore de material esportivo. "Quando dá", ela treina também em um projeto social em Pirituba, na Zona Norte de São Paulo. Aos domingos, aí sim, ela treina com sua equipe, o Corinthians.

Na verdade, uma equipe que usa o uniforme do Corinthians. O apoio do clube paulista é mínimo. "A gente tem que pagar para viajar e disputar os campeonatos", conta. Mesmo assim, o time é um dos melhores do país e conta com outra jogadora do elenco do Pan: Evelyn Larissa.

Nete defende o Blackout 3x3 e não tem condições melhores. "A gente treina nos torneios que acontecem em São Paulo. Nos torneios que acontecem no Rio, em Brasília, não dá para ir porque não tem verba", explica. Ela é, literalmente, uma jogadora de fim de semana. Seu sustento vem do emprego como recepcionista de uma escola internacional.

Nete fala inglês fluente, depois de fazer faculdade nos Estados Unidos. Sem emprego no basquete profissional americano, voltou para o Brasil em 2015 e hoje estuda educação física. Suas colegas de equipe também são universitárias e essa tem sido sua salvação. A Unisantana, que também é onde estuda Evelyn, oferece a ela a oportunidade de jogar campeonatos universitários no 5x5 e no 3x3. Lu e Carla são da rival UNIP.

Brasileiras perderam a semifinal do 3x3 para os Estados Unidos - Alexandre Loureiro/COB
Brasileiras perderam a semifinal do 3x3 para os Estados Unidos
Imagem: Alexandre Loureiro/COB

Falta um modelo

Enquanto se adapta ao movimento olímpico, o 3x3 tem um modelo muito específico de organização. Equipes profissionais jogam torneios aos montes, que têm pesos diferentes. Os resultados são pontuados individualmente aos atletas e o ranking entre as equipes é determinado pela soma dos pontos de seus atletas - mesmo que obtidos por outro time.

Já o ranking entre países soma os pontos dos 100 atletas mais bem ranqueados de um país. Se o Brasil tem poucos torneios e de pouca relevância, suas jogadoras têm poucos pontos. E o Brasil vai mal no ranking. Hoje, é só o 23º colocado, logo atrás de Sri Lanka.

As seleções são montadas apenas para campeonatos oficiais - Mundial, Pan e futuramente a Olimpíada. Muitas das potências da modalidade pegam um time pronto e entrosado, usualmente o mais bem ranqueado, e o convoca inteiro. Mas não há uma receita de sucesso. Os Estados Unidos ganharam o Pan com um time de jogadoras universitárias de 5x5. A Argentina foi prata usando a base da sua seleção de 5x5.

A CBB ainda não definiu como pretende trabalhar. Em abril, o time que disputou o Pré-Mundial tinha duas veteranas do basquete 5x5: Karla Costa, de 40 anos, e Karina Jacob, de 34. Karla, além de jogadora, é gestora do Vera Cruz. O time tinha só duas jogadoras de fato de 3x3, Júlia Pereira, do Corinthians, e Marley Conceição, do Lady's Carioca. Elas também nunca tinham jogado juntas e tiveram, segundo a CBB, "seis dias intensos" de treinos antes da competição. Não conseguiram a vaga.