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Apelidos brasileiros expostos na Lava Jato deixaram Pan em 2º plano no Peru

Adriano Wilkson

Do UOL, em Lima (Peru)

12/08/2019 04h00

Os Jogos Pan-americanos acabaram ontem e, apesar de terem sido o maior evento esportivo já realizado no Peru, ficaram em segundo plano no noticiário local diante da turbulência política que atravessa o país. E muito dessa turbulência tem a ver com o Brasil.

No meio do Pan, enquanto os atletas peruanos lutavam por medalhas, a operação Lava Jato revelava detalhes do esquema de corrupção que abalou as estruturas de poder também no país vizinho. Durante as duas semanas de competições, as capas dos principais jornais peruanos trouxeram manchetes sobre as empreiteiras brasileiras Odebrecht e OAS.

E os jornalistas ainda batem cabeça para entender alguns apelidos jocosos revelados nas planilhas do "Departamento de Operações Estruturadas" da Odebrecht, usado para o pagamento de propina no Brasil e em outros países na América Latina.

Na última terça-feira, divulgação da delação premiada do empresário baiano Jorge Barata trouxe a público os codinomes de figuras chaves da política peruana que teriam recebido subornos para facilitar a vida da empreiteira no Peru. Foi provavelmente a primeira vez que o debate público do país teve que lidar com palavras como "Almofadinha", "Careca", "Bigode", "Magali", "Pelado", "Sexta-feira", "Cabelo Boneca", "Magneto", "Darth Vader" e "Plim Plim", todos apelidos dados pela empresa a políticos, advogados e jornalistas locais.

Todos os citados na delação de Barata negam que teriam recebido dinheiro da Odebrecht como suborno.

"Alguns desses apelidos já tinham aparecido antes, mas no começo da semana eles foram confirmados por Barata e relacionados às pessoas a que se referiam", afirmou o jornalista Alvaro Reyes, do jornal "Perú 21". "Foi um fato importante para que os peruanos entendam como funciona o esquema dessa empresa no país."

Além do Brasil, o Peru é o país mais afetado pelas investigações da Lava Jato, feitas em parceri com promotores dos dois países. Três ex-presidentes foram presos ou estão sofrendo processo e um deles, Pedro Pablo Kuczynski (o PPK), renunciou ao cargo no ano passado na esteira do escândalo. O também ex-presidente Alan Garcia se suicidou antes de ser preso por envolvimento no caso. E Keiko Fujimori, líder do principal partido do país, está presa por consequência da Lava Jato.

A turbulência política levou ao atual presidente Martín Vizcarra, que assumiu após a renúncia de PPK, a sugerir o encurtamento de seu mandato, o fechamento do Congresso e a antecipação de eleições gerais, em discurso feito dois dias depois da abertura do Pan. A maior parte da população apoiou a proposta, de acordo com pesquisas publicadas nas últimas semanas, e Vizcarra viu sua popularidade aumentar.

O presidente aproveitou a onda favorável e se tornou figura repetida em eventos do Pan, como em entregas de medalhas a atletas peruanos. Em seus discursos, voltou a exaltar a capacidade de seu governo de realizar o evento e criticou a oposição, que vinha dizendo que o país não conseguiria entregar a infraestrutura exigida pela organização dos Jogos.

Mas antes que o Pan terminasse, o governo de Vizcarra ainda precisou lidar com um novo escândalo que dominou o noticiário. Protestos contra a presença de uma empresa de mineração mexicana em Arequipa, no sul do Peru, se tornaram greves com adesão inclusive de autoridades locais, já que parte da população considera que a exploração de cobre levará a contaminação e danos à agricultura e ao meio ambiente da região. O presidente teve que intervir pessoalmente, mas a solução para o impasse ainda está longe de acontecer.

Nas arenas esportivas, o Peru fez de longe sua melhor campanha da história dos Pan-americanos ao conquistar onze medalhas de ouro e superar seu recorde anterior de três em Toronto-2015. Mas fora delas, o país continua abalado pela sucessão de escândalos envolvendo seus políticos mais poderosos.