Esporte

Ultra-Trail do Mont Blanc, um laboratório da luta antidoping

07/04/2016 18h03

Paris, 7 Abr 2016 (AFP) - O Ultra-Trail do Mont Blanc (UTMB), uma das corridas de montanha mais tradicionais do mundo, terá uma novidade este ano, com avaliações detalhadas da saúde dos participantes para contribuir na luta contra o doping.

A corrida ao redor da montanha mais alta da Europa, o Mont Blanc (4.897 m), nos Alpes franceses, desafia os limites do corpo humano com um percurso de 170 quilômetros e 10.000 metros de subidas.

"Como organizador, acho muito importante mostrar que é possível lutar contra o doping", afirma Michel Poletti, diretor técnico da prova, conhecida como UTMB.

A próxima edição, que acontece de 22 a 26 de agosto, será usada como laboratório para o trabalho de Pierre Sallet, fisiologista especialista em doping, e Patrick Basset, médico anestesista especialista em provas de resistência e no resgaste em montanha.

"A saúde pública está sendo claramente deixada de lado quando se fala em luta contra o doping", denuncia Sallet, que também é presidente da ONG internacional Athlete for Transparency (Atletas pela transparência, em inglês).

"O tema da saúde era central nas décadas de 1990 e nos anos 2000, quando não existiam tantos testes de detecção de produtos dopantes, principalmente o EPO", lembra.

"Hoje, a luta antidoping está sendo estruturada em torno da Agência Mundial Antidoping (Wada), com foco maior nos testes, deixando um pouco de lado a questão da saúde", lamenta.

Ao invés de colher amostras para tentar encontrar substâncias proibidas, o programa "Quartz", implementado pela dupla, tem como objetivo avaliar o estado de saúde dos atletas - da preparação até o dia da prova.

Na base do voluntariado, os participantes do UTMB já estão sendo solicitados para colher amostras de sangue, cabelo e urina.

"Com a análise de 66 dados biológicos nas amostras, o Quartz oferece uma visão mais ampla do que os testes antidoping. Com a avaliação da saúde, podemos ver tudo", argumenta Sallet.

Um novo passaporte biológicoO programa tem a vantagem de ter suas análises efetuadas em qualquer laboratório, o que não é possível nos testes oficiais de detecção de substâncias proibidas, que precisam ser feitos em estabelecimentos credenciados pela Wada.

Mesmo assim, Sallet e Basset continuam considerando indispensável que atletas continuem submetidos a exames antidoping tradicionais.

"O nosso programa não é mais eficiente, é apenas complementar. Os exames antidoping são necessários, por exemplo, para detectar o uso de estimulantes. Mas já vimos que o passaporte biológico mostrou seus limites com atletas tomando microdoses de EPO", opina Basset.

"Com o programa, tentamos mudar a forma de ver as coisas, colocando à disposição dos atletas limpos uma ferramenta que pode provar, de fato, que estão limpos", enfatiza Poletti.

Os atletas acompanhamos terão a possibilidade de tornar públicos todos os dados, o que pode ser visto como uma forma de denunciar indiretamente aqueles que se recusarem a divulgá-los.

As informações coletadas podem integrar um relatório médico que seria usado em complemento ao passaporte biológico da Wada.

Quando atletas apresentam perfis anormais, como um nível muito alto de hematócritos, por exemplo, podem ser proibidos de participar de provas.

"Existem perfis anormais que não são causados por doping. A tendência é achar que está tudo bem, porque o atleta não é dopado, mas problemas de saúde são muito mais graves do que o doping", lembra Basset.

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