Esporte

Árbitras buscam espaço no futebol em meio a insultos e preconceito

11/05/2016 13h46

Lima, 11 Mai 2016 (AFP) - Segundo tempo. Uma entrada dura é assinalada como falta. "Volta para a cozinha!", grita o jogador punido a Melany Bermejo, árbitra peruana da Fifa. É o insulto mais leve que ouviu na noite. Como muitas das colegas pelo mundo, ela luta para ganhar espaço numa área ainda dominada por homens.

Importantes em torneios femininos, a maioria das árbitras Fifa, como Melany, de 37 anos, apitam no máximo jogos das segunda divisão masculina. Na primeira divisão, o máximo que conseguem é trabalhar como bandeirinhas ou quarto árbitro.

Na América Latina, entre as exceções estão a uruguaia Claudia Umpierrez, que acaba de estrear como árbitra da primeira divisão masculina em fevereiro deste ano, enquanto as venezuelanas Emikar Caldera e Yersinia Correa já o fazem há três anos.

Fora desta região, somente Gladys Lengwe, na Zâmbia, costuma apitar jogos importantes e se espera que Kateryna Monzul possa seguir esses passos em pouco tempo na Ucrânia. As outras profissionais do apito ainda batalham para conseguir crescer na profissão.

Primeiro é preciso vencer as exigentes provas físicas que normalmente os homens conseguem superar, principalmente relacionadas à velocidade e rendimento estalecidos por Fifa e Conmebol. Acompanhar Lionel Messi ou Cristiano Ronaldo numa arrancada desde o meio de campo deve ser complicado, mas não impossível.

"A prova internacional de homens é muito exigente e posso dizer porque senti isso na própria pele", explicou à AFP Bermejo, árbitra há 10 anos e professora de educação física em um colégio de Lima nas horas vagas.

"O futebol masculino é mais rápido e os jogadores são mais fortes, já que muitos deles começam a jogar desde criança", admite Loreto Toloza, árbitro assistente do Chile, de 32 anos.

A Fifa conta com 720 árbitras registradas (324 juízes principais e 396 assistentes), além de 30 no futsal e duas no futebol de areia, de acordo com dados oficiais da entidade enviados à AFP.

Apesar de ter o menor número de membros, a Conmebol é a única confederação cuja totalidade de associados (10 países) conta com mulheres árbitras trabalhando ativamente.

As mulheres, porém, precisam percorrer um longo caminho em muitos países. Das 209 federações, 60 não têm sequer um árbitra, ou seja, 28,7% do total, de acordo com dados da Fifa.

- De insultos a flertes -No México, a primeira mulher a apitar uma partida da primeira divisão foi Virginia Tovar, em 2004. Um feito que ficou ofuscado quando o ex-craque Cuauhtémoc Blanco a mandou "ir lavar pratos".

"Você precisa fazer o dobro do esforço em relação aos homens", declarou Lixy Enríquez, uma bandeirinha mexicana de 42 anos. Ela conta que, ironicamente, os insultos mais pesados são proferidos por torcedoras femininas nas arquibancadas. "Os homens gritam coisas como: 'Eu quero pegar essa bandeirinha", explica.

A argentina Salome Di Iiorio lembra que, quando era criança, jogava bola e sempre ouvia: "O que você entende de futebol sendo mulher?". Indignada, se inscreveu num curso de arbitragem.

Com árbitra, chegou a sofrer com cusparadas de torcedores. Jogadores atrevidos, enquanto anotava o número da camisa do atleta advertido, chegaram a pedir para que anotasse também o número de telefone.

Ainda está viva a lembrança de Florencia Romano, a argentina cuja mãe queria que fosse modelo, mas que optou por se tornar árbitra de futebol. Em 1996, Romano protagonizou uma greve de fome, exigindo ser incluída na lista de árbitros profissionais, enquanto o então presidente do futebol argentino, Julio Grondona, dizia que não era sensato para uma mulher apitar um jogo.

As mulheres também precisam conviver com o medo. "Um jogador veio para cima de mim por uma falta que ele não gostou (...) Sempre existe o temor que algum insensato queira fazer algo. É preciso estar pronta caso aconteça", confessa entre risadas a nicaraguense Tatiana Guzmán, 28 anos.

- Homens não se adaptam -Para Johanna Vega, outra árbitra peruana, "alguns jogadores não querem e não se adaptam" à ideia de ver uma mulher mandando, descriminando-as com insultos e declarações machistas. "Eu entro em campo muito séria, você precisar estar pronta psicologicamente para evitar esse tipo de coisa", explicou à AFP Vega.

O presidente da Comissão de Árbitros do Peru, Julio Arévalo, descarta haver descriminação e garantiu que se alguma mulher passar pelos exames físicos impostos pela Conmebol e pela Fifa, poderá apitar qualquer partida.

"Por enquanto elas estão trabalhando no âmbito do futebol feminino e juvenil ou no futebol do interior dos campeonatos masculinos mais importantes. Essa é a recomendação da Fifa", explica por sua vez Carlos Coradina, diretor da escola de árbitros na Argentina.

A peruana Bermejo e a chilena Toloza sonham em apitar na primeira divisão. "São mais severas que os homens", afirma Bernardo Corujo, presidente da Comissão de Árbitros na Venezuela.

Enquanto isso, elas seguem enfrentando a reação desmedida do público e até da imprensa. Em março, um comentarista esportivo mandou a árbitra peruana Yelier Flores "vender berinjela". Foi demitido.

burs-mav/cm/ol/cd/am/lg

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