Esporte

Último gongo para Muhammad Ali sob as flores e a glória eterna

10/06/2016 19h42

Louisville, Estados Unidos, 10 Jun 2016 (AFP) - O lendário boxeador Muhammd Ali completou nesta sexta-feira sua viagem em uma procissão até a sepultura em meio a emoção, glória e fervor universais.

Milhares de pessoas se despediram do esportista com gritos, cartazes e flores em um enorme cortejo fúnebre pelas ruas de sua cidade natal, Louisville.

Os presentes, em um ambiente festivo, aplaudiram, tiraram fotos, jogaram balões e entonaram em uníssono o nome de Ali em uma manhã ensolarada de Lousville.

A procissão começou às 10h30 locais (11h30 de Brasília), quase uma hora depois do planejado, e percorreu 30 emblemáticos quilômetros da infância do "Maior".

Durante mais de duas horas, o cortejo avançou pela cidade de 600.000 habitantes no sul dos Estados Unidos, no estado de Kentucky, onde nasceu o astro do boxe e defensor dos direitos civis falecido há uma semana, aos 74 anos, após mais de três décadas de intensa luta contra a doença de Parkinson.

O cortejo passou em frente à casa onde cresceu, o Centro Ali, o Center for African American Heritage - que destaca a vida dos negros no Kentucky - e pelo Boulevar Muhammad Ali, antes de chegar ao cemitério Cave Hill, onde foi sepultado na mais estrita intimidade.

A procissão contou com vinte limusines que transportavam os filhos e os netos de Muhammad Ali, assim como personalidades que conduziram o cortejo: o ator Will Smith e os ex-campeões do mundo dos pesos pesados Lennox Lewis e Mike Tyson.

Um herói universal e multifacetadoEntre as milhares de pessoas que se concentravam nas beiras das avenidas, estavam algumas vindas da África ou da Ásia.

Para a última homenagem, Toya Johnson, uma mulher negra que reside no bairro onde Ali cresceu, ostentava uma camisa com seu retrato.

"Ele teria ficado contente em ver as pessoas reunidas como hoje, e é isso que estamos fazendo. Estou orgulhosa de estar aqui", declarou à AFP.

"Ele encarnava o espírito do bairro, os jovens sempre o tiveram como exemplo", acrescentou à AFP.

O boxeador com passo de bailarino e punhos de ferro descansará na cidade onde nasceu, no coração de um país que o humilhou ou o idolatrou, dependendo da época.

Depois de ter crescido sob a segregação racial em uma cidade onde os locais eram proibidos para ele, era imperativo que fizesse ali seu último trajeto, tomando emprestadas as ruas batizadas com o nome que ele mesmo escolheu ao se converter ao Islã.

O enterro, na presença dos filhos de Ali, ocorreu em clima de absoluta intimidade. O ator Will Smith e os ex-campeões mundiais de boxe Lennox Lewis e Mike Tyson carregaram o caixão junto a outras cinco pessoas no cemitério Cave Hill.

Neste vasto espaço verde também está enterrada Patty Hill, que escreveu a famosa música "Happy Birthday to You" (Parabéns para Você), conhecida no mundo inteiro. Será como um aceno à universalidade do lendário boxeador.

Um "mecenas generoso", cujo nome não foi revelado, havia prometido cobrir de pétalas de rosas vermelhas o caminho final até o túmulo.

Mas, na prática, quem foi enterrado nesta sexta-feira em Louisville?

Foi o pequeno Cassius Clay, revoltado pelo roubo de sua bicicleta? O gigante do ringue, derrubando pesos pesados nos combates do século? O adversário obstinado da guerra do Vietnã? O poeta que "voa como uma borboleta (e) pica como uma abelha"? O militante atraído pela visão radical de Malcom X? Ou ainda o pacífico humanista que pregava a tolerância religiosa?

A rigor, foram todos eles em apenas um homem.

"Prisioneiro de seu corpo"Essa era a tarefa dos que pronunciaram os discursos fúnebres em homenagem a este personagem lendário, em sua cerimônia de despedida.

Estava previsto que o ex-presidente Bill Clinton fosse um dos oradores, assim como o comediante Billy Cristal.

Distribuídos gratuitamente, os 15.500 ingressos para participar do cortejo se esgotaram na quarta-feira (8) em meia hora, provocando sua venda no mercado negro.

Uma vez encerrado o parênteses das últimas homenagens públicas, Louisville e seus 600.000 habitantes recuperarão a tranquilidade e a rotina.

"Meu herói estava prisioneiro de seu corpo", disse à AFP Fred Dillon, um taxista local, em alusão à doença de Parkinson com a qual Ali sofreu por três décadas. "Agora ele já pode voar como uma borboleta".

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