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Sem-teto, mas com muita voz: um coral de excluídos no palco olímpico

22/07/2016 16h43

Rio de Janeiro, 22 Jul 2016 (AFP) - As dificuldades que os levaram a viver nas ruas ficam de lado na hora de cantar: é um coral de excluídos que aproveita os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro para fazer ouvir sua voz.

Nas escadas do Teatro Municipal, o mais importante da cidade, os 60 intérpretes se posicionam: alguns vivem em abrigos, outros continuam perambulando pelas ruas. Mas neste momento, ninguém os ignora ou foge. Pelo contrário: hoje eles são as estrelas.

O projeto se chama "Uma só voz", lançado pela ONG britânica Streetwise Opera ("Ópera das ruas") no auge dos Jogos de Londres-2012, conseguiu pela primeira vez que um grupo de sem-teto se apresentasse na Royal Opera House.

Esta semana no Rio, a 15 dias dos Jogos Olímpicos, a programação inclui além de concertos, peças de teatro e oficinas de arte.

"Por tanto amor / por tanta emoção / a vida me fez assim...", começam com "Caçador de Mim", de Milton Nascimento.

Na primeira fila está Elizabeth Miguel, com um sorriso tímido. Ela vive na rua desde o dia 27 de março, e lembra bem porque era um domingo de Páscoa. Não soube controlar suas finanças e chegou a um momento em que não pôde mais pagar o aluguel. Ela leva sua situação como uma cruz, e não ninguém ajudá-la a carregar as pesadas bolsas azuis que a acompanham em cada ensaio e apresentação.

"Estando na rua, eu me esforço para recuperar minha vida de antes, em um abrigo podia esquecer dos apertos em que me meti", diz essa mulher de 58 anos, que em seus tempos de juventude fez uma turnê pela Itália com uma companhia de balé moderno.

Hoje, com as pernas "oxidadas", encontrou por acaso o coral e não pensou duas vezes em se juntar.

"Nos soltamos, nos esquecemos da tristeza, desse aperto interior das coisas que não sabemos resolver, é muito gratificante, me dá muita alegria", afirma.

E esse é o objetivo do projeto, que não oferece dinheiro ou comida, mas contribui com um grão de areia para melhorar com a arte a dura realidade que atravessam 5.500 pessoas que vivem na ruas do Rio, uma cidade de grandes contrastes sociais, onde os bairros ricos se misturam com as grandes favelas incrustadas nas montanhas.

"Assim como precisam de uma sopa quente ou de um refúgio, também precisam sentir bem consigo mesmo, sentirem que são bem-vindos em lugares e não pisoteados ou ignorados. Aqui a arte é uma ferramenta poderosa", explica à AFP Matt Peacock, fundador do Streetwise Opera, acompanhado de Renata Peppl, que é a responsável do projeto no Brasil.

'Hotel de papelão'No repertório destaca-se a clássica "Aquarela do Brasil", de Ary Baroso, e "Ratos e urubus", do carnaval de 1989, que Rico Vasconcellos dirige entusiasmado com mão solta.

Jorge Alexandre Junior beija seu rosário de plástico branco antes de cada canção e não solta-o, é uma espécie de amuleto.

Como a maioria de seus companheiros, canta e dança efusivamente, sorridente, com os olhos brilhando, lembrando os três anos que viveu nas ruas e que agora estão no passado.

"Cheguei às ruas por causa das drogas, não queria levá-las para casa e acabei me acostumando ao 'hotel de papelão'", diz à AFP este homem de 40 anos, que há seis meses entrou em um abrigo.

À medida que a apresentação vai passando, o público vai aumentando. "Adorei, adorei", diz uma turista canadense que passava por ali. "Outra, outra!", pede um grupo de senhoras emocionadas.

Jónatas da Silva, que vive 10 de seus 47 anos nas ruas, passa por ali e se junta à festa. "Que bom que ajudam os pobres, porque aqui no Brasil o pobre é muito humilhado", diz muito sério.

A professora Marilea Porfirio, que dá aula de Políticas Públicas na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), concorda com ele.

"Apesar de existirem políticas, é lamentável o tratamento dado a essas pessoas. Este coral lhes dá dignidade, lhes permite demostrar que são capazes como tantos outros", assinala.

Sem importar-se com as barreiras do idioma, o coral canta "Freedom is Coming" ("A liberdade está vindo"), uma música da luta sul-africana.

Ao terminar, são feitas três reverências para agradecer os aplausos. Chegou a hora de voltar à dura realidade, ainda que muitos passem o dia cantarolando e com um sorriso no rosto.

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