Esporte

COI desiste da 'opção nuclear' e Rússia está mantida nos Jogos

24/07/2016 22h29

Lausana, Suíça, 25 Jul 2016 (AFP) - O Comitê Olímpico Internacional (COI) decidiu neste domingo não suspender o Comitê Nacional Olímpico Russo (ROC), deixando para as federações internacionais a decisão de avaliar a participação de cada atleta do país nos Jogos do Rio, com base em critérios muito rígidos.

Em meio ao clima de guerra fria que voltou à tona nas últimas semanas, COI preferiu não optar pela "opção nuclear" advogada por Dick Pound, fundador da Agência Mundial Antidoping (Wada) e co-autor do primeiro relatório bombástico que resultou na suspensão do atletismo russo de todas as competições internacionais.

A punição foi confirmada na quinta-feira pelo Tribunal Arbitral do Esporte (TAS), o que parecia abrir o caminho para a exclusão total do país.

Uma medida que vinha sendo cogitada desde segunda-feira, com a publicação de outro documento da Wada com revelações avassaladoras: o relatório McLaren, que evidencia o envolvimento das autoridades russas ao esquema.

Mesmo assim, o COI considera que "não existem provas contra o Comitê Olímpico Russo no relatório", por isso resolveu não suspender o país como um todo.

- Rússia agradece, EUA criticam -"Os atletas russos das 28 modalidades olímpicas precisam assumir as consequências da responsabilidade coletiva (do país) e a presunção de inocência não pode ser aplicada", ressaltou o COI em um comunicado.

"Por outro lado, a justiça individual precisa ser aplicada, e todo atleta precisa poder provar que a responsabilidade coletiva não pode ser aplicada no seu caso", justificou.

"Eu sei que a decisão não vai agradar a todos", admitiu o presidente do COI, em entrevista coletiva por telefone, antes de lamentar o fato de veículos de mídia como o Times, da Inglaterra, terem "lançado uma campanha a favor da exclusão da Rússia".

Questionado se mostrou "fraqueza" na decisão, Bach rebateu ao afirmar que "tratou-se apenas de justiça em relação aos atletas limpos".

As críticas não demoraram a chegar. "De forma decepcionante, em resposta ao momento mais importante para atletas limpos e pela integridade dos Jogos Olímpicos, o COI se recusou a agir como um líder determinante", criticou o diretor executivo da Usada, Travis Tygart, em um comunicado.

A decisão, de fato, não agradou a todos, mas foi comemorada pelo ministro dos Esportes da Rússia, que se disse "agradecido".

A decisão "é objetiva, adotada dentro dos interesses do mundo esportivo e pela unidade da família olímpica", enfatizou Mutko, que se disse "absolutamente convencido de que a maioria da delegação russa atenderá aos critérios" rigorosos estabelecidos pelo COI.

Caberá às federações internacionais de cada modalidades validar a participação dos atletas que considerem 'limpos', de acordo com esses critérios.

Basicamente, nenhuma atleta já condenado por doping poderá disputar os Jogos, o que levanta um questionamento sobre o americano Justin Gatlin, um dos favoritos da prova de 100 m rasos do atletismo, que não preenche este prerequisito, por ter levado gancho de quatro anos, em 2006.

As federações também precisam garantir que todos os atletas foram submetidos a exames antidoping nos padrões internacionais. Ou seja, fora da Rússia.

- AMA decepcionada -A Agência Mundial Antidoping (AMA) declarou neste domingo estar "decepcionada" com a decisão tomada pelo COI.

"A AMA está decepcionada que o COI tenha ignorado a recomendação de seu comitê executivo que se baseou nos resultados da investigação de McLaren" sobre o doping no esporte russo, disse o presidente da AMA, Craig Reedie.

Seguir essa recomendação "teria assegurado uma mensagem clara, forte e uniforme", disse o titular da AMA em comunicado.

"A AMA respeita plenamente a autonomia do COI para tomar decisões em nome da Carta Olímpica, mas o enfoque e os critérios que decidam conduzirá inevitavelmente a uma falta de harmonização, desafios potenciais e uma menor proteção aos atletas limpos", lamentou o diretor-geral da AMA, Olivier Niggli.

- Tenistas liberados -A primeira a se pronunciar foi a Federação Internacional de Tênis (ITF), que autorizou a participação dos oito russos inscritos para o torneio olímpico.

"Os oito tenistas russos escolhidos para participar dos Jogos do Rio foram submetidos a exames rigorosos fora da Rússia", explicou a ITF.

A federação diz ter coletado 205 amostras desses oito tenistas desde 2004, 83 durante torneios e 122 fora das competições, com 111 exames de urina e 94 de sangue, sem que nenhum deles tenha testado positivo.

"A ITF acredita que isso é suficiente para determinar que os oito russos convocados preenchem os critérios estabelecidos neste domingo pela comissão executiva do COI", completou.

A IAAF chegou até a tomar uma medida semelhante há duas semanas, ao 'repescar' a saltadora em distância Darya Klishina que treinava na Flórida, onde, como os tenistas, é submetida a exames mais rigorosos do que em seu país.

A entidade também chegou a autorizar a meio-fundista Yuliya Stepanova a disputar os Jogos por conta da sua contribuição na denúncia do escândalo, que revelou em documentário do canal alemão ARD, mas o COI resolveu vetar sua participação neste domingo.

Stepanova não foi autorizada a competir por já ter sido punida por doping no passado, de 2011 a 2013, mas poderá assistir ao evento como convidada.

Essa regra também deve tirar muitos atletas de outras modalidades, mas o fato de o COI não ter punido o Comitê russo deve possibilitar a participação aos Jogos de estrelas como os membros da seleção masculina de vôlei masculina, atual campeã olímpica, que derrotou o Brasil na final da última edição, em Londres-2012.

Na capital inglesa, porém, o esporte que mais rendeu medalhas à Rússia foi o atletismo (17 de 82), que deve ter apenas Klishina como representante. O país terminou em quarto lugar do quadro de medalhas.

A luta olímpica também é um esporte de forte tradição na Rússia, com 11 pódios em Londres, mas é um dos mais afetados por escândalos de doping.

Na quarta-feira, a Rússia inscreveu 387 competidores na sua delegação, mas a lista já caiu para 320 nomes, com a exclusão de 67 dos 68 nomes da equipe de atletismo. Outros cortes devem acontecer, mas a Rússia ganhou neste domingo a certeza de que não ficará totalmente fora dos Jogos.

O COI havia excluído países de Olimpíadas no passado, com a suspensão dos comitês nacionais da África do Sul, de 1964 a 1988, por conta do regime do apartheid, e do Afeganistão, em 2000, quando o país era governado pelos talibãs.

cha-ol/tba/lg

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