Esporte

Braçadas da esperança: refugiados sírios deixam sua marca na natação

04/08/2016 09h11

Rio de Janeiro, 4 Ago 2016 (AFP) - Yusra Mardini nadou por sua vida quando fugiu da Síria e hoje nada por uma medalha no Rio de Janeiro. Juntamente com Rami Anis, ela representa os refugiados na natação olímpica.

O motor do bote inflável no qual cruzava da Turquia para a Grécia com 30 pessoas a bordo parou de funcionar e os deixou à deriva no Mediterrâneo. Por três horas e meia, ela, sua irmã, Sarah, e outra mulher se revezaram em turnos para empurrar a embarcação até um local seguro.

A vida levou-a para a Alemanha, e de lá... ao Rio.

No dia 5 de agosto, com "orgulho, felicidade e frio na barriga" levará a bandeira da primeira equipe de refugiados do COI (Comitê Olímpico Internacional), acompanhada de Anis, seu amigo de infância, e outros oito atletas sem pátria.

Mas longe da cruel realidade que os obrigou a abandonar seu país, Yusra, como todos chamam esta menina de apenas 18 anos, e Rami, de 25, preferem ver adiante.

"Prefiro falar de campeonatos, do futuro, de esperança", disse Rami, que deixou Aleppo, sua cidade natal, em 2011, quando os sequestros e atentados se tornaram recorrentes. Hoje ele vive na Bélgica.

"Somos seres humanos que perdemos nosso lar e estamos reconstruindo nossas vidas (...). Muitas coisas aconteceram, mas em algum momento tenho que seguir em frente", completou Yusra.

Síria sem futuro Ambos disputarão as mesmas provas: 100m borboleta e livre.

As chances de medalha são mínimas, mas ainda assim não deixaram de treinar duro duas vezes ao dia na piscina do Parque Aquático no Rio.

"As piscinas estão excelentes, vimos campeões mundiais, olímpicos, é uma grande honra, estou muito feliz de estar aqui, tem sido uma experiência maravilhosa", expressou ela.

"É um sonho de infância, todo atleta sonha com isso", disse Rami, que ao abandonar a Síria foi para Istambul morar com seu irmão, mas acabou deixando a Europa porque na Turquia não o permitiram competir profissionalmente.

Primeiro foi para a Grécia e depois para a Bélgica. Nunca pensou que não voltaria para casa.

Os horrores da guerra não permitia a esses dois jovens vislumbrarem o tão sonhado futuro.

"Tinha uma vida normal, não havia tiroteio ou bombardeios (onde vivia), ia para a escola, ia nadar, mas no final para que, não havia futuro, saiba que não iria chegar a um nível olímpico", expressou Yusra, que não perdeu nenhum parente no conflito, mas dois amigos nadadores foram mortos.

GratificanteOs dois têm em comum uma família de nadadores. A principal influência de Rami, por exemplo, é seu tio Majad, que o estimulou a seguir o caminho das piscinas.

O pai de Yusra era treinador e sua irmã também nada, ainda que hoje treine com o alemão Sven Spannekrebs que, como ela, estreia nos Jogos Olímpicos sem representar seu país.

"É até mais gratificante, acredito", disse à AFP.

A menina, muito eloquente e com inglês fluente, chegou a representar a Síria em um campeonato de piscina curta em Istambul, quando tinha 14 anos. Rami o fez em 2009 e 2011 no Campeonato Mundial.

Agora com a Equipe Olímpica de Refugiados (ROT, em inglês) estampada no gorro, como se sentiria ao competir contra uma síria que represente o país?

"Não vou pensar em quem estará do meu lado, ou qual é sua nacionalidade, a única coisa que vou pensar é em como vou nadar", lançou.

E não terá com o que se preocupar: os dois nadadores sírios na Rio-2016 - Jouma Baean e Al-Barazi Azad - competem em provas diferentes.

NostalgiaNa Vila Olímpica, Yusra confessou que espera conhecer o tenista espanhol Rafael Nadal - ele "me encanta", admitiu maliciosa - junto, é claro, de seu ídolo Michael Phelps.

Se Phelps irá tirar uma foto com esses meninos? Em 2009 disse ao nadador sírio que não, durante um Campeonato Mundial. "Mas não foi só comigo, não tirou com ninguém. (Ele) é um modelo e espero que dessa vez eu consiga a minha foto", afirmou.

O campeão olímpico chegou ao Rio na terça-feira (2).

Entre risos, lágrimas e objetivos desses 10 atletas, a nostalgia nunca deixa de bater à porta.

"Realmente sinto falta de Damasco, espero voltar um dia, sinto falta de tudo. Não quero que os sírios se deem por vencidos, espero que se lembrem de mim, que sigam seus sonhos", concluiu.

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