Esporte

Morre João Havelange, lenda do futebol ofuscada por acusações de corrupção

16/08/2016 12h32

Rio de Janeiro, 16 Ago 2016 (AFP) - O brasileiro João Havelange, o ex-presidente da Fifa que modernizou e promoveu o futebol em todo o mundo, mas que teve seu legado ofuscado por sérias acusações de corrupção, faleceu nesta terça-feira aos 100 anos de idade.

A morte foi confirmada pelo Hospital Samaritano, no Rio de Janeiro, onde se encontrava internado com problemas pulmonares.

"Nossos pensamentos estão com a família e os amigos de João Havelange neste momento triste. O COI deu seu consentimento a um pedido do Comitê Organizador dos Jogos do Rio-2016 para permitir que a bandeira brasileira ondeie a meio mastro durante o dia nas instalações olímpicas", declarou o Comitê Olímpico Internacional em um comunicado.

Já seu sucessor na Fifa, Joseph Blatter, suspenso da instituição em 2015, declarou que "Havelange transformou o futebol em uma linguagem universal".

"Havelange tinha uma ideia na cabeça e era fazer do futebol um jogo global com seu slogan: 'o futebol é uma linguagem universal', e ele conseguiu isso", afirmou Blatter em mensagem enviada à AFP.

Ex-nadador olímpico e filho de um comerciante de armas belga, Jean Marie Faustin Godefroid Havelange é considerado pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) - ao qual esteve vinculado por 48 anos - como um dos três maiores dirigentes esportivos do século XX.

Entre 1974 e 1998, foi presidente da Fifa, e foi sob sua gestão que o futebol deixou de ser apenas um esporte para se transformar em um espetáculo de multidões e em um dos programas televisivos mais rentáveis.

Nadador olímpico - participou dos Jogos Olímpicos de 1936 em Berlim e 1952 em Helsinki -, Havelange teve o faro empresarial para vender jogos à televisão, atrair grandes marcas esportivas e estender o gosto pelo esporte a países sem tradição futebolística como Estados Unidos, China e Japão.

- FIFA: "máquina de fazer dinheiro" -"Até a década de 70, as finanças da Fifa dependiam basicamente da bilheteria das partidas, da venda de jogadores e de modestos lucros comerciais. Foi a partir da eleição de Havelange que a organização se transformou numa 'máquina de fazer dinheiro'", segundo definiu a revista Piauí.

Sob o mandato de Havelange, os Estados Unidos, um país que sempre havia dado as costas ao soccer (diferente do futebol americano), se renderam ao esporte a organizaram o Mundial de 1994.

Havelange, que nasceu no Rio de Janeiro em 8 de maio de 1916 e trocou o futebol pela natação a pedido de seu pai, se orgulhava de ter feito da Fifa uma organização com mais membros que a própria ONU.

"Quando fui eleito presidente da Fifa, as associações afiliadas eram 146. Quando a deixei, em 1998, eram 196. A Fifa tem mais afiliados que a ONU, o que demonstra a força do futebol", declarou o dirigente à revista "Aventuras na História".

Atualmente, o organismo reitor do futebol mundial reúne 211 associações.

- Uma espiral de corrupção -Em 1998, Havelange se aposentou e passou o bastão para o suíço Blatter, que ocupou a presidência da Fifa até 2015, quando foi suspenso de qualquer atividade relacionada com o futebol durante seis anos.

Em novembro de 2011, Havelange teve de renunciar ao COI para evitar sua possível expulsão por denúncias de corrupção.

Havelange era investigado por suas ligações com a ex-agência de marketing da Fifa International Sport and Leisure (ISL), que declarou falência em 2001, com dívidas de 300 milhões de dólares.

Foi acusado de receber um milhão de dólares em troca que a ISL conservasse os direitos de transmissão do Mundial de Futebol, segundo denúncias difundidas em um documentário da cadeia britânica BBC.

No ano 2000, com 84 anos, Havelange foi interrogado no Congresso brasileiro sobre denúncias de enriquecimento ilícito, tráfico de armas e suborno.

Na ocasião, queixou-se do que considerava uma atitude canalha por parte dos meios de comunicação. Jamais foi citado para julgamento, apesar de seu nome ficar associado ao escândalo.

Havelange era sogro do brasileiro Ricardo Teixeira, a quem protegeu e levou a se transformar no presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) por 23 anos.

Teixeira renunciou ao cargo em 2012, também envolvido em denúncias de corrupção.

Meses depois da explosão na Suíça, em 2015, do escândalo na entidade máxima do futebol mundial, que levou à prisão o sucessor de Teixeira, o também brasileiro José Maria Marin, a justiça americana o acusou de corrupção junto a 15 outros altos dirigentes, incluindo Marco Polo Del Nero, atual presidente da CBF.

Quando Teixeira se divorciou da filha de Havelange, Lúcia, o ex-chefe do futebol mundial proibiu a família de falar o nome de seu ex-genro. Mas, a pedido de sua esposa Ana Maria, Havelange se reconciliou com Teixeira e impulsionou sua carreira até virar candidato à presidência da Fifa.

Membro de uma família abastada e advogado por formação, Havelange juntou uma imensa fortuna, recebeu reconhecimentos de várias partes do mundo e foi proposto ao Prêmio Nobel da Paz pela Academia Brasileira de Filosofia, que concedeu a ele um título de doutor honoris causa.

O papel de Havelange foi fundamental para que o Rio de Janeiro fosse escolhido, em 2009, sede dos Jogos Olímpicos de 2016, os primeiros da história da América do Sul.

Um dos estádios do Rio de Janeiro, casa do Botafogo, tem seu nome.

vel-lbc/cn

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