Esporte

Luta às cegas: o judô encara as Paralimpíadas e a deficiência

12/09/2016 07h54

Rio de Janeiro, 12 Set 2016 (AFP) - Lutar contra um agressor invisível pode soar como um pesadelo. Para a americana Christella Garcia, medalha de bronze nos Jogos Paralímpicos Rio-2016, é uma experiência "maravilhosa".

"Faz todo sentido", garantiu Garcia à AFP imediatamente após derrotar a adversária brasileira Deanne Almeida na disputa do bronze da categoria 70 kg, no sábado no Rio de Janeiro.

Garcia, que nasceu praticamente cega, tem a impressão de que sobre o tatame sua deficiência deixa de ser significante.

"Você está segurando e sente o corpo do adversário e a forma como se move", descreve a judoca de 37 anos. "Vence quem quer mais".

Nos Jogos Paralímpicos, o judô acolhe os atletas com deficiência visual, alguns com visão limitada, outros, como Garcia, como cegueira completa. Há algumas mudanças surpreendentes no habitual decorrer das lutas.

Os lutadores podem, sem saber, sair dos limites do tatame, e os árbitros precisam guiá-los de volta para o centro. Diferentemente das lutas normais, nas quais o relógio é visível, um sino toca alto quando falta um minuto para o término do combate.

Os judocas em seus quimonos brancos ou azuis lutam tão feroz e habilmente como os atletas com visão e o espectador pode facilmente esquecer que trata-se de uma luta de cegos, até que o árbitro gentilmente guia os concorrentes até o tatame.

- "Intuição" -Outro vencedor da medalha de bronze no sábado, o americano Dartanyon Crockett, começou a praticar judô quando terminou o ensino fundamental.

Aprender um esporte em que ser lançado ao ar ou sufocado enquanto se está deitado no tatame são partes integrais do judô e não são fáceis para um jovem que nasceu cego.

"Parte de praticar o judô para os visualmente incapacitados é colocar a si mesmo em situação de medo, situação incômoda", declarou Crockett, de 25 anos. "Trata-se de sair de sua zona de conforto".

O técnico de Crockett, Eddie Liddie, garante que ensinar também é um enorme desafio, em um esporte que envolve dezenas de técnicas, muitas delas sutilmente diferentes uma das outras.

"Estou tão acostumando a mostrar (os movimentos) para que eles possam ver", explica o treinador sobre os treinos com judocas que enxergam. "O que aprendi foi fazer com que coloquem seus corpos em certas posições e que aprendam por repetição".

Uma vez superada essa curva de aprendizagem, o judô pode ser mais natural para os cegos.

Talvez as diferenças mais notáveis entre o judô regular e o Paralímpico é que os judocas agarram seus oponentes o tempo todo, ao invés de se separarem para procurar um melhor posicionamento, como fariam judocas com visão.

Isso significa que os dois atletas cegos literalmente se apoiam um no outro. Para a venezuelana Naomi Soazo, que conquistou o ouro em Pequim e o bronze no Rio, essa conexão é o ponto de partida.

"Quando você segura o adversário, você sente seus movimentos. Com isso você intui e sente o que ele está fazendo", afirma.

De fato, uma vez que agarra a adversária, Soazo pode lutar perfeitamente com outra judoca faixa preta e com visão perfeita. "Não há diferença", garante.

Essa confiança nela mesma vai além do tatame.

Garcia afirma que dominar o esporte a ajudou a ganhar a luta de sua vida: agora "não me considero uma deficiente visual", declara orgulhosa. "É só uma característica: sou uma garota. Tenho cabelo preto. Gosto de pastel e sou cega".

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