Esporte

Futebol durante a ditadura romena: oásis de liberdade sob estrita vigilância

01/12/2016 16h00

Bucareste, 1 dez 2016 (AFP) - Considerado esporte-rei pelo duro regime comunista romeno, o futebol serviu de válvula de escape social até a queda do ditador Nicolae Ceausescu, em 1989. Isso tudo sob a estrita vigilância da Securitate, a terrível polícia política.

Steaua, Dínamo, mas também os esquecidos Gloria Buzau ou Târgu Mures: "Os estádios viviam lotados, as pessoas vinham para esquecer as tristezas e as dificuldades", lembrou Ion Pîrcalab, lateral do Dínamo nos anos 1960.

O futebol? "Era o único meio de distração, mas também de alegria" em um regime no qual os mínimos atos do cotidiano eram controlados, concorda Ovidiu Ionaitoaia, jornalista do diário esportivo Sporturilor.

"No estádio, podíamos xingar à vontade e sem medo", lembra o jornalista. "Fazer o mesmo fora do estádio era muito arriscado".

Para os melhores jogadores, o futebol era também a chave para uma liberdade rara para a enorme maioria dos cidadãos: o direito de viajar.

Um privilégio "inimaginável" que Helmuth Duckadam, lendário goleiro do Steaua, clube com o qual conquistou a Copa da Europa contra o Barcelona em Sevilha, em 1986, garante ter aproveitado a fundo.

"Jogar no Steaua ou na seleção nacional foi para mim uma grande oportunidade de ver outros países, outras condições de vida. É difícil explicar isso hoje, quando podemos circular pelo mundo inteiro", confidenciou o ex-jogador à AFP.

A possibilidade de jogar fora das fronteiras nacionais, ou até de disputar campeonatos estrangeiros, como pôde fazer Pîrcalab, que chegou às quartas de final dos Jogos Olímpicos-1964 e foi vice-campeão francês com o Nîmes em 1972, dependia, porém, do rigoroso aval da Securitate, decidida a evitar os riscos de deserção.

Os desaparecidos de SevilhaCom isso, a famosa final de Sevilha, que não podia ser disputada sem um número mínimo de torcedores presentes, se tornou um verdadeiro problema para o regime: apesar da triagem e das ameaças, muitos torcedores acabaram pedindo asilo à Espanha.

Helmuth Duckadam reconhece: o fato de ser titular no Steaua Bucareste, clube do coração de Valentin Ceausescu, filho do ditador, era uma vantagem... isso se o rendimento em campo era o esperado.

"Valentin Ceausescu foi um amigo do Steaua", admite o ex-goleiro, com uma ressalva: "Mas não acredito que ele poderia ter nos ajudado contra o Anderlecht ou contra o Barcelona".

De modo geral, jogar em um dos dois maiores clubes de Bucareste era uma garantia de poder obter uma permissão de estadia na capital, algo difícil de conseguir na época.

Os melhores jogadores eram beneficiados com habitações confortáveis -outro privilégio- e de um salário maior do que a média.

"Não era um valor muito grande, não fazíamos fortuna, mas vivíamos melhor do que a maioria das pessoas", explica Ion Pîrcalab, lembrando ter recebido "até três vezes" mais do que o salário médio romeno.

"Éramos estrelas, mas se formos comparar com a situação dos jogadores de hoje, éramos estrelas sem dinheiro", confirma Duckadam, rindo.

Restou a glória do passado, que não tem preço. "Quando eu morrer, meus netos poderão ainda ter orgulho do nome Duckadam, do fato de eu ter conquistado algo na vida", conclui o goleiro que entrou para a história do futebol ao defender quatro pênaltis seguidos na final de 1986. Sem a ajuda da Securitate.

at-phs/pr/lrb/am/mvv

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