Esporte

Diretor da Usada diz que 'esporte russo está podre' por causa do doping

06/12/2016 16h21

Los Angeles, 6 dez 2016 (AFP) - "O esporte russo está totalmente podre", denuncia em entrevista à AFP Travis Tygart, diretor da Agência Americana Antidoping, às vésperas da publicação da versão final do relatório McLaren, que revelou o esquema de "doping organizado" no país.

O homem que contribuiu para a queda do ciclista Lance Armstrong também afirmou que "se não houver mudanças, os atletas limpos vão se revoltar, ou então também farão uso de substâncias proibidas".

-Como o senhor viveu esse ano de 2016, marcado por revelações bombásticas sobre doping na Rússia?

"Foi um ano complicado, mas por outro lado, chegamos a uma posição na qual somos capazes de levar um sistema de doping de estado a responder por seus atos. É exatamente disso que precisávamos. Estamos em um momento crucial, mas a janela para agir vai se fechar em breve. Precisamos fazer as reformas necessárias para que isso não aconteça nunca mais. Os atletas limpos estão olhando para nós e estão muito frustrados e irritados com o fato de que um país tão poderoso como a Rússia tenha conseguido estabelecer um esquema de doping com tamanha eficiência e abrangência. Se não houver mudanças, esses atletas limpos vão se revoltar, ou então também farão uso de substâncias proibidas. Isso é inaceitável".

-Quando o senhor fala em revolta, está se referindo às seleções americanas de bobsleigh e skeleton que ameaçam boicotar o Mundial previsto para acontecer na Rússia?

"Isso mesmo. Também soube que atletas de outros países têm as mesmas preocupações. Essa é a resposta de atletas que não são ouvidos pelos seus dirigentes. O boicote é o último recurso. O COI aprovou a realização desse Mundial na Rússia, apesar de ter afirmado em julho que o país não poderia mais organizar grandes competições. Isso é um duro golpe para atletas limpos. Por que esses atletas aceitariam participar de uma competição na Rússia, que não possui mais laboratório credenciado pela Agência Mundial Antidoping (Wada), com desprezo total pelos regulamentos? Eles têm motivos legítimos de preocupação".

-Como o senhor interpreta a reação da Rússia desde o início do escândalo? Por um lado, suspendeu dirigentes, e por outro, promoveu outros, que foram citados no relatório McLaren...

"Todos os atletas dopados têm a mesma atitude: fazem de tudo para minimizar o que fizeram. Mas a Rússia precisa reconhecer a importância do problema e garantir que vai agir, não apenas falar. A situação é inaceitável para os atletas russos, que merecem atuar em um ambiente sano e justo. Não podem ser obrigados a usar substâncias proibidas para competir. Também é inaceitável para atletas do mundo inteiro que não querem ser roubados quando enfrentam russos que foram obrigados a se submeter a um programa de doping de estado".

-O que pode se esperar da versão final do relatório McLaren?

"Não sei o que contará no relatório, mas vale ressaltar que se trata do quarto relatório sobre a Rússia. O certo é que o esporte russo está totalmente podre. Manipulou os Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi-2014. Atletas limpos foram roubados e merecem reparação".

-A Wada tampouco foi poupada das críticas...

"O principal problema da Wada é a questão da governança. Os dirigentes esportivos precisam ser retirados dos cargos de liderança da entidade para evitar qualquer conflito de interesse. Não é uma questão de pessoas, é uma questão de princípios. Você não pode ser ao mesmo tempo membro do comitê executivo do COI e presidente da Wada, nem ser presidente de uma federação internacional e fazer parte do comitê de direção da Wada. Às vezes, você é levado a tomar decisões a favor dos atletas limpos que podem prejudicar o interesse do seu esporte a curto prazo. É como se o presidente da União Ciclista Internacional (UCI) também ocupasse o cargo de diretor da Usada quando lançamos o processo contra Lance Armstrong e sua equipe, a US Postal".

-A Wada realmente tem condições de cumprir sua missão?

"Se o COI quisesse mesmo, poderia resolver esse problema amanhã. O COI tem 1,4 bilhão de dólares em caixa. Poderia usar 500 milhões para financiar a Wada e apoiar o esporte limpo. Se não fizer isso, corre o risco de ver o público se afastar do esporte".

Declarações colhidas por Rob WOOLLARD e Jérôme RASETTI

rcw-jr/pr/chc/lg

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