Esporte

No Quênia, jogadores de futebol entram em campo por punhado de xilins

06/04/2017 14h51

Nairóbi, 6 Abr 2017 (AFP) - Aos 20 anos de idade, Henry Eshiboko se considera um privilegiado. Vive com a mulher e seu bebê em uma barraca de nove metros quadrados sem janela, que dispõe de um aquecedor e de acesso a água a menos de 10 metros da porta de entrada.

Melhor ainda: os muros e o teto de lona, erguidos com sólidas vigas de madeira, não deixam passar a água quando chove.

"Tudo isso graças ao futebol", explica este jovem habitante de Kibera, um dos maiores subúrbios do mundo, no coração da capital queniana Nairóbi. "Com o pagamento por treino, 250 xelins (2,25 euros), quatro vezes por semana, alimento minha família e pago uma parte do aluguel".

"As premiações por jogo -2.500 xelins (22,5 euros) por uma vitória fora de casa, 2.000 em casa- nos permitem comprar roupa, utensílios de cozinha ou algumas coisas extras. Agora mesmo, minha esposa está no cabeleireiro", sorri esse rapaz alto, cujo rosto se ilumina quando fala de futebol ou da família.

Em Kibera, um verdadeiro oceano de barracas espalhadas entre ruas repletas de lixo e com odor nauseabundo, a vida de Eshiboko poderia se considerada um luxo: 80% da população não tem acesso à eletricidade e vive com menos de um euro por dia.

A vida de Henry melhorou com as premiações. Depois de subir três vezes seguidas de divisão, os Black Stars (Estrelas Negras) são agora a melhor equipe do subúrbio. Nesta temporada, disputarão a National Super League (2ª divisão do futebol queniano).

A equipe se encontrava há alguns anos nas divisões inferiores, mas o clube se reestruturou e encontrou a maneira de conseguir pagar premiações, segundo explicou o técnico da equipe, Godfrey Otieno, ex-jogador profissional que decidiu viver em sua Kibera natal para "ajudar os jovens".

"Antes, não havia mais de 6 ou 7 jogadores nos treinos", lembra o técnico, destacando que pedir disponibilidade de quatro dias por semana para treinar e de fins de semana para jogar sem compensação financeira "é difícil". "Mas, agora, todo mundo aparece pontualmente".

- Revanche contra o destino -Os jogadores vivem a ascensão dos Black Stars como uma revanche contra o destino.

"Não é porque somos de Kibera que somos incapazes de realizar coisas ou ter ambições", garante Henry. "Quando falamos de Kibera, fala-se geralmente de criminalidade, droga, pobreza. Não negamos, temos nossos problemas, mas graças ao futebol demonstramos que Kibera é mais que tudo isso".

O capitão da equipe, Esan Karani, completa que "é como se a luz aparecesse da escuridão".

"Gostamos do espírito desta equipe, são pessoas de Kibera que jogam e nos representam", garantiu Bildad Ilondounga, um fervoroso torcedor dos Black Stars. "Quando olhamos para o campo, vemos jogar nossos vizinhos".

Esta popularidade do clube tem também uma dimensão social. Os jogadores visitam regularmente famílias em extrema necessidade para doar roupas e alimentos e uma parte do pequeno orçamento é destinado a uma equipe de crianças do subúrbio, os Slum Soka, que serve também para formar jovens jogadores.

"Às vezes acontece de pegar o ônibus e não ter que pagar, porque as pessoas dizem: 'É um Black Star'", afirma orgulhoso Eddy Odhiambo, atacante de 21 anos.

Os jogadores também têm benefícios sociais, como, por exemplo, poder aprender francês graças a um convênio com a Aliança Francesa (entidade que difunde a língua e cultura francesa por todo o mundo).

Desde então, Henry sonha em jogar no Monaco, enquanto Eddy se contentaria em jogar "em qualquer clube da França ou da Inglaterra, porque lá se fala os idiomas que falo e entendo".

"Se um ou dois jogadores desta equipe puderem um dia jogar na Europa, o objetivo terá sido realizado", completa o treinador.

- Caro demais para os torcedores -O sucesso traz alguns desafios. O clube, que tem como cores oficiais o vermelho e o preto, precisa financiar viagens cada vez mais distantes por todo o país, manter um campo de jogo que respeita as normas da segunda divisão e continuar no caminho rumo à profissionalização.

Nos últimos anos, o clube vem sendo financiado quase exclusivamente por um professor francês de Nairobi, que assumiu a responsabilidade de desenvolver a entidade. Mas sua contribuição e a dos patrocinadores que foram se unindo ao projeto não bastarão para cobrir o orçamento desta temporada, estimado em 7 milhões de xelins (64.000 euros).

"Queremos oferecer contratos aos jogadores, como as outras equipes da National Super League, mas não é possível", lamenta Godfrey, que destaca que os Black Stars enfrentarão nesta temporada clubes com orçamento muito superiores ao deles.

Os torcedores acabam sofrendo com o sucesso recente do clube. Há alguns anos, os jogos costumavam atrair 4.000 espectadores que lotavam o estádio, situado no coração de Kibera. Agora, o clube teme que somente uma centena deles possa presenciar as partidas, que precisarão ser sediadas do outro lado do subúrbio, em um campo adaptado às normas da federação local.

"A ida e volta de ônibus custa cerca de 200 xilins (1,8 euro), é um valor que a maioria dos torcedores não pode se permitir gastar", lamenta Godfrey.

ID: {{comments.info.id}}
URL: {{comments.info.url}}

Ocorreu um erro ao carregar os comentários.

Por favor, tente novamente mais tarde.

{{comments.total}} Comentário

{{comments.total}} Comentários

Seja o primeiro a comentar

{{subtitle}}

Essa discussão está encerrada

Não é possivel enviar novos comentários.

{{ user.alternativeText }}
Avaliar:
 

* Ao comentar você concorda com os termos de uso. Os comentários não representam a opinião do portal, a responsabilidade é do autor da mensagem. Leia os termos de uso

Escolha do editor

{{ user.alternativeText }}
Escolha do editor

Facebook Messenger

Receba as principais notícias do dia. É de graça!

Mais Esporte

Topo