Esporte

Milhões de praticantes e alguns valentes: a homossexualidade no futebol francês

03/08/2017 10h38

Paris, 3 Ago 2017 (AFP) - Somente um punhado de jogadores saiu do armário entre milhões de praticantes. Figuras emblemáticas, como o ex-jogador profissional Olivier Rouyer, ou amador Yoann Lemaire, ilustram a invisibilidade dos homossexuais no futebol francês, a dias do início da nova temporada da Ligue 1.

"No futebol, nada mudou da minha época até hoje. Andou em círculos", lamentou Rouyer, de 61 anos, ex-jogador da seleção francesa, com a qual disputou a Copa do Mundo de 1978.

Hoje comentarista de televisão, Rouyer nega ter sofrido por ter tido de esconder sua sexualidade.

"Não havia nada de frustrante. Era assim e ponto", diz ele em entrevista à AFP.

Este ex-companheiro de Michel Platini esperou até 2008, 22 anos após se aposentar, para sair do armário.

"Talvez tenha sido um pouco tarde, mas foi assim. Não há glória", completou.

Yoann Lemaire seguiu o mesmo caminho quatro anos antes, quando ainda jogava no FC Chooz.

"Eu lidava muito mal com o fato de ter que mentir sempre para todo mundo. Então eu pensei: ao invés de falar de garotas, vou falar de garotos", explicou.

Após sua confissão, Lemaire viu sua situação de titular da equipe profissional despencar até se tornar reserva da terceira equipe. Logo foi "mandado embora", segundo suas próprias palavras.

O presidente da Liga de Futebol Profissional (LFP) francesa o apoiou. Com isso, Lemaire pôde escrever um livro e treinar com o Paris Foot Gay, um clube que já não existe mais.

Em seguida, este anônimo convertido em personalidade pública encontrou um clube em Les Ardennes. Nos domingos, durante os jogos, "normalmente era insultado", lembra.

Yoann Lemaire conhece outra dezena de jogadores amadores gays. Nenhum saiu do armário.

"Tendo como exemplo minha experiência, eles têm razão em não fazer isso", afirma.

Os motivos da dissimulação são idênticos no futebol profissional. Em estudo sobre discriminação no esporte realizado em 2013, Patrick Karam, atual vice-presidente do conselho regional de Île-de-France, afirmou que os jogadores "temiam colocar a carreira em risco" ao assumir suas sexualidades.

- Medo da rejeição -"Existe o medo das más atuações serem relacionadas à orientação sexual, e há o temor da rejeição", explica o estudo, cujos autores encontraram "um jogador profissional de alto nível" que havia sido obrigado por um patrocinador a "aparecer de mãos dadas com uma mulher para desmentir os rumores".

Num esporte "em que nos fazemos de durões e fortões, temos medo do que dirão de nós", assim como dos "insultos" nos estádios, garante o atacante francês do Atlético de Madrid Antoine Griezmann à revista espanhola Icon.

"Eu acho que o faria (sairia do armário)", afirma o craque, reconhecendo que "é mais fácil falar quando não lhe diz respeito".

Com 2,5 milhões de filiados na Federação Francesa de Futebol, e quando o percentual médio de homossexuais fica entre 5% e 7% de uma população, o peso das estatísticas revela um problema.

"É uma realidade. Todos os estudos situam o percentual de gays entre 0% e 2% no esporte masculino", aponta Anthony Mette, psicólogo do esporte e especialista neste tema, que cita como fatores o "heterossexismo" nos vestiários e "a rejeição a atitudes que não são heterossexuais, 'masculinas'".

Em 2013, um estudo realizado na França com 250 profissionais e jovens de um centro de formação mostrou que 41% e 50%, respectivamente, haviam tido "pensamentos hostis em relação aos homossexuais".

Alguns países, entre eles Noruega, Suécia, Holanda, Canadá e Estados Unidos, estão no topo do ranking de aceitação da homossexualidade no futebol, mas, na grande maioria, reina a invisibilidade.

O ex-jogador da seleção alemã Thomas Hitzlsperger saiu do armário em 2014, após se aposentar, "para fazer a questão da homossexualidade evoluir no esporte profissional". Antes dele, o americano Robbie Rogers e o sueco Anton Hysen já haviam trilhado o caminho.

O jogador inglês Jusin Fashanu foi o primeiro a se declarar gay, em 1990. Atacado por muitos e excluído dos treinos do Nottingham Forest, foi acusado de agressão sexual nos Estados Unidos em 1998, mas teve a acusação retirada em seguida por falta de provas. Suicidou-se pouco depois.

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