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Mexicana usa futebol para ensinar meninas a enfrentar violência de gênero

Omar Torres/AFP
Antes de topar com uma bola de futebol, Guadalupe García era empregada doméstica no México Imagem: Omar Torres/AFP

08/11/2017 14h04

San Felipe Del Progreso, México, 8 Nov 2017 (AFP) - Guadalupe García era mais uma empregada doméstica no México, antes de topar com uma bola de futebol: com apenas 1,55 metros de altura, rapidamente descobriu que estar dentro de campo é um "ato de rebeldia" contra a violência de gênero.

Nos últimos dois anos, a indígena se tornou treinadora de futebol e usa o esporte para educar 300 meninas da etnia mazahua do Estado do México, na parte central do país. O objetivo é que elas descubram sua capacidade física e digam: "este corpo é meu e ninguém o toca se eu não quiser".

O distrito vizinho à capital tem o maior índice de assassinatos de mulheres no México. Segundo o Observatório Cidadão Nacional do Feminicídio, pelo menos 263 mulheres foram mortas em 2016.

Os cadáveres são encontrados frequentemente com marcas de estupro, mutilação, semicarbonizados, flutuando em rios ou até enterradas nos quartos de seus carrascos.

"Vamos nos apoiar todas!", grita a treinadora durante o início do jogo da seleção Mazahua feminina - 25 jogadoras entre 16 e 26 anos - contra o Hadas B, de uma escola privada de Toluca. As Hadas venceram por 4 a 1 a partida pela Liga Mexicana de Futebol feminino.

Mais do que o resultado, para Lupita, apelido carinhoso dado pelas atletas, o importante é que as meninas se sintam empoderadas em uma região onde muitos pais de família ainda se opõe à presença das filhas em campo.

Em povoados indígenas ou de menor desenvolvimento social, os direitos das mulheres são violentados frequentemente. Muitas são impedidas de estudar e de terem oportunidades de desenvolvimento, já que algumas das atletas indígenas do time poderiam ter brilhantes carreiras esportivas.

Quatro das meninas recrutadas por Lupita jogam em clubes que dão bolsas completas de estudo, moradia e alimentação. Uma delas, Liliana González, chamou atenção dos dirigentes da seleção nacional feminina.

- Avô assassino -Guadalupe, de 34 anos, nasceu em família pobre no norte do Estado do México e revela não ser fácil lutar contra a violência de gênero.

"Minha mãe ficou órfã aos 11 anos, porque meu avô matou minha avó no lugar onde guardava as bebidas", relatou a treinadora com o som das jogadoras ao fundo.

Seu pai foi alcoólatra durante duas décadas, com as duas irmãs sendo obrigadas a se casarem entre os 14 e 15 anos.

Antes de saber que podia jogar bola, "eu já trabalhava como empregada doméstica, mas meu gosto pela leitura me permitiu descobrir coisas. Foi quando me tornei desobediente", lembra de maneira divertida.

Voltou à sua comunidade de San Juan Coajomulco e pouco depois se viu jogando em clubes amadores de futebol.

"Para mim, estar em um campo de futebol foi um ato de rebeldia. Me permitiu não ficar grávida muito cedo, para eu não me casar", diz García, que se casou aos 23 anos e é mãe de dois filhos.

Atualmente, está de corpo e alma no recrutamento das meninas, realizando oficinas obrigatórias para conscientizar as meninas sobre a violência de gênero. O clube é financiado por organizações defensoras dos direitos humanos.

Lupita vai participar do Women's Forum México 2017, que é realizado nesta semana na capital do país com o tema 'Amazing Women' (Mulheres incríveis, em português).

- "Uma é capaz" -Rocío López, de 26 anos e dirigente de um albergue indígena educativo, marcou o gol de honra das mazahuas na partida disputada em um campo rodeado de espigas de milho secas.

"Os homens aprendem a ver que somos capazes", comenta esta artilheira, que entra em campo usando batom e um coque com cor alaranjada.

Se o homem "toca a bola, nós também. Se eles pões shorts, nós também", diz Rocío, que conheceu vizinhos que "não deixam suas filhares jogarem porque dizem que vão vir para 'abrir as pernas'".

Outro dos frutos do trabalho de Lupita é Liliana González, de 14 anos, que é goleira estrela do clube Lioness FC e tem bolsa de estudos. Vive longe de sua casa, mas seu semblante não aparenta nenhuma nostalgia.

O futebol ajuda "a encarar o machismo com a bola", diz Lili, que chamou atenção de dirigentes da seleção nacional feminina: "prestaram atenção em Lili" garante a treinadora.

Quando joga, Lili garante que não fraqueja na hora de defender as bolas chutadas em sua direção e se sente "livre de tudo".

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