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Olheiros no futebol: a peneira para encontrar o próximo Neymar

16/11/2017 14h34

Rio de Janeiro, 16 Nov 2017 (AFP) - Vanessa Dias abre um buraco no matagal para conseguir ver como seu filho Cauã, 12 anos, está jogando no teste no Vasco da Gama, no Rio de Janeiro.

Em um campo do Audax, pequeno clube da baixada Fluminense, cerca de 200 crianças de 9 a 17 anos participam de uma tradicional 'peneira' com a esperança de serem aceitos nas categorias de base do clube carioca.

Embora não tenham acesso ao estádio, alguns pais não hesitam em escalar uma colina cheia de arbustos e com vista para o campo para poder assistir aos filhos.

"É bastante sacrifício, mas estou disposta. Estou desempregada, as vezes não tenho o dinheiro da passagem, as vezes é contramão, muito distante... Mas a gente faz de tudo, pega emprestado aqui, ali, meus pais me ajudam", relata Vanessa, 33 anos.

Seu filho é torcedor do Flamengo, arquirrival do Vasco, mas isso pouco importa na hora de ir atrás do sonho de se tornar um jogador profissional.

A peneira, porém, é um filtro implacável e poucas crianças serão escolhidas.

"Geralmente, em torno de 10% das crianças são aprovadas nesse primeiro processo seletivo e serão submetidas a uma nova bateria de testes na sede do clube", explica Uerner Leonardo Passos, responsável pela peneira vascaína.

Os testes, que se estendem por três dias, são organizados mensalmente.

Divididos em grupos por idade, os meninos precisam mostrar seu potencial em jogos de vinte minutos de duração.

Com um boné preto na cabeça, Ronaldo Faria, um dos principais olheiros do Vasco, não perde um detalhe. É o irmão de Romário, campeão do mundo com o Brasil em 1994 e uma das maiores revelações da história do clube cruz-maltino.

"O segredo do Brasil são as comunidades. Tem muito garoto bom nas comunidades, por isso vamos muito lá para poder observá-los. É a pelada de rua, o campo não é um gramado, é qualquer lugar. É assim que sai jogador bom", revela Ronaldo, de cerca de 40 anos e fisicamente muito parecido com seu irmão famoso.

- Rede de contatos -O Vasco não poupa esforços para descobrir jovens talentos em bairros desfavorecidos.

"Nossos olheiros normalmente vão às comunidades e têm uma rede de contatos nas associações locais, que avisam quando veem um garoto com potencial", explica Luiz Rangel, coordenador de análise de desempenho e captação do Vasco.

Jacy Oliveira, do bairro da Piedade, na zona norte do Rio, não tem nenhum vínculo com o clube, mas levou quatro jovens para participar dos testes.

"Tem jogador muito bom que às vezes não aparece, porque não tem dinheiro para ir à avaliação", afirma este aprendiz de olheiro, que paga o transporte dos meninos do próprio bolso na esperança de encontrar um diamante bruto.

"Por enquanto, só estou gastando do meu bolso mesmo. Mas amanhã ou depois, uma estrela vai brilhar no meu caminho", sonha Jacy.

Entre os jovens que desfilam sobre o campo, só um chama a atenção de Ronaldo Faria: Felipe, um pequeno lateral de nove anos que dribla com uma facilidade desconcertante os adversários, a maioria mais velha e mais corpulenta que ele.

Fernando, irmão gêmeo de Felipe, tem muito mais dificuldade. Petrificado por tudo que está em jogo, parece assustado à beira do campo.

Um dos coordenadores da peneira corre para socorrer o menino: "Não tenha medo, só faz o que você sempre fez na rua quando você joga com teu irmão na rua".

- 'Garotos doutrinados' -O maior desafio é mostrar o talento em tão pouco tempo, sem jogar de maneira muito individualista, ou 'fominha'.

"Os garotos são doutrinados desde muito cedo, tem cada vez menos esse jogador, o 'moleque'", lamenta Luiz Rangel.

"O que a gente observa são caraterísticas de um bom jogador: facilidade de lidar com a bola, posicionamento, o jeito que ele fala com o companheiro dele dentro de campo, tudo influencia", resume.

"Tem olheiros que falam: 'Cara, quando você tenta se destacar, fazer uma coisa que não é sua, você acaba se atrapalhando. Então faz o simples, toca e passa', conta Caio Rodrigues, um atacante de 15 anos.

Pedro Henrique, 13 anos, tem seu próprio segredo para impressionar os olheiros: jogadas de efeito inspiradas nos vídeos de seus ídolos, Neymar e o francês Paul Pogba.

"Quando crescer, quero jogar com Neymar na seleção brasileira", sonha o jovem garoto, que esconde o rosto atrás dos cachos.

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