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A luta das mulheres atingidas pela tragédia da Chapecoense

27/11/2017 12h58

São Paulo, 27 Nov 2017 (AFP) - Fabienne Belle ainda sente um aperto no estômago ao lembrar do dia em que o correio trouxe de surpresa a mala do marido, morto na tragédia da Chapecoense.

Sentiu-se só diante do vazio, como na madrugada de 29 de novembro de 2016.

"Essa é a sensação que tive, que estavam devolvendo o meu marido aos pedaços", contou à AFP em São Paulo, lamentando a falta de apoio após o acidente.

A vida desta ex-professora de 47 anos e olhar doce parou há um ano, quando seu marido, Cezinha, fisiologista da Chapecoense, embarcou no avião que o levaria com o time eufórico para a Colômbia, onde disputaria a final da Copa Sul-americana.

Mas o voo 2933 da boliviana LaMia nunca chegou a seu destino. Sem combustível, caiu nas montanhas de Medellín, matando 71 das 77 pessoas a bordo e deixando destroçadas outras centenas.

A maioria, famílias muito jovens que perdiam seu esteio no instável mundo do futebol modesto, no qual em uma mesma temporada pode haver várias mudanças e muitos vivem um dia de cada vez.

Além dos 19 jogadores, também morreram 14 integrantes da comissão técnica e nove dirigentes da Chape, além de 20 jornalistas.

"O clube se reconstruiu, recebeu todo o apoio, fez um marketing em cima daquela tragédia, refez sua história, ao passo que as famílias ficaram de lado nessa reconstrução", lamenta Fabienne que, cansada do desamparo, fundou com Mara Paiva, viúva do ex-jogador de futebol e comentarista esportivo Mario Sergio, a Associação dos Familiares e Amigos das Vítimas do Voo da Chapecoense (AFAV-C).

Desde junho, reúnem os interesses de 62 afetados na luta por seus direitos.

"A tragédia não foi a tragédia da Chapecoense, não foi a tragédia das emissoras que tinham seus funcionários dentro daquela aeronave. A tragédia foi a tragédia das famílias", afirma Paiva, que também reivindica um maior envolvimento dos veículos de comunicação que tinham funcionários a bordo do avião.

Passados doze meses, a mulher de 51 anos e voz firme diz não ter recomposto sua identidade, depois de perder seu companheiro de quase três décadas, por quem parou a carreira de psicóloga para segui-lo junto com seu filho.

Por enquanto, só recebeu o seguro de vida e, assim como o restante das famílias, rejeitou a proposta da seguradora da LaMia, que ofereceu 200.000 dólares por vítima em troca de não receber mais reivindicações no futuro.

Com as investigações na Colômbia e na Bolívia ainda por concluir, a oferta pareceu-lhes uma loucura.

Agora, trabalham em um complexo processo legal que implicará os três países para encontrar os culpados do que consideram ter sido uma "tragédia anunciada".

"Temos a intenção de deixar isso bastante claro para que não aconteça nunca mais. Essa falta zelo, essa falta de cuidado, porque todos sabem que essa companhia aérea era uma companhia de reputação duvidosa, de péssima saúde financeira", protesta Paiva.

- Confluência -Depois de meses de tensão com um clube que, ao mesmo tempo era homenageado, entre outros, pelo Barça e pelo papa Francisco, os familiares e a Chapecoense estão se aproximando.

Sem negligência no acidente, segundo a Justiça brasileira, o clube criou recentemente um grupo de trabalho para melhorar o diálogo.

"A Chapecoense busca desde o primeiro momento prestar todo auxílio às famílias, porém, além de um processo de reconstrução enquanto clube de futebol, a Chapecoense passou por um processo de reestruturação também administrativa", explica o chefe de comunicação do time, Fernando Mattos, em alusão à morte do presidente e de parte da diretoria que havia transformado uma equipe desconhecida em uma das mais sustentáveis do país.

Apesar de já ter pago seus seguros obrigatórios, há 15 processos abertos contra a Chapecoense na Justiça trabalhista, e três civis.

Nas últimas semanas, o clube anunciou a doação de 28.800 reais mensais à Abravic, outra associação que ajuda as vítimas com suas despesas.

- Precariedade -Para Rosângela Loureiro, viúva do experiente meia Cléber Santana, no entanto, são medidas insuficientes por parte de um clube que "faltou com o respeito" às famílias.

Ela se considera uma afortunada, pois aos 35 anos, seu marido estava encerrando uma carreira que o havia levado ao Atlético de Madri e ao Japão, e o casal já tinha começado a investir no futuro.

Mas nem todos tiveram esse tempo.

"Tem gente que passa necessidade. Tem gente que estava começando a carreira, tem gente que era massagista... Que ganhava dinheiro que era do dia a dia e que não tinha como pensar no futuro. Era trabalhar para viver", lamenta.

De volta à cidade de onde saiu após completar 18 anos e recém-casada com a revelação do clube local, agora ela vive determinada a realizar o sonho dos dois filhos, de 12 e 15 anos: ser jogadores de futebol como o pai.

Desde a tragédia, em sua casa não se assiste à televisão, embora ela acompanhe com atenção os próximos passos das outras famílias.

Todos querem respostas para poder recomeçar.

"Quando conseguirmos que todos os culpados assumam sua responsabilidade, então ficaremos realmente tranquilas, sabendo que cada familiar terá uma nova oportunidade", conclui Fabienne.

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