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O preço pago pelo Rio para sediar os Jogos Olímpicos de 2016

06/12/2017 16h33

Paris, 6 dez 2017 (AFP) - Em 2 de outubro de 2009, o Rio de Janeiro se tornou a primeira cidade da América do Sul a sediar os Jogos Olímpicos de Verão. Mas quanto custou a o voto dos membros do COI? Oito anos depois, o fluxo de dinheiro e e-mails veio à tona, mas agora só restam grandes suspeitas.

Durante muito tempo, Papa Massata Diack foi um personagem que se movia distante do foco da imprensa. Mas o dirigente foi protagonista dos escândalos que sacodem o mundo do esporte há dois anos.

Diack era um dos principais nomes do escândalo de corrupção da Federação Internacional de Atletismo (IAAF), relacionado com atletas russos dopados. Agora, o senegalês de 52 anos está na mira das justiças de França e Brasil, que investigam as condições da nomeação das Olimpíadas do Rio-2016.

A dúvida é se Papa utilizou a influência de seu pai, Lamine Diack, então presidente da IAAF e membro do Comitê Olímpico Internacional (COI), para enriquecer.

A operação "Unfair play", que está em funcionamento desde setembro, e os e-mails analisados pelos investigadores aumentaram as suspeitas. A AFP teve acesso ao conteúdo das mensagens.

- Dois milhões de dólares -Há vários meses, a justiça francesa investiga indícios de fundos que foram lavados em seu território. Em junho de 2016, os magistrados da Procuradoria Nacional Financeira (PNF) colheram depoimento do ex-membro do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Eric Walther Maleson.

Maleson envolveu o presidente do COB e do comitê organizador da Rio-2016, Carlos Nuzman, declarando que ficou sabendo de subornos para conseguir a sede olímpica para a cidade carioca. Ainda assim, uma fonte próxima da investigação disse que Maleson, que tem contas pendentes com Nuzman, "não parece ter conhecimento dos fluxos".

Já a justiça francesa detectou duas transferências, de dois milhões de dólares cada, que foram feitas no dia 29 de setembro de 2009, três dias antes da votação do COI. O beneficiário foi Papa Massata Diack ou uma de suas empresas, em Moscou e Dacar.

O dinheiro saiu da empresa Matlock Capital, que está relacionada ao empresário brasileiro Arthur Soares. "Rei Arthur" era conhecido pelo apelido e pela proximidade com o ex-governador do Estado do Rio de Janeiro, Sergio Cabral, condenado a 14 anos de prisão.

- Transferências -Por qual motivo Papa Massata Diack recebeu dois milhões de dólares da Matlock Capital? O senegalês, residente em Dacar, onde nunca pôde ser interrogado pela justiça francesa, não quis responder à AFP.

O que se sabe é que antes e depois da votação dos membros do COI, que definiu a vitória do Rio sobre Madri na terceira e última votação (66 votos a 32), Papa Massata Diack manteve contatos com membros da candidatura brasileira, segundo e-mails analisados pela investigação do Brasil. Entre os destinatários, Carlos Nuzman e o ex-diretor de comunicação e marketing do COB, Leonardo Gryner.

Papa Massata Diack relembra que espera pagamentos em várias ocasiões, como no e-mail do dia 19 de dezembro de 2009 destinado ao gabinete do presidente do COB. Fala-se do valor de 450.000 euros. Dois dias depois se dirige diretamente a Nuzman, em inglês, para pedir "ajuda".

No dia 6 de janeiro, comemora o recebimento de 50.000 e 60.000 dólares em uma conta em Dacar, mas ainda espera 340.000.

"Transmita ao presidente que continuo esperando a finalização do processo, já que agora estou recebendo mais pressões de meus amigos", insistiu Papa em 31 de janeiro de 2010, com Carlos Nuzman em cópia no email.

- Joalherias parisienses -Em declaração citada na ata da acusação brasileira, Leonardo Gryner disse que Lamine Diack aproveitou o Mundial de atletismo de Berlim, em agosto de 2009, para apresentar seu filho, responsável para tratar de patrocínios de eventos no Brasil.

Uma versão que parece validada por e-mail de Gryner para Papa Massata Diack, em 10 de setembro de 2009: "Estamos dispostos a enviar uma carta de intenção à IAAF sobre os Relays Challenge IAAF 2010-2012".

Gryner acrescentou que nenhum evento deste tipo foi organizado. As três edições do World Relays, competição de revezamento criada em 2014, foram realizadas nas Bahamas.

No Brasil, Nuzman, Gryner e Cabral foram acusados pela participação na rede de corrupção, enquanto Papa e Lamine Diack estão formalmente indicados na ata de acusação. Na França, o caso ressoou no ex-atleta da Namíbia, Frankie Fredericks, acusado de corrupção passiva.

A justiça descobriu que a empresa Yemi Limited, fachada do ex-competidor, recebeu transferência de 299.300 dólares no dia 2 de outubro de 2009. O valor veio da companhia Pamodzi Consulting, de Papa Massata Diack.

Em Copenhague, cidade onde se votou a sede, Fredericks era um dos encarregados da análise dos votos do COI quando o Rio conquistou as Olimpíadas. Neste mesmo dia, as investigações mostram que 130.000 dólares saíram de Pamodzi Consulting para joalherias de Paris, neste mesmo dia.

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