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Chineses apostam em escola de futebol no interior de São Paulo

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Zagueiro brasileiro Gil em ação pelo Shandong Luneng Imagem: Divulgação

19/12/2017 11h59

Quando chegaram em abril a Porto Feliz, no interior de São Paulo, o jovem LongYushuo, de 16 anos, e seus companheiros da base do Shandong Luneng tinham um objetivo em mente: absorver a magia do futebol brasileiro antes de voltar para a China.

Esta missão, muito além da viagem de 18.000 quilômetros que separam Jinan, capital da província de Shandong, de Porto Feliz, começava por uma mudança de nome, questão de facilitar a vida dos treinadores brasileiros e ajudar na adaptação ao novo país.

Long Yushuo se tornou assim Thomas, uma homenagem a seu ídolo, o atacante do Bayern de Munique Thomas Muller.

Além de Thomas, outros 22 jogadores da equipe Sub-16 do time chinês chegaram ao Brasil, país que conheciam apenas como berço de seus ídolos no esporte, para aprender a improvisar dentro de campo, longe da rigidez dos gramados da China.

Num português de iniciante, que aperfeiçoa diariamente numa pacata escola desta cidade de 50.000 habitantes, Thomas não titubeia ao ser perguntado sobre o que veio melhorar no Brasil. "A técnica", responde, sob os atentos olhares dos companheiros, todos vestidos com o tradicional uniforme laranja do Shandong Lueng.

Em meio aos milhões de yuans gastos com futebol no gigante asiático, o Shandong Luneng comprou em 2014 o Desportivo Brasil, um clube concebido nove anos antes pela empresa de marketing esportivo Traffic como celeiro de talentos, a 120 quilômetros de São Paulo.

A paixão do presidente Xi Jinping pelo futebol incitou uma onda de investimentos de empresas multinacionais e estatais no esporte, e o grupo Luneng, subsidiário da maior companhia elétrica da China, ajudou o país a se tornar o quinto maior mercado de contratações do mundo em 2016.

A colônia de brasileiros na China conta atualmente com 21 jogadores e é a mais numerosa da Superliga. O próprio Shandong Lueng tem dois atletas brasileiros, o atacante Diego Tardelli e o zagueiro Gil.

Mas, com a seleção nacional aparecendo somente na 60ª posição do ranking Fifa, falhando no objetivo de se classificar para a Copa do Mundo da Rússia-2018, essa gastança não está agradando a Pequim, que quer agora investir no próprio talento, mesmo que isso implique em cruzar o globo para descifrar os segredos do futebol brasileiro.

"Esse intercâmbio é feito para que adquiram essa mesma qualidade ou uma qualidade parecida com a dos brasileiros, porque eles são muito disciplinados e falta a questão da malícia, da irreverencia, da flexibilidade e da autonomia. Entende-se que aqui no Brasil o garoto brasileiro tem isso", explica à AFP Rodrigo Pignataro, coordenador técnico do Desportivo Brasil.

Neste moderno centro de treinamento, onde tremulam as bandeiras de ambos os países, vivem outros cinco jogadores chineses integrados à equipe Sub-20, além de 130 brasileiros dos 14 anos até o elenco profissional, que disputa a série A3 do Campeonato Paulista.

Sala de aula

Ao mesmo tempo em que o futebol chinês limitava as contratações astronômicas, o Shandong aumentava para oito meses a duração do estágio no Brasil, onde também compete em vários torneios.

"Este é o grupo que o governo chinês entende que será a base olímpica" para os Jogos Olímpicos de Tóquio-2020, "a nossa responsabilidade é grande", continua Pignataro.

Mas, para se tornar uma potência do futebol, o gigante asiático não aposta somente na bola, para tristeza destes adolescentes, que precisam comparecer às salas de aulas a partir das 9h00 da manhã.

Entre bocejos e caras de tédio, o dia começa na escola. Durante a aula de história, eles precisam ler em voz alta textos em português e mandarim sobre a proclamação da República brasileira.

Enquanto esperam a aula acabar para poder ir ao campo, todos sonham em seguir o exemplo de Lio Chaoyang, de 18 anos, mais conhecido em Porto Feliz como Vitinho, em homenagem ao ex-atacante do Botafogo e do Internacional, hoje no CSKA de Moscou.

No Brasil desde 2014, este nativo de Chengdu, província central chinesa, faz parte do elenco Sub-20 do Desportivo Brasil. Totalmente integrado, Vitinho fala português fluentemente e adora o funk brasileiro. "Quero jogar na Europa, mas tenho que trabalhar muito para melhorar meu futebol", admite.

'Jiayou!'

Para desvendar todos os aspectos que fizeram do futebol brasileiro pentacampeão do mundo, o Shandong Luneng também enviou ao Brasil membros de sua comissão técnica, como Zhao Shuo, de apenas 25 anos. Há dois meses no país, este assistente não desgruda dos colegas brasileiros e só ressalta a rígida disciplina como ponto forte das equipes asiáticas.

Ninguém desiste, apesar do forte sol do interior paulista, onde os meninos testam suas resistências em intensos piques.

Fora de campo, se misturam os gritos de "Vamos, vamos!" do preparador físico Rogério com os "Jiayou!" do tradutor Rui, formado pelo Shandong para ser a voz em campo dos técnicos brasileiros.

Nenhum conceito pode se perder na tradução e a China quer aprender tudo sobre o futebol, custe o que custar.

"O futebol precisa de tempo, porque é um tipo de educação, e educação não é algo a curto prazo. Talvez sejam necessários 10, 20 anos ou mais", afirma em inglês Zhao Shuo.

O jovem assistente não hesita em citar o exemplo do Japão, que iniciou um projeto a longo prazo no início dos anos 90 centrado na figura do ex-craque do Flamengo e da seleção brasileiro Zico, e que deu certo.

"Temos que aprender com nossos vizinhos e ser pacientes", conclui, sem tirar os olhos do campo.

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