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No primeiro clube de Ronaldo, sonhos de jovens jogadores continuam vivos

04/03/2018 14h35

Rio de Janeiro, 4 Mar 2018 (AFP) - O pequeno time São Cristóvão deu a primeira oportunidade a Ronaldo Fenômeno. E, 25 anos depois, seu treinador, Antônio Carlos Dias, sonha em descobrir a nova estrela brasileira.

A julgar pela deteriorada arquibancada de seu estádio no subúrbio do Rio de Janeiro, essa ambição poderia parecer exagerada.

Ronaldo foi um dos melhores jogadores do mundo, mas na última vez que atuou pelo São Cristóvão ainda era um adolescente, no início dos anos 1990, e a fama do clube só decaiu desde então.

"O Fenômeno nasceu aqui", recordam as letras gigantes atrás de uma das portarias. O presente, entretanto, mostra um campo irregular, uma sede social que precisa urgentemente de pintura e uma equipe estagnada na terceira divisão.

Mas isso é o Brasil. A terra de Pelé, Zico, Sócrates, Kaká e Neymar, a que sonha em levantar a taça da Copa do Mundo em julho na Rússia, e onde os sonhos são possíveis até para o modesto São Cristóvão.

"Temos muitos craques no Brasil", afirma Dias, enquanto observa o grupo dos meninos de 12 a 14 anos correndo pelo gramado com passes rápidos. "É um celeiro que não tem fim", assegura.

- Nascer com um dom -Como seu heróis do futebol, quase todos os meninos que treinam no São Cristóvão vivem nas comunidades.

"Alguns se perdem pelas companhias nas comunidades onde moram, (pelo) tráfico, e o dinheiro fácil", reconhece Dias.

Muitos chegam para treinar quase sem ter comido, mas o clube os acolhe e cuida, e "começa a pescar um ou outro que realmente vai chegar, ou que tem condições de chegar".

O próprio Ronaldo, que marcou 62 gols em competições internacionais, venceu duas Copas do Mundo e jogou no PSV Eindhoven, Barcelona, na Inter de Milão, no Real Madrid e AC Milan, nasceu em uma família pobre do Rio.

Os meninos que hoje correm pelo campo do São Cristóvão o adoram.

"(Gostaria) de ser como o Neymar, o Ronaldo, passar pela Seleção", diz Maurício Almeida, de 15 anos, vestido com a camiseta do clube que diz "Fábrica do Fenômeno".

O treinador da equipe de jovens, Renato Campos, de 56 anos, se lembra muito bem do jovem Ronaldo, com seu sorriso de dentes separados, mas admite que era difícil prever esse futuro. "Não tem como você dizer que ele seria o melhor jogador do mundo".

O técnico observa com atenção um habilidoso jovem baixinho, de quem nenhum zagueiro consegue tirar a bola. Sua altura "praticamente o descarta" para o mercado internacional, "mas vai jogar bem aqui dentro do Brasil".

"Você vê a diferença deles (...) na qualidade de bater a bola, na qualidade de passe, na determinação", destaca, se referindo ao grupo. Com alguns "você trabalha isso, (mas) tem outros que já nasceram com essa qualidade".

- O que significa o futebol? 'Tudo' -Os gênios do futebol parecem brotar por geração espontânea no Brasil. Mas assim como muitas outras coisas, esse esporte sofre pela falta de dinheiro e pela corrupção.

O São Cristóvão, que era um dos melhores clubes do Rio no início do século XX, é um exemplo perfeito disso.

Em sua sala de troféus é possível ver reluzentes taças de prata e ouro que remetem ao futebol do passado.

A fraca ligação de Ronaldo com o clube é ainda mais dramática: uma fotografia gasta colada no quadro de novidades tirada da última vez que o visitou - janeiro de 2014.

Dias afirma que o São Cristóvão foi arruinado por anos de problemas financeiros e más decisões, e não pela falta de talentos. Por essas mesmas práticas "obscuras" que Ronaldo preferiu manter distância do clube de sua infância.

Mas Dias, de 49 anos, acredita que o clube pode recuperar "sua glória passada" e demonstrar aos investidores, e talvez até a Ronaldo, que agora está "sem corrupção de ninguém".

Ex-jogador profissional no Brasil e em Portugal, Dias tomou o controle do São Cristóvão há somente três meses. Colocou dinheiro de seu próprio bolso, renovou a equipe, comprou equipamentos novos e aspira a subir para a segunda divisão, parte de um sonho que inclui chegar à primeira em 2020.

"Às vezes a minha família fala que eu sou maluco", explica sorrindo. "Mas eu tenho amor ao clube, amor ao futebol".

Esse mesmo espírito emana da resposta do jovem Jorge Gabriel, que treina no São Cristóvão, quando lhe perguntam o que o futebol significa para ele: "Basicamente tudo".

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