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"Zidane terá um pouco de Itália durante toda a vida", diz Lippi

03/04/2018 08h09

Roma, 3 Abr 2018 (AFP) - Zinedine Zidane "já era um fora de série" quando chegou à Juventus, garante o treinador de suas primeira temporadas no clube, Marcello Lippi, em entrevista à AFP. Mas o técnico da seleção italiana campeã do mundo de 2006 sabe que "Zizou" terá "um pouco de Itália dentro dele durante toda a vida".

Pergunta: Zidane afirma ter se tornado homem na Juventus. Quem você recebeu ainda era um garoto?

Resposta: "Não era um garoto, mas era jovem. E como todas os grandes jogadores que passaram pela Juventus, precisou de um pouco de tempo para se impor, acostumar com um futebol diferente. Foi o seu caso, assim como para seu ilustre antecessor Michel Platini. Os primeiros meses foram de difícil adaptação".

P: Como você ajudou?

R: "Sempre teve nossa confiança absoluta, já que víamos p quanto era bom. Um dia veio e me disse 'não consigo, precisa me deixar em casa'. Respondi que não era questão nem de pensar nisso. 'Você é o mais forte de todos. Enquanto eu estiver aqui, será titular. Você se dá conta que eu acredito em você?'. No domingo seguinte, marcou um golaço contra a Inter. A partir daí não parou mais e se tornou o que virou depois".

P: E no que se tornou?

R: "Do meu ponto de vista, o melhor da década. Antes dele tinha Maradona. Depois, Zidane foi o melhor jogador de sua geração".

P: Na Juventus ele deixou uma marca tão profunda como no Real Madrid?

R: "Para os italianos deixou uma lembrança fantástica, de um grande jogador. O valor se mede também pela quantidade de troféus vencidos. O que o tornou fora de série foi conduzir seu time ao título. Com Juventus, Real Madrid e França conquistou tudo. A vitória é uma constante para ele. Inclusive seus primeiros anos de treinador comprovam isso. É claramente uma aptidão natural. E isso não tem nada a ver com a beleza de seu jogo".

P: Como jogador, o que aprendeu em Turim?

R: "Nenhum treinador pode ensinar algo tecnicamente para Zidane. Com os grandes jogadores, o técnico deve simplesmente fazer entender o peso de algumas situações, mostrar uma certa mentalidade, a importância de se colocar a serviço do time. Mas inclusive para isso, Zidane tinha uma pré-disposição. Já era um fora de série quando chegou a Turim".

P: Dizem que ele saía de noite com Edgar Davids para jogar "peladas" com pessoas do seu bairro.

R: "É verdade. Uma vez o encontrei às 23:00h jogando futebol na 'Piazza Carlo Felice' com seus amigos argelinos. E eu disse 'O que faremos se você se machucar?'. Ele respondeu 'Eu sei professor, mas são meus amigos. Me sinto bem com eles'. Quando você o conhece é algo que se compreende facilmente".

P: Você o imaginava como treinador?

R: "Quando se aposentou, decidiu romper de maneira inteligente com o futebol. Durante muito tempo, não falamos nunca de futebol. Nem da final da Copa do Mundo de 2006, nem da cabeçada em Materazzi. Depois me disse um dia: 'vou tentar ser treinador'. É raro que os grandes campeões repitam no banco o que conseguiram dentro de campo. E ele conseguiu. E os que trabalham com ele falam de como é minucioso, atento a tudo, como prepara cada treino com precisão... Tantas coisas que os fora de série raramente fazem quando se tornam técnicos".

P: Talvez tenha aprendido isso na Itália...

R: "Vai ter um pouco da Itália dentro dele durante toda sua vida. Aperfeiçoou e afinou sua forma de compreender o futebol. Ele progrediu como um todo. Aprendeu com técnicos italianos como eu, Ancelotti, a quem depois reencontrou em Madri. Não tenho nenhuma dúvida que a Itália foi essencial para ele, em sua progressão como jogador e treinador".

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