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Futebol, drogas e feridas: a página virada na vida de Casagrande

Nelson ALMEIDA / AFP
Walter Casagrande, comentarista da Globo Imagem: Nelson ALMEIDA / AFP

11/01/2019 10h03

São Paulo, 11 Jan 2019 (AFP) - Walter Casagrande foi o único brasileiro que venceu a Copa do Mundo da Rússia. A Seleção caiu nas quartas, mas o ídolo do Corinthians ficou com um prêmio maior: voltou para casa totalmente sóbrio, algo que nunca tinha feito nas outras Copas em que trabalho como comentarista, nem na que disputou como jogador em 1986.

Foram 38 anos de vícios que não o mataram por milagre, até que, há uma década, começou um duro tratamento que acabou compartilhando com todo o Brasil.

Pilar da Democracia Corinthiana ao lado do 'irmão' Sócrates, vítima fatal do alcoolismo em 2011, Casão, como é chamado pelos amigos, nunca imaginou que veria um ex-militar como Jair Bolsonaro chegar ao poder no país somente 34 anos após o fim da ditadura que ele tanto combateu.

Roqueiro, competitivo e rebelde, um filme sobre a vida de Casagrande está previsto para começar a ser rodado em 2019.

Material não falta a quem viveu quase quatro décadas no inferno.

"Eu já usava droga antes, mas depois que eu parei de jogar isso ficou voraz, esse poder de autodestruição cresceu muito e eu não entendia o porquê", explica à AFP o ex-atacante, que aos 55 anos ainda cultiva os característicos longos cabelos pretos de quando era um ídolo do futebol nos anos 1980.

Após quatro overdoses por cocaína, Casagrande chegou ao fundo do poço em 2007 após um grave acidente de carro. Ao acordar, tinha sido internado em uma rígida clínica de reabilitação, nos arredores de São Paulo.

"Fiquei internado um ano e comecei a fazer terapia para acertar meu lado psicológico, acertar minha vida. Eu percebi que parar de jogar futebol deixou um buraco em mim, que eu estava sofrendo tanto com aquilo", conta agitando os dedos decorados com anéis de caveiras.

Intenso, Casagrande chegou a jogar no Porto e teve sucesso no Torino. O ex-atacante, porém, mudaria muitas coisas na carreira se pudesse voltar no tempo. O principal arrependimento: não ter tido uma despedida do esporte que tomou conta dele desde muito novo e que, de repente, o abandonou aos 32 anos.

"Eu não fiz (uma despedida) e o Sócrates também não fez. E eu vejo duas pessoas que não fizeram uma despedida do futebol e que se enfiaram num caminho de morte", lamenta o comentarista da TV Globo.

Liberdade

Filho de uma família de trabalhadores de São Paulo, Casagrande cresceu admirando o carismático Sócrates, nove anos mais velho, e alcançou o sonho de jogar com o ídolo com a camisa do Timão. Inseparáveis, simbolizaram a Democracia Corinthiana, o revolucionário sistema de gestão de equipe colocado em prática nos anos finais da ditadura (1964-1985).

Sócrates foi o padrinho de casamento de Casagrande e seu cúmplice dentro e fora de campo, embora tenham acabado se distanciando nos últimos anos.

Os dois se reconciliaram quando uma hemorragia digestiva derivada da cirrose mandou o 'Doutor' ao hospital, onde acabou falecendo quatro meses depois.

"Sócrates bebeu muito, a vida toda. Morreu de alcoolismo porque ele gostava de beber, mas eu tenho certeza que era para esquecer coisas que machucavam. E a droga para mim teve o mesmo papel", confessa.

Juntos, subiram ao palco da histórica manifestação das 'Diretas Já', que levou um milhão de pessoas ao coração de São Paulo, em 1984.

Impossível de imaginar para aquele impetuoso Casão que alguém como Bolsonaro - abertamente nostálgico da ditadura - seduziria 55% dos brasileiros três décadas depois.

"Eu nunca pensei isso porque foi uma luta de 20 anos para que os militares saíssem, para a democracia voltar ao país, para a censura acabar, para as pessoas viverem sem medo", reconhece.

"Muitos militares no governo assusta, mas não da para falar o que vai acontecer, eu só estou observando", continua com cautela, sem querer comparar a ditadura com o novo governo de Bolsonaro - no qual há sete membros do Exército -, que ainda não havia tomado posse no momento da entrevista.

Apesar de não concordar em nada com a ideologia do novo presidente, Casagrande não hesitou em defender o volante Felipe Melo, do Palmeiras, quando o jogador dedicou um gol a Bolsonaro durante a campanha eleitoral.

"Todos os jogadores têm o direito de se manifestar de alguma maneira. Até porque o jogador brasileiro não se manifesta em nada, cada um cuida da sua vida e parece viver em outro planeta, eles não participam de nada na sociedade brasileira e isso me incomoda muito", afirma.

Casão não gostou das mensagens de Felipe Melo, de Jadson ou de Lucas Moura - que apoiaram Bolsonaro abertamente -, mas sim do fato de eles terem se expressado.

Vitória

Casagrande está do outro lado da tela agora e se sente muito mais livre assim.

"É muito mais prazeroso jogar, mas é muito mais confortável ser jornalista esportivo", reconhece sorrindo.

Focado em manter guardado sob sete chaves seus demônios, Casão agora se diverte com música, cinema e teatro, prazeres que reencontrou ao se libertar das drogas.

Lá se vão quatro anos desde a última vez que provou uma gota de álcool, mas, com seus psicólogos do outro lado do mundo, a Rússia aparecia como a prova de fogo. E após quatro décadas no abismo, enfim, Casagrande sentiu que havia vencido, antes do início em Moscou da final da Copa do Mundo entre França e Croácia.

"Eu virei uma página na Copa do mundo, o meu passado de drogas fechou", diz.

Agora, ele tem toda a vida pela frente.

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