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Do sonho olímpico à WWE: Conheça a esperança brasileira do pro-wrestling

Diego Ribas, em Las Vegas (EUA)

Ag. Fight

09/04/2018 10h00

A cena parecia comum, e se não fosse pelo fato de serem três pessoas e não apenas duas que trocavam golpes em cima de um ringue com as mesmas medidas das usadas em competições de boxe, uma curiosidade poderia passar despercebida. Neste domingo (8), ao abrirem a noite do card principal da 34ª edição do Wrestlemania - grande show da WWE, maior liga de pro wrestling do mundo -, Finn Balor, 'The Miz' e Seth Rollins provaram que neste mundo que mistura esporte e entretenimento, ao contrário das lutas de MMA, o clima de disputa e rivalidade em torno da ação propriamente dita é mais importante do que a efetividade dos socos e chutes.

Popularmente conhecido como telecatch no Brasil, termo que dava nome a um programa de TV especializado nesses duelos na década de 60, o pro-wrestling não é popular atualmente por aqui. Ao contrário do cenário americano, onde arenas lotadas com 20 mil fãs fazem parte do cotidiano, a modalidade não tem visibilidade para o grande público em nosso país e se limita a transmissões locais ou em canais de baixo alcance na internet. E parte dessa pouca demanda se deve á falta de um ídolo internacional - o que pode estar com seus dias contados.

Ex-titular da seleção brasileira de luta olímpica, Adrian Jaoude faz parte da primeira geração de brasileiros contratados pela WWE - Cezar Bononi e Taynara Conti completam a lista. De contrato assinado desde 2015, o atleta de 36 anos ainda atua na NXT, uma espécie de divisão de base que é gerenciada pela empresa com o intuito de  formar futuras estrelas da organização. E confiante de que seu momento de se apresentar na maior liga de pro-wrestling do mundo está próximo, ele conversou com exclusividade com a reportagem da Ag. Fight, quando pôde revelar alguns detalhes de sua vida desde quando se mudou para Orlando (EUA).

Curiosamente, a atual fase do brasileiro é talvez uma das mais complexas da carreira de um profissional do pro-wrestling. Com treinos diários e acompanhamento regular da empresa, Adrian agora "constrói o seu personagem". E para isso a ideia principal é usar as características que mais lhe façam sentido também fora dos ringues. Por isso, o nickname sugerido por ele até o momento é o de 'Warrior'(guerreiro, em inglês).

"Uso o nome de guerreiro. Não é o meu nome no show, não me chamam de 'Warrior', não tenho um nome oficial ainda. Eles pedem para desenvolver quem você é, se identificar no que for mais próximo de você. E como sou brasileiro, pensei nisso por sermos guerreiros. 'Fala guerreiro' é uma expressão comum para gente, é o cara que rala da duro. Mas no inglês é o soldado. E a minha mensagem é ser guerreiro para você mesmo, na vida, ser o melhor possível na vida", relatou, antes de se aprofundar no tema.

"Todo meu personagem tem isso, é um faixa preta legítimo . Isso me ajuda em tudo, arte marcial é a minha vida. Estou em uma divisão de desenvolvimento, uma vez que você ainda está criando seu personagem. Depois que você cria e vai para os shows da TV e tem uma consistência em eventos ao vivo, você faz parte da marca", explicou, garantindo que não existe um tempo limite para que a migração para a 'primeira divisão' ocorra. "Tem que encaixar com a história".

Essa história é  enredo que interliga todas as narrativas do show. De fato, ao ver apenas uma luta em si, fica claro que os movimentos são coreografados e que não há uma competição esportiva. No entanto, ao menos para quem acompanha o show, a comparação mais próxima desta dinâmica seria com as novelas brasileiras, com o diferencial de serem apresentadas ao vivo e em um ringue.

"Não é fake, é coreografado. Não significa que não vai machucar. Quando a gente coreografa que vai ter um soco em tal momento, eu dou o soco em tal momento. A diferença para o MMA é que você sabe que vai levar o soco . Você vai para a casa roxo, é um esporte de contato. É uma novela da luta, e todas as histórias acabam em briga. Para mim é ótimo porque sou lutador", brinca.

Ao contrário da vida de um lutador de MMA, Adrian precisa conciliar suas habilidades atléticas com
dramaturgia, tanto dentro quanto fora do ringue. Para isso, a empresa oferece estrutura para que ele aprimore sua fala com fãs e imprensa, além da atuação em si no ringue.

"Minha rotina é no treinamento. De manhã eu tenho três horas de ringue, depois vou para a academia por 2h30. Depois tem o 'quarto da promo', com desenvolvimento de aula de microfone, promoção, aula de entrevista e fala. Toda quinta, sexta e sábado, temos os eventos dentro do estado da Flórida. Sempre viajamos para poder lutar e ficar perto do público, tirar fotos e dar autógrafos", enumerou.

Guerreiro por natureza

Apesar do termo 'Warrior' ter uma conotação diferente quando usado em português e em inglês, a nomenclatura é justa para quem, além de ter servido a Marinha, veio ao mundo durante um período de guerra em outro país. Filho de um libanês e de uma brasileira, Adrian nasceu na cidade de Beirute quando sua família foi pega de surpresa durante uma viagem.

"Meu pai trabalhava na Petrobras e viajava para o Líbano volta e meia. Nessa vez, ele foi para apresentar o Antoine para o meu avô e logo depois começou a guerra civil e fecharam o aeroporto. Ninguém podia sair de lá e nesse tempo nasceu o Ralph, Daniel e Nicolas também. Ficamos 12 anos lá", relembra, mencionando momentos de tensão que marcaram a sua infância.

"Lembro de bastante coisa. Minha primeira infância foi toda lá. Não sei especificar a idade, mas lembro dos amigos, momentos com a família, igreja. Lembro que os anos finais, quando a guerra apertou... Lembro de bombardeios, de irmos para abrigos, de carros explodindo na rua. A gente, quando faltava luz e tinha bombardeio, a gente corria para a varanda pensando que eram fogos de artifício. Não tínhamos noção".

Seu pai, que serviu o exército de apoio ao exército libanês, mais tarde trabalhou na embaixada britânica quando viu um novo dilema na família. Antoine, o mais velho dos filhos já se aproximava da idade de recrutamento pelo exército, e isso ajudou na hora de tomar a decisão de deixar o Líbano.

"Lembro de um carro com auto falante pedindo para famílias católicas irem embora do país. O aeroporto do Líbano estava bombardeado, tivemos que ir para a Síria. A gente chegou com duas malas, pararam o taxi e um guarda armado com fuzil ficou mexendo em tudo. foi horrível", recordou.

Início nas artes marciais

De volta ao Brasil e já longe da zona de conflito, ele e os irmãos começaram a praticar artes marciais distintas até que por motivos diversos todos culminaram no wrestling, modalidade em que os Jaoude criaram uma verdadeira dinastia. Encabeçados por Antoine, maior nome da modalidade de história brasileira, campeonatos brasileiros, pan-americanos e vagas na seleção nacional se tornaram rotina. E aí mora um outro grande elemento que caracteriza Adrian. Sempre usando uma faixa-preta na cintura durante suas apresentações na NXT, o atleta, de fato, a fez por merecer. E não apenas uma.

Especialista em luta greco romana, ele também é graduado em jiu-jitsu, luta livre, muay thai, aikidô e vale tudo. Durante os anos 2000 e início desta década, Adrian treinou com os mais renomados nomes do MMA nacional no time 'Ruas Vale tudo' e esbarrou na trave em diversas oportunidades na hora de estrear no octógono. A barreira diversas vezes foi seu sonho de competir em uma Olimpíada, o que perseguiu por 17 anos.

"Sempre treinei MMA. Uma vez no 'Ruas Vale Tudo', não se pode pensar em não fazer MMA. Mas sempre existia a questão de esperar porque eu era muito novo. Com 24 anos eu estava chegando na hora, mas estava imerso no wrestling. Esperei bons contratos, e quando eles chegaram eu estava com prioridade nas competições de wrestling. Acabou que não aconteceu", lamentou.

Empurrão 'amigável'

O pontapé para buscar uma vaga na WWE começou de forma inusitada. De olho em uma chance de competir nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, o atleta pensou em deixar passar a chance de se apresentar ao staff da empresa. Se passagem pelo Brasil em 2014, a organização abria vagas para interessados em participar de um processo de seleção que poderia garantir uma chance na NXT. E Adrian precisou de um empurrão para fazer a entrevista.

"Voltando de um torneio, meu irmão me falou que o pessoal da WWE iria ao Brasil fazer uma seletiva. Mas na época eu disse que não me interessava porque estava com foco na Olimpíada. Ele me disse que eu deveria tentar, porque eles estavam procurando gente do meu tamanho. Eu disse que não e o Antoine, no dia da entrevista, me ligou e mandou eu levantar e ir: 'Tu vai, se não for, vou aí te meter a porrada' ", brincou já se empolgando.

"Fiz a entrevista e eles ficaram amarradões. Não tinham ideia de quem eu era, minha bagagem olímpica, de jiu-jitsu e tudo mais. Me deram a resposta no dia". O próximo passo foi fazer novos testes em Orlando e dar início ao treinamento que, no início, ainda lhe permitiu seguir em busca do sonho olímpico - que acabou não se tornando realidade. Aprovado nas seletivas, chegava a hora então de avisar a esposa, até então última a saber.

"Cheguei e falei: 'Amor, vamos morar em Orlando. Passei no 'try out' e vamos morar lá'. Quando vim aqui a primeira vez eu disse que vim treinar wrestling. Aí ela me disse que tinha notícia também. 'Estou grávida' . A gravidez toda foi a minha preparação para vir para cá. Foram oito meses de preparação e meu filho nasceu depois de duas semanas que cheguei aqui. Foi uma tremenda mudança".

Aos 36 anos e dono de uma bagagem única no esporte, Adrian já é referência na modalidade. Embora longe do main stream, o pro wrestling carrega um base sólida de fãs no Brasil que se identificam com a oportunidade do brasileiro de brilhar nos EUA. E ele parece entender a responsabilidade que carrega.

"Não vim por acaso. tenho minha bagagem olímpica que fez a diferença para eu assinar. Quero mostrar para os jovens que dá para ser um pro wrestler profissional. O brasileiro ainda não viu a gente lutando, mas esse momento está chegando e esse 'boom' vai ser maior quando virem a gente na televisão. Já não é um sonho tão distante", finalizou.

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