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Brasileiros isentam técnico de Pennington após polêmica no UFC Rio; entenda

Buda Mendes/Zuffa LLC/Getty Images
Amanda Nunes castigou o rosto de Raquel Pennington no UFC 224 Imagem: Buda Mendes/Zuffa LLC/Getty Images

Diego Ribas, em Las Vegas (EUA)

Ag. Fight

17/05/2018 09h34

"No, no, no, no". As palavras de Jason Kutz, treinador de Raquel Pennington, entre o quarto e quinto rounds da disputa pelo título dos galos feminino (61 kg), no último sábado (12), no UFC 224, ainda geram uma grande discussão. A negativa do técnico dizia respeito ao pedido de 'Rocky' para desistir do combate, dado o massacre imposto pela campeã Amanda Nunes. As duas pessoas diretamente envolvidas com a situação de Raquel, Amanda e Kutz, divergiram sobre a situação. Por isso, a reportagem da Ag. Fight ouviu três dos principais treinadores do Brasil sobre a decisão de forçar Raquel a continuar lutando, mesmo com a lesão no nariz da qual ela se queixava.

Rafael Cordeiro, líder da academia 'Kings MMA' e treinador de atletas como Fabrício Werdum, Beneil Dariush e Wanderlei Silva, cobrou mais ponderação de quem analisa a questão sem viver a relação professor-aluno. De acordo com ele, o convívio e o sacrifício diário fazem com que, frequentemente, o técnico conheça mais os limites do lutador do que o próprio atleta.

"Acho que não dá para culpar o treinador e nem a atleta, porque às vezes a gente não sabe qual a conexão que eles têm, até onde dá pra ir... Às vezes a gente fala de fora: 'Já deveria ter parado', ou 'deveria ter continuado'. Mas a gente não pode falar, pois não sabe a conexão que os atletas têm", disse.

Outro técnico que pensa de forma parecida é 'Dedé' Pederneiras. O comandante da Nova União, que conduziu atletas como José Aldo, Renan 'Barão' e Cláudia Gadelha em vitoriosas campanhas pelo UFC, reclamou das críticas a Kutz vindas de pessoas que não têm a vivência dos esportes de combate.

Dedé afirmou que, no rápido minuto entre os rounds, a decisão não pode ser tomada de maneira impulsiva. "Se ele para e o atleta não quer que pare, a culpa é dele. Se ele não para, começa a ser julgado por um monte de gente que na maioria das vezes não entende p**** nenhuma", analisou.

Para ele, se Raquel tivesse encontrado uma maneira de vencer Amanda no round final do confronto, a decisão do treinador da peso-galo americana estaria sendo elogiada. Ele deu como exemplo a situação de Jack Hermansson, adversário de Thales Leites no mesmo evento. O sueco gritou de dor no segundo assalto por causa de uma lesão na costela, voltou para os últimos cinco minutos de luta e conseguiu um nocaute técnico sobre o brasileiro.

"Não vi nada de mais naquela situação de o treinador incentivar a atleta a continuar e se superar. A pergunta é a seguinte: quantas vezes treinadores em situações adversas incentivaram seus atletas a continuar? E no próprio UFC que ocorreu este fato, ocorreu o fato de o treinador do atleta que lutou contra o Thales incentivá-lo no terceiro round, mesmo sabendo que ele estava com a costela machucada e que poderia estar até fraturada. Mas ninguém
falou deste treinador. A avaliação da situação é muito rápida, em que o treinador tem apenas um minuto para dar instruções e avaliar o que fazer. Se a atleta não se sentiu feliz, ela procura outro treinador para a próxima luta", analisou.

Porém, não parece que Pennington pensa em trocar de academia. Em entrevista ao programa 'MMA Hour', na última segunda-feira, a americana agradeceu pelo empenho de seus treinadores em mantê-la no combate e disse estar "orgulhosa" dos seus córneres.

Gilliard 'Paraná' conhece muito bem esta relação praticamente familiar com uma de suas atletas. Em fevereiro, Priscila 'Pedrita' ? que recentemente se referiu a ele como 'pai' ? foi derrotada por Valentina Shevchenko no UFC Belém depois de um longo castigo decretado pela quirguistanesa. À Ag. Fight, o técnico declarou que se sentiu como Kutz ao ter de definir rápido o que fazer com uma atleta que se queixava de dor e levava a pior entre os rounds.

"Ela reclamou de dor no joelho e mandei ela ficar quieta e se concentrar na luta. Mas, se ela tivesse falado 'Mestre, meu joelho está doendo muito. Não aguento mais', Eu teria parado a luta. Agora, só reclamar de dor não é motivo para parar a luta, já que não sabemos se realmente existe uma lesão", falou. De fato, após o combate, foi constatado que Pedrita rompeu o menisco e um dos ligamentos do joelho.

O líder da Paraná Vale Tudo explicou também que, em muitas ocasiões, o treinador age diferente a depender de quem seja o lutador em questão. Usando a expressão "sem espírito", Gilliard contou que a personalidade de determinados alunos requer um pouco mais de firmeza.

"Vejo que cada um sabe a importância da luta para o atleta e, às vezes, com o atleta sem espírito o professor sabe aonde tocar e como tocar. Acho que se reclamar de dor eu incentivo a voltar para a luta, mas se pedir para não lutar, pode ser que eu pare a luta. Mas, antes, vou perguntar se tem certeza. Mas tudo depende do que está em jogo. Só acontecendo para saber mesmo", afirmou.

Após a derrota para Amanda Nunes, Pennington recebeu da Comissão Atlética Brasileira de MMA (CABMMA) a suspensão médica de 60 dias.