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UFC 25 anos: O "jeitinho brasileiro" que mudou a história do esporte

Arquivo Pessoal
Rorion Gracie liderou a realização do primeiro show do UFC. Imagem: Arquivo Pessoal

Diego Ribas, em Las Vegas (EUA)

Ag. Fight

12/11/2018 06h00

Diferentemente dos moldes brasileiros, os eventos esportivos nos EUA são regidos quase que em sua totalidade por órgãos e entidades locais de cada estado que, a depender da modalidade praticada, podem ter regras unificadas. No entanto, no dia 12 de novembro de 1993, uma brecha jurídica saltou aos olhos de Rorion Gracie e permitiu que o brasileiro liderasse a realização do primeiro show do UFC.

Para isso, foi preciso que a cidade de Denver, no Colorado (EUA), recebesse o torneio de oito homens dispostos a medirem força em duelos sem limites de tempo, regras ou categorias de peso. Isso porque, ao menos naquele período, não existia regulamentação que proibisse a prática de um torneio nestes moldes no estado. Faltava, então, apenas a chancela de algum órgão responsável.

"Como tudo sobre o evento era novidade, criei uma entidade, a International Fighting Federation, e me elegi comissário. Então, implementei as regras que eu queria e pronto, resolvi esse problema técnico ", relembrou com bom humor Rorion, durante conversa com a reportagem da Ag. Fight.

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Esta brecha, inclusive, foi repensada pelos promotores do show após o sucesso da primeira edição. De acordo com Art Davie, sócio de Rorion na época, a rápida aceitação do evento pelo público fez com que a realização de novas edições em outras localidades fosse vista como meta.

"Estávamos preocupados. Fizemos em Colorado porque não tinha lei estadual proibindo o que faríamos. Mas já pensávamos em onde mais fazer e até talvez tornar mais aceitável", analisou, em entrevista à Ag. Fight, o americano, que contou ter se animado com os números conquistados na edição inicial.

"Eu estava muito empolgado, acreditei desde o inicio. Nada deu errado. Eu sabia que seria enorme, sabia desde o começo. Lutas sempre interessam as pessoas. Então, organizar um campeonato desse seria grande. Sabia que começávamos uma incrível jornada que duraria muitos anos. Sabíamos pelo investidor que estavam colocando capital suficiente para atrair até 40 mil vendas de pay-per-view. E ainda com a bilheteria, estávamos confiantes que teríamos lucro. Tivemos 85 mil pay-per-views", festejou.

O número, de fato, foi surpreendente, ainda mais por se tratar de um modelo de competição inédito. Esta característica, embora tenha garantido boa venda entre os pacotes de televisão, não gerou motivação suficiente entre fãs locais que poderiam comparecer ao ginásio. E foi aí que Rorion mais uma vez contornou a situação.

"A gente tentou encher o estádio no dia do evento. Vendemos poucos ingressos. Parece que cabiam 15 mil pessoas no ginásio e vendemos uns dois mil ingressos. Na noite anterior, fomos nos bares e distribuímos ingressos de graça. Na hora do show, pedimos para o pessoal descer para parecer casa cheia. Abaixamos as luzes para mostrar só o pessoal em volta da área de combate. Truques de televisão. Depois do primeiro evento, todo mundo já queria saber do segundo", relembrou sobre a estratégia que deu certo e trouxe, de acordo com os números oficiais da noite, cerca de 7,8 mil torcedores ao local do show.

Para Art Davie, o sucesso da primeira noite construiu sólidas bases para as edições seguintes. A partir daí, o UFC se tornou uma realidade e, apesar das intensas mudanças no decorrer dos anos, manteve a marca que de tão famosa se confunde com o nome do esporte.

"Foi quase como se eu tivesse o meu primeiro filho. Quando o pai entende que o filho nasceu e que tudo vai dar certo. A boa coisa foi ver logo no inicio que a audiência estava lá. Estavam esperando por isso e já estavam pedindo pelo próximo. Essa ideia tinha mesmo um grande mercado", ponderou, em sentimento que parece se encaixar bem com a descrição de Rorion Gracie sobre aquela noite.

"Eu me lembro bem da sensação: luzes apagadas e arena pronta. Ver aquele octógono montado, a ansiedade de certa forma era a melhor possível. Me senti muito animado. Para mim, foi também uma forma de agradecer ao meu pai. Achei que o 'velhinho' mais do que merecia aquela homenagem", finalizou Rorion, referindo-se ao grão-mestre Hélio Gracie.