A tragédia nos transformou em uma torcida só, diz repórter colombiana sobre 'experiência mais difícil da carreira'

Renata Mendonça - @renata_mendonca

Da BBC Brasil em São Paulo

  • Arquivo pessoal

    Melissa Martinez, repórter esportiva da TV colombiana RCN

    Melissa Martinez, repórter esportiva da TV colombiana RCN

A queda do avião que levava a Chapecoense para a tão sonhada disputa da final da Copa Sul-Americana gerou comoção no mundo inteiro. Mas além do Brasil, um outro país em especial acolheu a dor da tragédia como se fosse dele também.

Palco do acidente aéreo que deixou 71 vítimas na terça-feira, a Colômbia mostrou solidariedade e respeito aos brasileiros com diversas homenagens ao longo da semana.
A mais impressionante delas veio justamente no dia e horário do jogo que não aconteceu.

Na quarta-feira, data da primeira partida da final da Copa Sul-Americana - que seria disputada por Atlético Nacional e Chapecoense em Medelín -, a bola não rolou no estádio Atanasio Girardot, mas as arquibancadas se encheram como se ela estivesse no centro do gramado.

Mais de 40 mil pessoas vestiram branco e, com uma vela na mão, passaram 90 minutos cantando "Vamos, Vamos Chape" ou ainda "Que escutem em todo o continente, para sempre lembraremos da campeã Chapecoense" - a música que eles próprios fizeram em homenagem ao time brasileiro.

Quem esteve tanto do lado de fora - onde outras dezenas de milhares de pessoas se reuniam - como do lado de dentro relata que nunca viveu uma experiência igual.

"A tragédia nos converteu em uma só torcida, em uma só voz", disse a repórter esportiva da TV colombiana RCN e apresentadora do Notícias RCN, Melissa Martinez.

A BBC Brasil conversou com ela sobre como a tragédia com o voo da Chapecoense impactou a vida dos colombianos do outro lado da fronteira.

Confira o depoimento:

"Recebi a notícia da tragédia de uma forma muito impactante, porque quando desapareceu o avião eu já estava dormindo. Eu costumo dormir muito cedo, meu turno no trabalho começa às 4h da manhã. Quando levantei às 3h, li a notícia de que só tinham resgatado 6 pessoas com vida. A única coisa que fiz foi pegar duas camisas pretas e correr para o trabalho. Às 5h já estava no aeroporto.

Eu já havia feito uma outra cobertura forte, da explosão de uma mina na Colômbia, em uma região que se chama Sardinata. Mas naquele lugar não foi permitido às famílias se aproximarem, então foi de alguma forma menos dramático. Agora foi muito duro. Foi a experiência mais difícil que já tive na minha carreira.

No caso da mina, foi algo muito diferente, porque era uma mina de extração de carvão e eles entendem que podem estar expostos a esse tipo de acidente.

Mas quando alguém vem por um sonho e isso se torna algo tão traumático como foi essa tragédia, a gente começa a pensar... se o (goleiro) Danilo não tivesse tirado aquela bola (na semifinal, contra o San Lorenzo) no último minuto, a história poderia ser diferente.

Cheguei ao estádio na quarta muito cedo. Desde às 6h da manhã, e as homenagens já estavam começando. O sentimento era muito estranho, porque eu só havia ido lá para transmitir os jogos do estádio no fim de semana, como repórter de campo. Nunca havia sentido antes algo parecido.

O povo colombiano está familiarizado com desastres naturais, também sofremos muito com a violência que deixou milhares e milhares de vítimas, acidentes aéreos por conta de erros humanos e também por conta de terrorismo. Mas a Colômbia mostrou que não perdeu a sensibilidade para esse tipo de acontecimento.

Eu fiz a cobertura de centenas de jogos e viajava com a equipe. Mas nunca antes tinha estado em um estádio cobrindo um time que cantava músicas para o seu rival.

Fiquei extasiada. Assim como todos os que estavam lá vendo tudo aquilo. Porque a Colômbia sempre teve uma fama ruim por causa do narcotráfico, mas o que mostramos é que somos pessoas sensíveis. Pessoas boas, solidárias. E diante de tudo, diante da nossa história dramática e de superação, jamais perdemos a sensibilidade.

A percepção dos colombianos da tragédia é que ela afetou todo mundo. Você encontra taxistas na rua que dizem que não conseguem dormir à noite. As pessoas falam que 'se o goleiro não tivesse salvado aquela bola no último minuto, talvez nada disso teria acontecido'.

No meu caso, até fico pensando que, se no último minuto aquela bola tivesse entrado, nós poderíamos ter voado para a Argentina no voo com o Nacional. Com a mesma empresa, com o mesmo avião, com o mesmo piloto. E talvez nós mesmos, jornalistas, que sempre acompanhamos o Atlético Nacional, teríamos sido as vítimas. Talvez teria sido com alguns dos meus companheiros.

Mas mais uma vez o esporte mais popular do mundo faz com que a gente se dê conta de que devemos permanecer unidos. Que devemos viver em alegria e que devemos deixar de lado a mesquinharia ou esse ódio a torcidas rivais. (A tragédia) nos converteu em uma só torcida, em uma só voz. E à Colômbia, deixou um exemplo claríssimo de união, de afeto. Para o mundo, foi uma perda terrível."



 

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