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A tradição olímpica criada pelos nazistas

Pira Olímpica é acesa em Pyeongchang - Franck Fife/Pool Photo via AP
Pira Olímpica é acesa em Pyeongchang Imagem: Franck Fife/Pool Photo via AP

Jonathan Glancey

Da BBC Culture

22/03/2018 15h17

Do centro de uma enorme coroa de estalagmites de gelo, Yuna Kim, sul-coreana medalhista de ouro na patinação, acendeu a pira olímpica na cerimônia de abertura dos Jogos de Inverno de 2018 em Pyeongchang.

Em um espetáculo dividido em três atos, a patinadora encostou a tocha olímpica em uma bizarra coluna de espirais de ouro que, em chamas, em uma teatral "Deus ex machina" (expressão em latim que significa literalmente "Deus surgido da máquina", utilizada para indicar uma solução inesperada para o desfecho de uma obra ficcional), finalmente acendeu o que parecia ser um "onggi" gigante - uma tradicional panela coreana.

Alguns observadores acharam a cerimônia mágica. Jornalistas da imprensa estrangeira e usuários das redes sociais disseram que foi "comicamente fálico". Outros acharam engraçado.

Seja qual for a opinião sobre o episódio, ele só reforça o fato de que o acender da pira olímpica foi um espetáculo grandioso em todas as cerimônias de abertura dos Jogos de Inverno e de Verão das últimas décadas.

Esse elemento teatral, entretanto, tem uma origem sombria, nos Jogos Olímpicos de 1936, realizados em Berlim, no auge de período nazista.

Falha nossa

Como em qualquer apresentação artística, não importa o quanto os atores tenham ensaiado, as coisas podem dar espetacularmente errado.

Na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de 1988, por exemplo, realizados em Seul, jovens atletas sul-coreanos foram erguidos em um imenso anel de ferro em volta da pira.

Mais cedo, pombas haviam sido soltas no novo Estádio Olímpico Jasmil. Elas decidiram se acomodar na borda da pira quando a chama foi acesa, uma dezena de pombas virou churrasco diante de milhões de telespectadores no mundo inteiro.

Acendendo o caminho

Apesar do episódio traumático, os organizadores do evento continuaram usando a criatividade - muitas vezes tomando maiores precauções, é verdade.

Em 1992, a pira dos jogos de verão em Barcelona foi acesa - ao menos foi o que pareceu - por uma flecha em chamas atirada pelo arqueiro paraolímpico Antonio Robello.

Na verdade, porém, as chamas foram acionadas por um botão.

Os jogos de verão de Pequim em 2008, por sua vez, tiveram Li Ning, ginasta veterano medalhista de ouro, erguido através de fios até o topo do "ninho de pássaro", o estádio desenhado pelos arquitetos suíços Herzog & de Meuron.

Uma vez lá, Ning correu como se estivesse flutuando no ar e em volta do que parecia ser um rolo gigante que o levava até a base de uma tocha que explodiu em chamas.

Como os organizadores das Olimpíadas de Londres 2012 superariam isso?

"Quando estávamos pensando sobre a tocha", disse o designer Thomas Heatherwick ao jornal The Telegraph, "sabíamos que as tochas estavam ficando maiores e mais altas e sentíamos que não deveríamos simplesmente fazer algo ainda maior. Não parecia ser o bastante simplesmente desenhar uma forma de tigela em um bastão, então tentamos repensá-la completamente".

O resultado foi uma tocha olímpica como nenhuma outra. Duzentos e quatro pratos em formato de pérolas, um para cada nação competindo, ergueram-se quando a tocha foi acesa por sete atletas para formar uma sarça ardente estilizada na parte de baixo do estádio de Londres.

Apesar de complexa, a pira de Heatherwick acabou sendo um espetáculo impressionante que capturou algo do espírito sagrado da chama olímpica como ela foi originalmente imaginada.

A origem

Os Jogos Olímpicos nasceram em Olímpia, na Grécia, no século 8 a.C. Foram realizados até o século 4 d.C. pelos gregos e "ressuscitados" em 1896.

A cerimônia de abertura dos primeiros jogos da era moderna aconteceu no estádio Panatenaico, em Atenas. Na época, o prédio tinha passado por uma grande renovação capitaneada por Anastasios Metaxas - que, além de arquiteto, formado em Dresden, na Alemanha, também praticava tiro esportivo e chegaria a competir e a ganhar medalhas olímpicas de prata e bronze anos depois.

Em Atenas, os projetos executados por Metaxas para o estádio foram desenhados pelo alemão com nacionalidade grega Ernst Ziller, cujos trabalhos incluem o Teatro Nacional Grego e o Palácio Presidencial em Atenas.

Escuridão por trás da luz

Inspirado pelas conquistas de Metaxas e Ziller, Adolf Hitler passou a alimentar a ideia de recriar as maravilhas épicas da Grécia e da Roma Antiga para representar as aspirações culturais de seu Terceiro Reich.

Apesar de a chama olímpica ter sido acesa pela primeira vez em Amsterdã, em 1928, foram Hitler e seus colegas que transformaram a cerimônia de acendimento, alguns anos depois, em um espetáculo hiperbólico.

Carl Diem, um atleta que virou administrador esportivo e assessor de Joseph Goebbels (o ministro da propaganda de Hitler), é conhecido por ter tido a ideia do revezamento da tocha.

A tocha dos Jogos de Verão de 1936 chegou em Berlim depois do revezamento de atletas que cruzaram seis fronteiras nacionais, de Olímpia até o novo e ambicioso estádio planejado por Werner March.

Meses antes da abertura dos Jogos de Berlim, uma atriz interpretando uma sacerdotisa grega acendera a chama em meio às ruínas do Templo de Hera em Olímpia. Ela fez isso com a ajuda de raios de sol espelhados em um refletor parabólico.

A tocha, produzida pela siderúrgica Freidrich Krupp, foi então levada pelo primeiro de cerca de 3 mil corredores. O último da fila foi Fritz Schilgen, um engenheiro elétrico que, escolhido e filmado por Leni Riefenstahl para seu documentário épico Olímpia (1938), correu em direção a um estádio olímpico com filas em formato de suástica, one ele acendeu uma pira monumental que pode ser vista no local ainda hoje.

O plano de Hitler era que Albert Speer desenhasse e construísse uma instalação muito maior, com 405 mil lugares, em Nuremberg, inspirado, mais em espírito do que na prática, no estádio panatenaico de Olímpia.

Ele sonhava que, após a vitória alemã na Segunda Guerra Mundial, todas as nações enviariam seus atletas a Berlim ao menos pelos mil anos seguintes.

No fim das contas, St. Moritz (Suíça) foi a sede dos primeiros jogos pós-guerra, em janeiro de 1948. Depois foi a vez de Londres, que sediou os Jogos de Verão e exibiu uma tocha parecida com a dos alemães. Em Helsinki, em 1952, os jogos ganharam a primeira tocha moderna, ainda que minimalista.

Foi quando Paavo Nurmi, o lendário corredor finlandês, acendeu uma simples tocha apoiada por 5 pernas finas.

Desde então, houve uma sucessão de tochas simples e contidas, refletindo a natureza rígida e ágil do atletismo e do apelo atemporal desses jogos.

Tóquio contou com uma tocha simples no formato de um sino virado de ponta cabeça em 1964. Montreal tinha uma taça de aço sobre o bastão de aço mais fino já visto nos jogos em 1976 e, por mais que tenha sido mais ambicioso em termos de design, a alta pira das Olimpíadas de 2006 de Turim lembra uma mistura de uma chaminé industrial e uma vela judaica havdalah, mas era minimalista também.

Contudo, a moda agora está mais para espetáculos circenses.

Comedimento visual não é a palavra de ordem das olimpíadas do século 21. Existiram momentos, porém, quando o portador da tocha ofuscou a mais ambiciosa pira olímpica. Muhammad Ali, que ganhou uma medalha de ouro no boxe nos Jogos de Roma em 1960, acendeu a chama nos jogos de Atlanta em 1996.

A síndrome de Parkinson fez ele tremer. Foi preciso muita força de vontade para o boxeador aclamado internacionalmente acender o fusível que levou uma enorme bola de fogo até a tocha vermelha e dourada que estava muito acima dele. Foi um momento verdadeiramente olímpico.