Esporte

Ostracismo e retirada de homenagens marcam os 100 anos de Havelange

Ana Carolina Fernandes / Folhapress
Imagem: Ana Carolina Fernandes / Folhapress

Manuel Pérez Bella

Da EFE

08/05/2016 06h02

João Havelange, responsável por transformar o futebol em um espetáculo mundial e padrinho da linhagem de diretores corruptos da Fifa que obtiveram vantagem deste lucrativo negócio, completa neste domingo cem anos de idade no ostracismo, sem festas nem homenagens por parte do mundo da bola.

Em tempos nos quais o futebol tenta limpar sua imagem encurralando quem sujou as mãos em esquemas de corrupção, nem sequer Joseph Blatter, seu sucessor na Fifa, escolhido a dedo pelo próprio Havelange, irá ao aniversário do ex-dirigente brasileiro, que terá um caráter privado.

A Fifa não deve realizar nenhum tipo de ato ou manifestação para comemorar a data e só irá à festa, mas a título pessoal, um diretor do organismo, Walter Gagg, segundo informaram à Agência Efe porta-vozes da entidade.

O único escândalo no qual ficou demonstrado o envolvimento de Havelange, a cobrança de suborno por parte da empresa ISL, que comercializou os direitos audiovisuais da Copa do Mundo até sua quebra em 2001, também arranhou para sempre sua imagem no Brasil.

O Rio de Janeiro esconderá seu nome nos Jogos Olímpicos e o retirará do Estádio Olímpico, que foi denominado "João Havelange" em 2007, quando o dirigente era um dos membros mais respeitados do Comitê Olímpico Internacional (COI).

Na cidade de Uberlândia, onde também existia um estádio com o nome do antigo chefão da Fifa, em janeiro passado ele foi rebatizado como Parque do Sabiá.

Dono de uma personalidade forte, um caráter fosco e conhecido como um mestre das relações públicas, Havelange sempre será lembrado pelos 24 anos nos quais dirigiu a Fifa e por seu papel decisivo no processo de transformar o futebol em uma máquina de fabricar dinheiro.

O brasileiro sempre alardeou o fato de ter encontrado a Fifa com US$ 20 em caixa em 1974 e de ter edificado uma multinacional com mais filiados que a ONU, 209 países, e um patrimônio financeiro de US$ 4 bilhões quando passou o comando para Blatter em 1998.

Sob seu mandato, a Copa do Mundo passou de 16 para 32 seleções e deu um maior protagonismo para América, África e Ásia, estendendo a febre pelo futebol a todos os cantos do planeta.

Além disso, introduziu novos torneios como os mundiais Sub-17 e Sub-20, o feminino e a Copa das Confederações e se empenhou em que o futebol fosse um espetáculo que consegue fazer milhões de pessoas que não cabem nos estádios se amontoem em frente da televisão.

Mas parte da milionária receita que forneceu à televisão, a aproveitou para encher os bolsos.

O escândalo ISL só o atingiu em 2012, 14 anos após sua aposentadoria, quando a Promotoria suíça revelou que Havelange e seu afiliado, o então presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) Ricardo Teixeira, receberam subornos milionários entre 1992 e 2000.

Estas denúncias dinamitaram as aspirações de Teixeira de escalar postos na Fifa e forçaram Havelange a apresentar sua renúncia como membro do COI e como presidente de honra da Fifa, cargos nos continuou gozando de uma grande cota de influência e de respeito no mundo do esporte.

Também criou polêmica sua proximidade com as ditaduras que governaram vários países sul-americanos, especialmente com os militares brasileiros, com os quais conviveu por uma década quando dirigiu a Confederação Brasileira de Esportes (CBD).

Para o Chile de Augusto Pinochet lhe concedeu a Copa do Mundo Sub-20 de 1987 e antes, ratificou à Argentina o direito de organizar a Copa de 1978, apenas dois anos depois do golpe militar no país.

Em uma ocasião reconheceu que usou suas boas relações com o ditador argentino Jorge Rafael Videla para interceder perante ele e conseguir que libertasse um preso político brasileiro.

Nascido no dia 8 de maio de 1916 no Rio de Janeiro, Jean-Marie Faustin Goedefroid de Havelange, de ascendência belga, representou o Brasil como nadador nos Jogos Olímpicos de Berlim em 1936 e na equipe de polo aquático em Helsinque em 1952.

Ao abandonar as piscinas, se dedicou à advocacia e se tornou empresário, presidiu durante 58 anos a companhia de ônibus Cometa, que transformou em uma das maiores do Brasil.

Em 1958 começou sua carreira como dirigente esportivo na presidência da CBD, o que lhe permitiu se servir dos sucessos da seleção brasileira - que ganhou três mundiais - para abrir as portas da Fifa com as quais criou um império.

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