Esporte

Badminton leva jovem de comunidade carente do Rio aos Jogos Olímpicos

19/05/2016 12h33

Manuel Pérez Bella.

Rio de Janeiro, 19 mai (EFE).- Ygor Coelho de Oliveira sabe que as medalhas olímpicas estão praticamente fora de seu alcance, mas abre um largo sorriso por já ter conquistado uma grande vitória: participar dos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro.

Ele é o primeiro atleta brasileiro da história a conseguir classificação para o torneio olímpico de badminton, um fato que adquire a magnitude de uma grande proeza ao levar em conta que ele aprendeu a jogar o esporte quase desconhecido no país em uma favela.

"Quando eu dizia pra outras pessoas que jogava badminton, elas diziam: 'bad o quê'? Confundiam com squash ou tênis de praia", revelou à Agência Efe o jovem, de 19 anos, orgulho do Morro da Chacrinha, que fica a 11 quilômetros do Parque Olímpico, na zona oeste do Rio de Janeiro.

Ygor deu suas primeiras raquetadas com apenas 3 anos de idade, dentro de uma piscina vazia que seu pai, Sebastião Dias de Oliveira, tinha construído no terraço de casa, transformando o local em uma escola de badminton para os meninos da região.

O pai de Ygor decidiu abrir o local, que construiu com o dinheiro que economizou dos primeiro salários, com o objetivo de ajudar as crianças a evitar os problemas que sofreu durante a infância.

"Foi mais difícil do que alguém pode suportar", afirmou.

Sebastião conta que foi internado à força em um orfanato porque sua mãe era empregada doméstica na casa de um ministro da ditadura que queria "se livrar dele"

A partir dos 12 anos, cada vez que saía de férias, trabalhava com sua mãe catando papelão e alumínio no lixão de Gramacho, agora fechado, onde "teve que disputar restos de comidas com os urubus para sobreviver".

Mais tarde, ele fez um curso de chapista de automóveis e se formou em educação física. Com as primeiras economias que conseguiu poupar de seus primeiros empregos, decidiu abrir a escola, que batizou de Miratus.

Em um primeiro momento, Sebastião pensava em dedicá-la à natação, um esporte que praticou no orfanato. No entanto, ele mudou de ideia quando um professor italiano, um colega de trabalho em um colégio, lhe mostrou uma raquete e um volante de badminton.

O pai de Ygor afirma que o objetivo é, por meio do esporte, dar uma alternativa às crianças, que iludidos pelo dinheiro fácil do tráfico de drogas, acabam ficando nas mãos dos criminosos.

"As crianças na favela estendem a mão e pedem ajuda, e quem lhes estendem a mão é o tráfico. Eu estou ansioso por pegar as mãos dessas crianças antes dos traficantes", explicou.

O próprio Ygor contou ter visto vários amigos serem levados de seu convívio por pelas guerras de quadrilhas que seguem dominando dezenas de favelas do Rio.

"Perdi amigos pelas drogas. Alguns foram mortos, outros viraram bandidos", afirmou o jovem atleta, que confia que o projeto do badminton pode servir como uma "oportunidade de mudar de vida" para outras crianças.

"Eu agora sou um exemplo para as crianças, porque saí de uma favela, lutei, trabalhei e agora estou dentro dos Jogos Olímpicos. Por que outras crianças de outras favelas de todo o Brasil não podem fazer o mesmo? Existem dois caminhos na favela, o caminho do narcotráfico e o caminho do bem, do trabalho", afirmou Ygor.

Os alunos do Miratus ganharam 30 títulos em campeonatos pan-americanos, 20 sul-americanos e três europeus. Ygor foi o único brasileiro que se classificou para os Jogos do Rio por sua posição no ranking mundial. Já a jovem Lohaynne Vicente garantiu a vaga por ser a melhor do Brasil, na condição de representante do país-sede.

Com o sucesso da escola, os patrocinadores começaram a chegar, entre eles a Lamsa, gestora da Linha Amarela no Rio de Janeiro, que disponibilizaram recursos para construir um galpão com quatro quadras de badminton.

Sebastião explica que seus bons resultados se devem, em parte, pelo método de treinamento desenvolvido por ele mesmo, que usa passos de samba para que as crianças aprendam, de forma divertida, os movimentos dos pés no badminton.

Mas, para dar o salto à elite do esporte, o samba não foi suficiente. Ygor também passou uma temporada em um clube da Dinamarca, onde aprendeu com um dos melhores jogadores do mundo Hans-Kristian Vittinghus, também com outros técnicos.

Nos Jogos do Rio, o objetivo de Ygor é ficar entre os 20 primeiros. Para isso, ele espera contar com o apoio em massa do Morro da Chacrinha. Além disso, ele pretende aproveitar cada minuto na Vila Olímpica para conhecer seus ídolos, como os tenistas Novak Djokovic e Rafael Nadal, que agora são "iguais a ele": atletas olímpicos.

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