Esporte

Sob sombra do doping, fundistas quenianos vêm ao Rio reafirmar supremacia

04/08/2016 10h04

Jèssica Martorell.

Nairóbi, 4 ago (EFE).- Quando crianças, eles tinham que andar vários quilômetros diariamente para poder ir à aula; às vezes, até descalços. Estes longos percursos a pé por caminhos de terra fortaleceram seus músculos de maneira especial e, talvez por isso, eles tenham se transformado nos reis das corridas de longa distância.

Nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, que serão abertos oficialmente nesta sexta-feira, todas as apostas dão conta de que os fundistas quenianos voltarão a disputar o pódio.

O resultado histórico conseguido pelos atletas do país africano no último Campeonato Mundial, em Pequim, na China, onde lideraram pela primeira vez o quadro de medalhas, reforçam essas expectativas.

As vitórias, no entanto, estiveram manchadas pela suspensão por doping de dois de seus velocistas, Koki Manunga e Joyce Zakary. Por isso, o até agora inquestionável poderio dos corredores quenianos será vigiado de perto para garantir uma competição "limpa".

Durante anos, muitos se perguntaram qual era o segredo dos corredores nascidos no Quênia, que quase de maneira "natural" destacavam-se nas competições internacionais, especialmente nas maratonas.

Alguns chegaram a atribuir uma suposta superioridade genética contra a qual os demais corredores seriam incapazes de competir.

Porém, longe destas teorias genéticas, parece que a resposta é muito mais simples: as circunstâncias geográficas, sociais e econômicas do Quênia são as que formam estes talentosos corredores.

Essa é a conclusão do ex-campeão europeu dos 1.500 metros, o espanhol Arturo Casado, que visitou e treinou na cidade queniana de Eldoret - região de onde vem a maioria dos melhores fundistas do mundo - para elaborar tese de doutorado em que compara os corredores quenianos e espanhóis de alto rendimento.

Embora não exista nenhuma base científica que prove que os quenianos são geneticamente superiores, existem muitos fatores socioculturais que os beneficiam para serem os melhores corredores do mundo.

"Muitos quenianos, desde os quatro até os 14 anos, percorrem uma média de dez quilômetros diários para ir ao colégio. Mais o que podem correr depois, enquanto brincam", explica o atleta espanhol em entrevista à Agência Efe.

Outro dos segredos do sucesso é que, muitas vezes, a única saída dos quenianos é se transformar em um atleta: "Seu nível de motivação é muito maior que o nosso. Eles podem garantir a vida da família se ganham uma medalha", explica Casado.

"Muitos deles nem têm treinador, mas sim um representante. Realizam treinamentos muito simples. Eu me inclui em um desses grupos sem treinador e me acolheram de braços abertos", conta o atleta espanhol sobre sua experiência no Quênia.

Os corredores quenianos também contam com uma grande vantagem em nível respiratório porque cresceram na altitude. Em Eldoret, por exemplo, treinam a mais de 2 mil metros acima do nível do mar.

Casado, que agora prepara a vários atletas como o meio-fundista Carlos Alonso, assegura que aplica em seus treinamentos muito do que aprendeu com os atletas quenianos.

No entanto, a reputação com a qual contam estes atletas esteve manchada pelos últimos escândalos de doping que envolvem treinadores, corredores e a própria federação de atletismo do país.

Nos últimos anos, a potência das provas de fundo no atletismo mundial registrou mais de 40 testes positivos em controles de doping.

Por isso, a Agência Mundial Antidoping exigiu recentemente das autoridades a aprovação de uma lei antidoping em troca de evitar possíveis punições que podiam, inclusive, impedir a participação dos atletas do país dos Jogos Olímpicos.

O Quênia aprovou e seus atletas estarão no Rio, onde terão a oportunidade de reafirmar perante o mundo sua superioridade e demonstrar que estes escândalos são apenas casos isolados, que nada têm a ver com seu longo histórico de sucessos.

"Garanto que ele irão bem. São os melhores", aposta Casado.

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