Esporte

Após 80 prisões, uma das torcidas mais racistas do mundo pode acabar

06/08/2016 06h01

A violência, o racismo e os negócios escusos colocaram sob ameaça "A Família", principal torcida organizada - e radical - do clube israelense Beitar Jerusalém, que tenta se afastar desta polêmica sem causar um rompimento irreversível.

A torcida sofreu um duro golpe quando, no final de julho, foram presos quase 80 integrantes, em uma operação que só foi possível graças à colaboração de um de seus ex-membros infiltrado na organização.

"O assunto está nas mãos da justiça e não vamos fazer declarações", afirmaram os dirigentes da equipe sobre um fenômeno fartamente conhecido e que há anos gera implicações sociais e esportivas para equipe em particular e para o futebol israelense em geral.


Pelo menos dezenove membros da organização poderiam ir ao banco dos réus, segundo notificação da procuradoria do Distrito de Tel Aviv, que solicitou à justiça que as detenções sejam mantidas até a conclusão do processo.

Entre os crimes denunciados, estão tentativa de homicídio de um torcedor rival, sabotagem, roubo qualificado, posse ilegal de armas, crimes contra a proibição da violência no esporte, entre outros.

O presidente israelense, Reuven Rivlin, que há mais de uma década preside o comitê público do Beitar, afirmou na segunda-feira, em evento com objetivo de combater o racismo no esporte, que "os fatos demonstram quão tênue é a linha que separa uma comunidade de torcedores e uma organização criminosa".

Estas foram as primeiras declarações de um líder israelense sobre a operação policial montada para desarticular os núcleos criminosos da 'Família', criada em 2005 com a autorização do clube e que pouco a pouco foi se radicalizando.

O nacionalismo radical e um racismo declarado contra árabes foram desde sempre a bandeira do clube, identificado desde sua fundação com a direita israelense, tendo como torcedores ilustres os primeiros-ministros Ehud Olmert e Benjamin Neanyahu, entre outros líderes.

"A própria canção da torcida diz: 'Somos o clube racista do Estado", destaca à Agência Efe um torcedor que pediu para não ser identificado.

O vídeo acima, inclusive, mostra a história de dois jogadores muçulmanos que foram contratados pelo Beitar em 2012. A torcida do clube protestou contra os atletas e quase invadiu o campo durante um treino da equipe, além de insultá-los verbalmente. 

Os graves crimes surpreenderam muitos dos torcedores do Beitar, embora não sejam poucos os que sustentam que das detenções "pode sair também algo bom".

"São uma facção que mancha a imagem do clube e que não representa todos os fãs", acrescentou o torcedor, que durante os últimos doze anos se sentou na "Arquibancada Leste", a mesma onde se posiciona a polêmica torcida organizada.

Nestes dias nos quais nenhum torcedor assumirá publicamente sua participação no grupo - que conta com cerca de mil membros-, não são poucas as vozes nas arquibancadas que consideram que se iniciou uma "caça às bruxas" promovida por "veículos de imprensa esquerdistas".

"A Família pode ser tão racista quanto os 'Ultras Sur' (do Real Madrid) ou os radicais da Lazio", compara outro torcedor que também preferiu manter anonimato.

Ele acredita que o futebol israelense padece de uma "forte politização" e que o problema do racismo nos estádios está intrinsecamente ligado ao conflito palestino-israelense.

"Não são racistas porque odeiam uma ou outra religião. Simplesmente as pessoas do Beitar não querem árabes em suas equipes porque são nossos inimigos. Há algum jogador judeu em time de algum país árabe?", questiona.

O Beitar Jerusalém é o único clube da liga israelense em que nunca atuou um árabe e, há alguns anos, quando dois jogadores muçulmanos chechenos foram contratados (os mesmos do vídeo acima), membros da "Família" chegaram a incendiar algumas das instalações do clube.

O esporte israelense em geral, e o futebol em particular, surgiu no calor dos movimentos políticos do sionismo, no início do século XX. Os clubes que levam o nome "hapoel" costumavam estar identificados com a esquerda, enquanto que os "Beitar" com a direita e os "Macabis" com a corrente liberal.

A privatização dos clubes a partir dos anos 90 apagou essa identificação política, embora na prática os torcedores sigam respondendo em muitos casos a esses padrões ideológicos.

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