Esporte

Terapia secular árabe produz as marcas vermelhas no corpo de Phelps

12/08/2016 06h01

Fátima Zohra Bouaziz.

Rabat, 12 ago (EFE).- As marcas vermelhas que chamam a atenção no corpo do nadador Michael Phelps nos Jogos Olímpicos do Rio colocaram em evidência a ventosaterapia, prática secular e muito popular nas sociedades muçulmanas, onde é conhecida como "heyama".

O sucesso da sangria com ventosas nas sociedades árabes se deve ao fato desta técnica ser considerada uma "medicina profética", recomendada pelo próprio profeta Maomé.

É frequente ver nos consultórios de ventosaterapia quadros que reproduzem um famoso "hadiz" (dito atribuído ao profeta) que aconselha praticar este tratamento: "a cura reside em três coisas: o consumo de mel, a 'heyama' e a cauterização, e proibi minha gente a cauterização com fogo".

Mas além da religião ou do nome - "cupping", "hayama" ou ventosaterapia -, no mundo muçulmano os adeptos da terapia estão mais que convencidos de sua eficácia médica para tratar doenças.

Para o médico Hicham Fennich, especialista marroquino na matéria, apesar da grande popularidade nas sociedades islâmicas, a ventosaterapia não adquiriu o prestígio que merece por ter sido associada a algo tradicional e fora de moda, não sendo reconhecida pela comunidade médica.

"Teve que se esperar para ver Michael Phelps com hematomas vermelhos em seu corpo para perceber os benefícios heyama", lamenta Fennich.

Em seu consultório em Rabat, o médico recebe pelo menos uma dezena de pacientes por semana, entre eles atletas de artes marciais, que vêm a praticar a técnica para aliviar suas dores.

O especialista marroquino reconhece que alguns chegam com certo ceticismo porque sabem que é uma prática utilizada nos mercados populares do país por pessoas sem nenhuma formação médica e com ferramentas que muitas vezes não estão esterilizadas.

A prática consiste em colocar ventosas de cristal sobre pontos específicos nas costas, após esvaziá-las de oxigênio com uma pequena chama ou outro método. Estas ventosas sem ar têm assim um efeito de sucção de sangue e, por essa razão, produzem hematomas circulares que desaparecem em sete dias.

O efeito conseguido é imediato, ao estimular a circulação de sangue e provocar a liberação de endorfinas, substâncias produzidas pelo corpo humano, consideradas como o melhor antídoto contra as dores e a fadiga.

Para Fennich, a sangria com ventosas é o melhor tratamento para os atletas que devem practicá-la ao menos uma vez por mês a fim de estimular a circulação sanguínea e ajudar na recuperação de microtraumatismos ou das dores que sofrem devido aos treinamentos intensos.

No Marrocos, uma sessão de ventosaterapia praticada em uma consulta médica pode custar 250 dirhams ( cerca de 23 euros), um preço que inclui o material descartável usado. Os mais pobres, no entanto, podem conseguir uma sessão nos mercados populares, sem garantias higiênicas, por apenas 50 dirhams ( menos de 5 euros).

Este tratamento tem diferentes tipos: a seca, desenvolvida pelos chineses, que se limita a colocar as ventosas sobre a pele deixando círculos vermelhos que duram pelo menos uma semana antes de desaparecer e que aparentemente é a praticada por Phelps.

Outro método, desenvolvido na antiguidade por médicos árabes da importância de Avicena e Al Razi, a mais praticada no mundo árabe, consiste em fazer leves incisões superficiais na pele com um bisturi antes de pôr as ventosas para provocar um leve sangramento, no qual acredita-se que é retirado o sangue morto ou alterado.

Alguns puristas dizem que a sangria mais eficaz é conseguida se praticada em determinados dias ímpares do mês muçulmano e no período matinal para obter melhores efeitos terapêuticos.

Dor de cabeça, nevralgia, hipertensão e intoxicação alimentícia são alguns dos males combatidos pela sangria com ventosas, aliviando o corpo de toxinas e da dor. A terapia também é apontada como bom remédio para varizes e rugas faciais.

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