Esporte

Armênio deixa guerra no passado, luta pelo Brasil e planeja futuro melhor

16/08/2016 11h43

Victor Machado.

Rio de Janeiro, 15 ago (EFE).- Ao vender o carro para comprar uma passagem de avião da Armênia ao Brasil, Eduard começou uma nova vida e resgatou um sonho no esporte, só não imaginava perder logo na estreia nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, o que não abala o homem que se afastou da guerra para permanecer na luta greco-romana.

O sotaque e o nome já são suficientes para qualquer um pensar que Eduard Soghomonyan não é brasileiro. Porém, naturalizado, há pouco mais de um mês passou a ser. Armênio de nascimento, o lutador de 26 anos deixou a família e o país de origem em 2011 para recomeçar longe das consequências da guerra de Nagorno-Karabakh, que durou até o início dos anos 90.

"Meu vizinho e meu tio quase morreram por causa da guerra. Meu irmão começou a trabalhar com 10 anos, e eu com 12. Eu era carregador de caminhão, um dia trabalhava e no outro treinava, mas tinha um carro e decidi vender para vir ao Brasil. Um dia fiquei muito triste com a qualidade de vida e vi o carro lá, parado. Pensei: 'minha vida vale mais que esse carro", contou o lutador.

Eduard foi o único representante do Brasil na luta greco-romana no Rio 2016. Pela categoria até 130kg, o armênio-brasileiro foi derrotado pelo georgiano Iakobi Kajaia em menos de dois minutos na primeira rodada, na segunda-feira, e precisou torcer para o algoz ser um dos finalistas, o que o credenciaria a disputar a repescagem pelo bronze, o que não ocorreu.

"Não consegui me defender e ele conseguiu se virar, não foi dessa vez, mas vários campeóes já perderam na primeira luta. Os Jogos Olimpicos têm varias surpresas, e a minha tática não funcionou", analisou após a derrota.

Ao entrar e sair da Arena Carioca 2, o lutador foi bastante aplaudido por uma torcida que talvez nem o conhecesse e não entendesse muito sobre o esporte. Desde 2004 o país não tinha um representante masculino na luta greco-romana, e Eduard espera poder contribuir para o crescimento da modalidade no Brasil.

"Fiquei muito orgulhoso, foi emocionante. Queria fazer de tudo pela vitória, mas não deu. Tenho muito orgulho da bandeira do Brasil. Peço desculpas aos brasileiros e às pessoas que esperavam demais. O Brasil tem atletas, mas poucos, daqui a pouco vai crescer. Já conseguimos melhorar bastante, e em 2020 vamos ter muitos", comentou.

A decisão de mudar de país veio em 2011, depois de fazer amizade com um brasileiro, Ricardo, durante uma competição na Armênia. Eduard defendia a seleção do país natal, mas, após sofrer lesões e ter que passar por três cirurgias, foi afastado e considerou difícil um retorno à equipe nacional.

Em busca do sonho de voltar a competir e se livrar das dificuldades com as quais conviveu desde pequeno, resolveu aceitar um convite do amigo, que sugeriu ao armênio uma visita ao Brasil para tentar representar o país na luta greco-romana.

"Ele me chamou, abriu as portas da casa dele para mim, me deu comida e a chance de começar ma nova vida aqui. Nos conhecemos e viramos amigos. Depois de seis meses, vim ao Brasil e fiquei na casa dele para passear", disse o atleta, que passou a morar com a família do amigo, em São Paulo.

Já no Brasil, Eduard procurou a Confederação Brasileira de Wrestling (CBW) e recebeu apoio para o processo de naturalização. No entanto, era preciso ficar quatro anos sem representar a Armênia até a emissão do passaporte, que veio em 2015.

Nesse período, Eduard só treinou, sem competir, o que acredita ter prejudicado sua preparação para os Jogos Olímpicos, dos quais só pôde participar porque o processo de naturalização foi concluído em junho.

"Foi um estresse porque demorou muito para ser naturalizado. Vou me preparar desde agora para 2020. Nada vai me atrapalhar nesses quatro anos, já tenho os documentos, vai ser perfeito, como eu quero", mirou o armênio-brasileiro, que já foca nos Jogos de Tóquio.

Ao comparar o Brasil com a Armênia, o lutador ressaltou que a nova casa tem o clima leve e minimiza problemas internos, que "qualquer país tem'. Por outro lado, explicou que o país de origem tem uma realidade que o motivou a sair.

"No Brasil a vida é maravilhosa, temos gente feliz, pessoas ajudando as outras. Na Armênia o povo é um pouco sofrido, você vê varias pessoas de 20 anos com aparência de 40 porque são muitos problemas. Com 15 anos você vive com problemas, você já tem que trabalhar para ajudar a familia. As pessoas começam a sofrer mais cedo. Aqui tem praia, não tem guerra", descreveu.

Eduard deixou a mãe e a irmã na Armênia, com as quais tem mais contato. O pai e o irmão moram em Moscou, na Rússia. Ao pensar no futuro, além de disputar os Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020, o lutador pretende morar no Rio de Janeiro, trazer os parentes para conhecer o Brasil e abrir uma academia.

"É dificil trocar de país por causa da idade avançada, mas vou conseguir ganhar um pouquinho de dinheiro, arrumar uma casa para morar e vou trazer a minha mãe. Quero morar no Rio, na Tijuca, ao lado ou perto da CBW para treinar de manhã, tarde e noite. Mas penso em abrir uma academia de luta olímpica com o meu nome em São Paulo. Não sei, vamos ver como vai ser", disse.

ID: {{comments.info.id}}
URL: {{comments.info.url}}

Ocorreu um erro ao carregar os comentários.

Por favor, tente novamente mais tarde.

{{comments.total}} Comentário

{{comments.total}} Comentários

Seja o primeiro a comentar

{{subtitle}}

Essa discussão está encerrada

Não é possivel enviar novos comentários.

{{ user.alternativeText }}
Avaliar:
 

* Ao comentar você concorda com os termos de uso. Os comentários não representam a opinião do portal, a responsabilidade é do autor da mensagem. Leia os termos de uso

Escolha do editor

{{ user.alternativeText }}
Escolha do editor

Facebook Messenger

Receba as principais notícias do dia. É de graça!

Mais Esporte

Topo