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Barba falsa, câmeras escondidas e ameaça: o caminho para revelar doping russo

David J. Phillip/AP
Imagem: David J. Phillip/AP

17/02/2017 17h38

Olga Martín.

Madri, 17 fev (EFE).- "Decidi fingir ser um treinador da Alemanha que queria contato com um médico russo na busca de uma substância indetectável. Viajei para Moscou usando uma barba postiça, me encontrei com ele e gravei a conversa com uma câmera escondida. Depois, ele me deu uma amostra e falou: são US$ 100 mil".

Essa é parte da história do jornalista alemão Hajo Seppelt, que explicou nesta sexta-feira, em Madri, como começou a investigar o esquema estatal de doping na Rússia. As informações coletadas por ele serviram como base do relatório McLaren sobre as práticas ilícitas e que, entre outras coisas, fez com que a delegação de atletismo do país ficasse fora dos Jogos Olímpicos de 2016.

Seppelt destacou que aquela viagem à Rússia, dois meses antes da abertura dos Jogos de Inverno de Sochi 2014, foi "como estar em um filme de espião". "O médico era uma pessoa muito aberta. Me disse que era uma substância fantástica, totalmente indetectável".

"Ele me encontrou em uma estação e estava com um típico gorro russo, em um carro enorme, e depois me deu uma amostra. Disse a ele que a testaria para ver se funcionava e fiz algumas perguntas todas para ter mais tempo de gravação", explicou o jornalista,

Ao retornar à Alemanha, se comprovou no laboratório que a substância realmente não poderia ser detectada. "Com isso, eu poderia ter dopado toda a equipe a alemã. Publiquei a notícia na televisão alemã antes mesmo de Sochi", explicou.

O início da história foi um e-mail que Seppelt recebeu em 2010 de um cientista austríaco que participava de um congresso em Viena. Ele o informou sobre a participação de um cientista de Moscou, que falaria sobre o hormônio de crescimento (GH) para uso médico, de eficácia incrível e impossível de ser detectado.

"Investigamos esse homem e isso nos levou à Rússia anos mais tarde e foi fundamental para conhecer os Stepanov. Uma pessoa importante de uma importante organização esportiva me perguntou se eu estava interessado em mais informações sobre o país. Ele me disse que havia duas pessoas que viviam em Moscou e que queriam falar comigo, mas que eles entrariam em contato", disse.

O primeiro e-mail de Vitaly Stepanov foi enviado em março de 2014, e Seppelt viajou de novo para Moscou.

"Nos reunimos em um bar e ele me contou tudo. Foi surpreendente ouvir um ex-funcionário da agência antidoping russa me dizer que ela era uma agência pró-doping. Ele me disse que eles fariam o contrário do que deveriam. Eu tinha feito gravações ocultas e ele nunca me pediu dinheiro", disse o jornalista alemão.

Para Seppelt, Vitaly Stepanov e sua esposa, Yuliya, meio-fundista da equipe russa de atletismo, foram os "informantes mais importantes da história do esporte" porque contribuíram para torná-lo limpo.

"Eles foram muito valentes", elogiou.

Durante as reuniões que teve com os informantes em 2014, o jornalista relatou que os russos citaram o quão arriscado poderia ser para eles denunciar coisas erradas no país. Por isso, Seppelt os convidou para ir à Alemanha para que alguém pudesse ajudá-los.

"Os dois me pediram para que só exibisse a entrevista quando eles tivessem saído da Rússia. Eles deixaram o país no fim de novembro, mas não foram diretamente para a Alemanha. O programa, de 60 minutos, foi ao ar em 3 de dezembro, em horário nobre. Ninguém achava que poderíamos fazer isso", relatou o jornalista.

Seppelt revelou ter recebido ameaças, assim como o casal Stepanov. Ele só deu sequência à matéria pelo desejo de que o jornalismo esportivo não se limite aos resultados dos jogos.

Para concluir o material que revelou o escândalo russo, o jornalista ficou seis meses longe do posto de comentarista da "ARD". Mas o trabalho deu resultado. Seppelt foi convidado a fazer parte do departamento de investigação da emissora, que tinha sido criado em 2007 após o "caso Ullrich".

"Trabalhamos com liberdade, confiança e sem pressão para produzir a curto prazo. Publicamos informações sobre China, Coreia do Norte e Quênia. Nem todas as nossas notícias chegam a ser muito grandes porque o sistema antidoping é muito complicado. Mas as pessoas se deram conta de que somos diferentes. Não melhores, só críticos", concluiu o jornalista alemão.

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