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Filme sobre histórica final de basquete é sucesso de bilheteria na Rússia

06/01/2018 10h02

Em meio às tensões da Guerra Fria, uma cesta no estouro do cronômetro garantiu a medalha de ouro para a União Soviética no torneio masculino de basquete dos Jogos Olímpicos de 1972, encerrando a então hegemonia dos Estados Unidos na modalidade, e se tornou um dos momentos mais polêmicos e tensos da história do esporte, além de, agora, ter virado um filme de sucesso.

"Dvizhenie vverkh" ("Para o alto", em tradução livre), dirigido pelo russo Anton Megerdichev, se tornou um fenômeno na Rússia, superando a marca de 2 milhões de espectadores na primeira semana de exibição no país, uma marca inédita.

A obra vai muito além dos segundos em que o pivô Alexander Belov acertou a cesta que garantiu a vitória soviética por 51 a 50, em jogo marcado por reclamação americana sobre decisão do secretário da Federação Internacional de Basquete (Fiba), o britânico William Jones, de devolver três segundos de posse para a seleção do Leste Europeu.

Antes, o árbitro brasileiro Renato Righetto havia atendido parcialmente um pedido do banco da União Soviética, retrocedendo o relógio em um segundo, após falta em Doug Collins, que converteu dois lances livres, marcando os últimos pontos dos EUA.

Antes da decisão de Jones, o jogo chegou a ser encerrado, com os americanos comemorando o título, quando os soviéticos tentaram um longo passe, de um lado ao outro da quadra, permitindo o estouro do cronômetro.

Após o reinício, o armador Ivan Edeshko acertou um lançamento de um lado para o outro da quadra, desta vez encontrando Alexander Belov, que venceu a marcação, subiu mais alto que os adversários e marcou dois pontos.

"É muito emocionante. As pessoas choram ao assistir. Elas têm saudades das nossas vitórias", afirmou o autor da assistência para a cesta que garantiu o ouro para os soviéticos nos Jogos de Munique.

O relato de Edeshko encontra coro constante nas próprias exibições do filme. O público está se habituando a assistir de pé as últimas cenas do jogo, comemorando como se estivesse em um ginásio, acompanhando o feito dos soviéticos.

O ponto de partida para a obra cinematográfica é a contratação de Vladimir Kondrashin após os terceiros lugares da União Soviética nos Jogos Olímpicos de 1968, na Cidade do México, e no Campeonato Mundial, disputado em 1970.

O personagem é interpretado por Vladimir Mashkov, um dos ícones do cinema russo, que atuou nos 'blockbusters' americanos "Atrás das Linhas Inimigas" e "Missão Impossível - Protocolo Fantasma".

Kondrashin é o protagonista de um momento de emoção no filme, já que tinha um filho cadeirante e economizava dinheiro para que ele passasse por uma cirurgia. O roteiro apontou que o técnico, então, não hesitou em ceder o valor para Alexander Belov, que tinha um tumor no coração, doença da qual morreria aos 26 anos, em 1978.

Licenças como essa deram mais dramaticidade e contribuíram para o sucesso da obra, mas geraram críticas entre as viúvas do técnico e do pivô, que decidiram boicotar a estreia e anunciaram planos para processar o produtor Nikita Mikhalkov.

Alexandra Ovchinnikova, que foi casada com o herói olímpico soviético, reclamou que Belov tenha sido retratado como uma pessoa doente, embora estivesse "cheio de vida" durante os Jogos na cidade alemã.

"Belov não sofreu nenhum ataque cardíaco em Munique, mas se trata de um filme artístico", minimizou Edeshko.

O armador da seleção campeã em 1972 ainda admitiu que os roteiristas inventaram uma trama sobre intenção de deserção do ala Modestas Paulauskas, de origem lituana.

"Não aconteceu isso. Éramos uma grande família. Havia russos, ucranianos, georgianos, bielorrussos, letães, lituanos, cazaques. Todos defendíamos as cores da União Soviética", garantiu Edeshko.

Entre os quatro sobreviventes daquela equipe, apenas o armador e Alzhan Zharmukhamedov estiveram na estreia. O próprio Paulauskas não pôde viajar para Moscou, devido problemas de saúde. Já o ucraniano Anatoli Polivoda não se fez presente como protesto a anexação da Crimeia e a intervenção da Rússia na região.

"Telefonei para ele, mas disse que não poderia vir, já que odeia a União Soviética", contou Edeshko.

Não há qualquer informação sobre o lançamento do filme nos Estados Unidos. A seleção do país, após a cesta de Belov, não só protestou contra a arbitragem, mas se recusou a subir ao pódio para receber a medalha de prata.
 

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