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Guerra sobre espiões entre Reino Unido e Rússia volta a afetar o futebol

Arsenal terá pela frente o CSKA Moscou pela Liga Europa em meio a conflitos políticos

05/04/2018 16h40

Ignacio Ortega.

Moscou, 5 abr (EFE).- Nem o futebol conseguiu escapar da guerra diplomática entre a Rússia e o Ocidente: o confronto entre CKSA Moscou e Arsenal pela Liga Europa coincide, assim como ocorreu há 12 anos, com o envenenamento de um ex-espião russo no Reino Unido.

"Parece que as relações diplomáticas entre Inglaterra e Rússia estão um pouco complicadas neste momento. Só espero que não afetem nem a partida nem os torcedores", disse o técnico do Arsenal, Arsène Wenger, em entrevista coletiva antes do duelo em Moscou.

Os deuses do futebol decidiram colocar russos e britânicos frente a frente em uma competição europeia, mas a atenção da imprensa está longe dos gramados. Mesmo os jornalistas esportivos acompanham com atenção a escalada das tensões entre Londres e Moscou devido ao envenenamento do ex-espião Sergei Skripal na Inglaterra.

Os antecedentes não ajudam e "aproximam" o futebol do conflito diplomático. Os principais suspeitos do assassinato de Aleksander Litvinenko, ex-espião da KGB e então consultor do MI6, a agência de inteligência britânica, foram ao Emirates Stadium em 2006 para assistir justo a um confronto entre Arsenal e CKSA.

O jogo ocorreu depois de uma reunião dos suspeitos com Litvinenko em um hotel londrino. No local, eles teriam envenenado o ex-espião com polônio, uma substância muito menos tóxica do que o agente químico Novichok, usado, segundo o Reino Unido, contra Skripal.

Andrei Lugovi, hoje deputado, e Dmitry Kotvun testemunharam o empate sem gols entre Arsenal e CSKA. Na época, os Gunnners, vice-campeões da 'Champions', tinham Thierry Henry, Césc Fábregas e Robin van Persie. Pelo CSKA, detentor do título da Copa da Uefa, os destaques eram os brasileiros Daniel Carvalho e Vágner Love.

Após a revelação de que os suspeitos foram ao estádio, a Polícia Metropolitana de Londres (Met) fez uma inspeção completa no Emirates Stadium, mas não detectou nenhum risco à saúde pública. Apesar disso, milhares de pessoas procuraram as autoridades, preocupadas com a possível exposição ao agente radioativo.

Quando o sorteio colocou outra vez o CSKA no caminho do Arsenal, muitos falaram em ironia do destino, lembrando do caso interior.

"Devemos nos dedicar ao futebol e aos torcedores que estarão pensando exclusivamente em apoiar a equipe. Técnicos e atletas estão à margem da política", disse o técnico do CKSA, Víctor Goncharenko.

Apesar de tudo isso, 500 torcedores do CKSA foram para a capital britânica para apoiar o time no duelo contra o Arsenal. Os russos são temidos em toda a Europa, especialmente depois dos incidentes entre as torcidas de Athletic Bilbao e Spartak Moscou.

O vice-primeiro-ministro da Rússia, Vitali Mutko, disse confiar que o futebol prevalecerá sobre as tensões políticas entre os dois países e pediu que não haja provocações entre as partes.

"Espero que não cheguemos a esse ponto", disse.

O vice-primeiro-ministro lembrou que a única final inglesa da história da Liga dos Campeões foi disputada no Estádio Olímpico de Luzhniki, na Rússia. "Recebemos Chelsea e Manchester United, foi um grande jogo, com 40 mil torcedores e nenhuma infração", destacou.

Para evitar incidentes, o Ministério de Relações Exteriores da Rússia recomendou que os torcedores do CSKA sejam ainda mais precavidos na visita ao Reino Unido.

Entre outras coisas, o Kremlin pediu que os russos respeitem estritamente a legislação britânica, não façam brincadeiras de mau gosto, evitem conflitos com as autoridades e torcedores locais. Outra solicitação é para que eles evitem o consumo de álcool.

"Nossos torcedores não devem esperar demonstrações de russofobia, nem os ingleses um comportamento agressivo por parte dos russos. O caso Skripal já era. O futebol não tem nada a ver com isso", disse Mikhail Degtiarév, chefe do Comitê de Esportes do Duma, o parlamento do país.

O caso Skripal fez com que o governo do Reino Unido, incluindo a família real, boicotasse a Copa do Mundo da Rússia. Apenas 25% do total de ingleses que veio para o Mundial do Brasil há quatro anos comprou ingressos para assistir aos jogos da competição em 2018.

Nesse ponto, a briga dos espiões é "inocente". Os hooligans russos querem um segundo round para os violentos confrontos com os ingleses protagonizados durante a Eurocopa de 2016, na França.

O Kremlin, porém, garante que a Rússia tem capacidade para garantir a ordem pública e evitar incidentes na Copa do Mundo.

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