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Como o esporte ajudou vítima do massacre de Realengo a viver melhor

Rodrigo Ferreira/UOL
Thayane Tavares, atleta de paracanoagem Imagem: Rodrigo Ferreira/UOL

Carlos Padeiro

28/02/2018 04h00

Durante a infância, Thayane gostava muito de brincar. Corria, jogava bola e empinava pipa nas ruas de Jacarepaguá, bairro da zona oeste do Rio de Janeiro. A aptidão para o esporte se desenvolvia naturalmente naquela menina agitada.

Aos 13 anos, ela iniciou no atletismo. Era velocista e praticava salto em distância. Orgulhosa, a mãe Andreia conta que, logo no primeiro dia de treinamento, sua filha saltou 3 metros e 62 centímetros, a melhor marca entre os jovens ali presentes.

Mas a vida de Thayane Tavares mudou completamente no dia 7 de abril de 2011. Ela foi uma das vítimas do massacre de Realengo, quando um rapaz de 23 anos entrou na Escola Municipal Tasso de Oliveira portando dois revólveres e atirando contra os alunos. Doze adolescentes morreram e outros doze ficaram feridos. O atirador se matou com um tiro na cabeça.

Alvejada por quatro tiros, Thayane ficou paraplégica. Passou por momentos difíceis e demorou a aceitar sua nova condição. No início, acreditava que só retomaria sua vida se voltasse a andar.

O esporte mostrou o contrário: ela poderia ser feliz praticando outras atividades. “Amo fazer canoagem, me dá energia. Fiquei cadeirante, e a paracanoagem me ajudou a recuperar parte dos movimentos e a controlar o tronco”, diz.

Amadureci como ser humano e cresci muito com a canoagem. Sinto muita liberdade dentro da canoa. É como se os movimentos das minhas pernas estivessem ali. Dentro da canoa não tem deficiência, todos somos iguais e dependemos unicamente da força dos braços.”

Como conheceu a paracanoagem

Hoje, aos 20 anos, Thayane tem uma vida ativa. Continua morando em Realengo, na zona oeste do Rio, e pratica paracanoagem quatro vezes por semana, no Aterro do Flamengo. Iniciou o curso de Direito em 2016, mas teve de trancar a faculdade para intensificar o tratamento. 

O período de adaptação não foi fácil. O mais complicado foi entender que a vida deveria continuar. “A recuperação foi muito difícil, mas a adaptação foi mais difícil ainda. A recuperação é um processo que continua até hoje, mas a adaptação já passou”, afirma a jovem carioca. A recuperação depende do tratamento médico e da fisioterapia, enquanto a adaptação está relacionada à forma de encarar um novo mundo, sobre a cadeira de rodas.

Quem teve papel importante nessa fase de transição foi uma amiga cadeirante. Na verdade, Daniela Teixeira não era amiga de Thayane logo após o massacre de Realengo, nem a conhecia, mas acompanhava sua história pela imprensa.

“Estava na Califórnia, fazendo um tratamento, e fiquei chocada com uma entrevista da Thayane, porque ela disse que só iria para a escola quando voltasse a andar. Toda pessoa que fica paraplégica pensa que voltará a andar imediatamente. Eu sabia que ela não voltaria a andar da noite para o dia. Causou-me tristeza isso... A Thay era uma menina e perderia a juventude”, conta Daniela. A administradora de empresa perdeu o movimento das pernas aos 27 anos, ao levar um tiro numa tentativa de assalto.

Daniela procurou Thayane pelo Orkut (rede social desativada em 2014). Encontrou um tio dela e conseguiu fazer contato. Voltou ao Brasil e fez a primeira visita no dia do aniversário de 14 anos da garota que precisava de ajuda.

“Disse que, se ela tinha sobrevivido àquela tragédia, havia algum propósito. Ela precisava começar uma nova vida, não adiantava esperar a cura cair do céu. Tentei mostrar que consigo viver com independência, que existe vida pós cadeira de rodas e pós paraplegia. E incentivei a prática do esporte”, comenta Daniela. Hoje, aos 37 anos, ela é praticante de crossfit adaptado e gosta de esportes radicais.

Thayane demorou um tempo para seguir o conselho. Pesquisou sobre a modalidade e começou a ficar interessada. Na fisioterapia, conheceu uma atleta de canoagem e, enfim, foi convencida a encarar o mar. Havia passado cerca de um ano desde aquele 7 de abril de 2011.

Os benefícios do esporte

Em um projeto na praia da Urca, zona sul do Rio de Janeiro, Thayane começou a remar numa canoa V6, com seis lugares. Aprimorou-se com o tempo e avançou até a canoa V1, que exige variedade de movimentos do atleta.

Leonardo Ghisoni, instrutor de canoagem, acompanhou todo o processo, desde 2012, quando a garota estreou na modalidade. “Ela chegou muito debilitada, com problema de controle de tronco. Foi se desenvolvendo, ficando mais forte. A gente colocava uns coletes como apoio, para ela encostar. A canoagem tem a vantagem de forçar o controle do tronco, por causa do balanço do mar”, pontua o atleta e treinador.

A rotina não era simples. Era preciso conciliar o esporte com o tratamento. Além disso, Realengo fica distante da zona sul, e ela dependia de um carro da prefeitura para ir ao local de treinamento.

Em 2015, Ghisoni montou uma equipe de atletas paralímpicos na praia do Flamengo, no clube Moai Va’a. “A Thayane foi com a gente. Fizemos uma travessia até Paquetá, e ela teve um desempenho muito bom. É bem guerreira. Tem dificuldade de vir até o Flamengo, falta por causa do tratamento, mas não perde a técnica na canoa”.

Questionada se algum ídolo no esporte a inspira, a jovem paratleta responde: “quem me inspira são meus amigos que treinam comigo. E meu treinador, que ajuda todo mundo, me pega no colo, cai comigo na água, levanta... E damos risada”.

Daniela também destaca a evolução da amiga. “O esporte ajudou principalmente na parte da disciplina. A Thay era muito indisciplinada quando a conheci, rebelde como todo adolescente. O esporte a colocou num foco, deu qualidade de vida ao corpo e ajudou na mente e no convívio com outras pessoas com paraplegia”.

Nos últimos dias, Thayane Tavares está na correria e tem faltado aos treinos de paracanoagem. Decidiu retomar os estudos na faculdade de Direito e pretende voltar às aulas já na próxima semana. Para o futuro, quer prestar concursos públicos. O esporte seguirá cumprindo seu papel, e a paracanoagem é o seu hobby preferido.

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