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Psicólogo considerou Pelé "infantil" e sugeriu que ele fosse cortado em 58

Pelé e Garrincha na final da Copa de 1958, na Suécia, em foto de Luiz Carlos Barreto - Reprodução
Pelé e Garrincha na final da Copa de 1958, na Suécia, em foto de Luiz Carlos Barreto Imagem: Reprodução

Por Carlos Padeiro

29/06/2018 11h12

Há exatos 60 anos, no dia 29 de junho de 1958, o Brasil venceu a sua primeira Copa. No Mundial da Suécia, a seleção brasileira ganhou cinco jogos e empatou um. Na final diante dos anfitriões, uma goleada por 5 a 2, e o mundo do futebol conheceu Pelé, Garrincha & Cia.

O ESPORTE(ponto final) compilou 20 histórias curiosas e divertidas sobre aquele time. Os causos foram retirados do livro Estrela Solitária – Um brasileiro chamado Garrincha, do jornalista e escritor Ruy Castro, pela Companhia das Letras. Leitura mais do que recomendada para os amantes do futebol.

1) Psicólogo quis barrar Pelé

Em 1958, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) contratou o psicólogo João Carvalhaes para submeter os atletas a testes de “avaliação de inteligência e equilíbrio psicológico”.

Os exercícios consistiam em completar figuras pela metade ou desenhar o que viesse à cabeça e dizer o que significava. Num máximo de 123 pontos, Garrincha fez somente 38. Pelé fez 68. O psicólogo definiu o jovem de 17 anos com essas palavras: “Pelé é obviamente infantil. Falta-lhe o necessário espírito de luta. É jovem demais para sentir as agressões e reagir com a força adequada. [...] Não acho aconselhável seu aproveitamento”. Para sorte do Brasil, Carvalhaes não tinha a palavra final sobre quem levar à Suécia.

2) Vaga de Garrincha estava reservada a Julinho Botelho

Desde que Julinho Botelho, destaque da Portuguesa e titular na Copa de 1954, fora vendido para o futebol italiano em 55, ninguém se firmou com a camisa 7 do Brasil. No início de 58, João Havelange, então presidente da CBD, enviou uma carta a Botelho, convidando-o para defender o Brasil na Copa. Naquela época, jogadores que viviam no exterior não jogavam pela seleção. O ídolo da Fiorentina recusou o convite, dizendo que não seria justo tomar o lugar de quem vivia no Brasil. A vaga que seria de Botelho acabou herdada por Garrincha, já que Joel, do Flamengo, era a primeira opção.

3) Má fase e descrédito antes da Copa

No Sul-Americano de 1957, torneio que hoje equivale à Copa América, a seleção brasileira perdeu para os rivais Uruguai, por 3 a 2, e Argentina, por 3 a 0. Nas eliminatórias para a Copa do Mundo (eram dois jogos apenas), ganhou no sufoco do Peru – empate por 1 a 1 em Lima e vitória por 1 a 0 no Rio de Janeiro, gol de Didi.

4) Com problema cardíaco, técnico "cochilava" no treino

Quatro meses antes do início do Mundial da Suécia, nem técnico o Brasil tinha. Vicente Feola foi contratado pela CBD somente no início de março. O treinador fizera sucesso pelo São Paulo e pela seleção paulista. Entretanto, estava quase aposentado da função por problemas cardíacos (com 48 anos, pesava 105 quilos). Para piorar, corria a história de que ele cochilava no banco de reservas durante os treinos.

5) Profissionalismo fora de campo

Havelange montou uma equipe de profissionais para gerir a seleção – um supervisor, um preparador físico, um médico, um administrador e um tesoureiro. Tal profissionalismo era novidade na seleção. Em meados de 1957, o médico Hilton Gosling visitou as cidades-sede na Suécia para escolher o hotel mais adequado em todas elas. Paulo Machado de Carvalho (que dá nome ao estádio do Pacaembu, em São Paulo) era, além de proprietário da TV Record, vice-presidente da CBD e aceitou ser o chefe da delegação.

6) Lombriga, sífilis, dentes podres...

Em abril, 33 atletas convocados (11 seriam cortados) foram submetidos a um check-up completo. A maioria tinha vermes e lombrigas. Muitos sofriam de anemia, e um deles, de sífilis. Os dentistas encontraram nos jogadores 470 dentes com problemas. O total de extrações chegou a 32.

7) Amantes na pré-temporada em Minas Gerais

O elenco viajou para as cidades mineiras de Poços de Caldas e Araxá para iniciar os treinamentos. Um episódio envolvendo duas mulheres (uma loira e uma morena) vazou pela imprensa local e chegou a São Paulo e Rio de Janeiro, causando ciúmes nas esposas de alguns jogadores. O goleiro Gilmar e Garrincha seriam os namoradores da turma.

8) Nilton Santos bateu em Garrincha

Um dos maiores laterais-esquerdos de todos os tempos, Nilton Santos temia ser cortado antes do embarque para a Suécia. Aos 33 anos, era o mais velho da seleção e viu-se ameaçado porque o presidente da Federação Paulista não gostava dele. Quis mostrar serviço nos treinos, porém a tarefa não era fácil. Ele tinha que marcar Garrincha. Pediu para Didi falar para o Mané maneirar nos dribles. Não adiantou muito, e Nilton Santos passou a ser violento com o companheiro de Botafogo, dando-lhe socos na barriga. “Ou você sossega, ou eu não jogo essa Copa do Mundo”, disse.

9) Pelé e Garrincha juntos pela primeira vez

Para arrecadar dinheiro e pagar os jogadores e as despesas das viagens, a CBD organizou amistosos antes da Copa. Em um deles, Vicente Feola escalou oito atletas considerados reservas. No dia 18 de maio de 1958, Pelé e Garrincha jogaram lado a lado pela primeira vez e o Brasil ganhou da Bulgária por 3 a 1, no Pacaembu. Juntos em campo, com a camisa da seleção, a dupla jamais perdeu (foram 36 vitórias e quatro empates).

10) Corintiano quase tirou Pelé da Copa

Um desses amistosos caça-níquel, marcado às pressas pela CBD, foi contra o Corinthians, a três dias do embarque para a Europa. Com uma entrada dura, o zagueiro Ari Clemente quase tirou Pelé da Copa. O jovem do Santos deixou o campo chorando. No vestiário, o médico Hilton Gosling disse que daria o prazo de uma semana para Pelé se recuperar, ou teria de cortá-lo. O Brasil ganhou do Corinthians por 5 a 0, apesar das vaias dos torcedores, que não aceitavam o fato de Luizinho, ídolo do clube, não ter sido convocado.

11) Benção do papa Pio XII e gol de placa de Garrincha

No dia 25 de maio, a delegação brasileira desembarcou em Roma, após 20 horas de voo. No meio da multidão, os jogadores foram abençoados pelo papa e depois viajaram a Florença, para um amistoso contra a Fiorentina, do craque Julinho Botelho. Vitória por 4 a 0, com direito a gol de placa de Garrincha. Já Pelé seguia fora devido à contusão no joelho. O fantasma do corte ainda ameaçava o futuro rei do futebol. Almir Pernambuquinho seria o substituto e já estava na Europa em excursão pelo Vasco.

12) Nada de pandeiros, cuícas e reco-recos

O regimento disciplinar da seleção era rígido. Continha quarenta itens, e o supervisor Carlos Nascimento obrigou os jogadores e a lê-lo e assiná-lo. Nada de instrumentos musicais. Os jogadores eram proibidos de descer para o café da manhã sem estar barbeado. Era proibido fumar vestido com o uniforme de atleta. Havia dia marcado para se telefonar ao Brasil (uma vez por semana, três minutos por jogador). E por aí vai...

13) Ilha de nudismo próxima ao hotel

A concentração da seleção ficava em Hindas, um balneário entre Gotemburgo e Boras. Havia uma ilha de nudismo num dos lagos próximos ao hotel. O local atraiu a atenção dos jogadores. Alguns compraram binóculos em Gotemburgo, para espiar pela janela.

Filho de Garrincha com uma sueca recebe a camisa do Botafogo das mãos de Nilton Santos, em 2012. Ulf nasceu da relação de Garrincha com uma jovem sueca em 1959, durante excursão do Botafogo pela Europa - Ana Carolina Fernandes/Folhapress
Filho de Garrincha com uma sueca recebe a camisa do Botafogo das mãos de Nilton Santos, em 2012. Ulf nasceu da relação de Garrincha com uma jovem sueca em 1959, durante excursão do Botafogo pela Europa
Imagem: Ana Carolina Fernandes/Folhapress
14) Sexo com as suecas

Os jogadores não estavam proibidos de fazer sexo, desde que se limitassem ao período de folga (os dias seguintes aos jogos). As suecas circulavam pelo local, atraídas pelo corpo atlético dos brasileiros (os negros faziam muito sucesso). Atiravam pedrinhas nas janelas dos quartos e, por meio de gestos, marcavam encontros no bosque ou no lago perto do hotel. Garrincha era um dos mais requisitados pelas loiras.

15) Na reserva, Garrincha cogitou ir embora

Na estreia contra a Áustria, Vicente Feola e sua comissão técnica optaram por deixar Garrincha no bando de reservas. O espião Ernesto Santos, ex-treinador do Fluminense, havia analisado o adversário e recomendou que a seleção entrasse em campo com quatro meio-campistas. Joel, taticamente disciplinado e habituado a atacar e a defender, foi o titular. O Brasil venceu por 3 a 0, com dois gols de Mazzola e um de Nilton Santos.

Um dos mais brincalhões do elenco, Mané ficou chateado com a reserva. “Doutor Hilton, não seria melhor me mandar de volta?” – perguntou, e o médico disse que sua hora de entrar no time chegaria. Já Joel comentou com Zagallo, seu companheiro de quarto em Hinda: “Preciso caprichar. Se o Mané entra no time, não sai nunca mais”. Na segunda rodada, contra a Inglaterra, um 0 a 0 no placar.

16) Brasil desmoraliza o “futebol científico” da União Soviética

O terceiro jogo seria crucial. Duas seleções se classificariam para as quartas de final, e Brasil, União Soviética e Inglaterra estavam na briga. Assombravam os brasileiros o histórico de derrotas em jogos decisivos. Campeã olímpica nos Jogos de 1956, a seleção da URSS era muito forte fisicamente e praticava o “futebol científico”. Vicente Feola optou por mexer na escalação, e Pelé e Garrincha entraram na equipe pela primeira vez. A estratégia era ter um time mais ofensivo, para se impor diante da força física dos soviéticos. Feola orientou Didi a lançar a primeira bola do jogo para Garrincha. Virou para o craque das pernas tortas e disse: “tente descadeirá-los de saída”.

O início frenético do Brasil fez com que jornalistas da época descrevessem como “os maiores três minutos da história do futebol”. Logo de cara, Garrincha driblou dois e acertou a trave do temido goleiro Yashin. O Brasil ganhou por 2 a 0, com dois gols de Vavá (o primeiro, aos três minutos de jogo).

17) Primeiro gol de Pelé na Copa

A imprensa europeia ficou encantada com a atuação de Garrincha contra os soviéticos. Um jornalista francês o definiu como “o maior reserva do mundo”. Nas quartas de final, contra País de Gales, quem brilhou foi Pelé. O garoto de 17 anos marcou um golaço e garantiu a vitória por 1 a 0. Didi também fez uma grande partida e declarou que aquela foi a melhor atuação de sua vida.

18) Gilmar é vazado pela 1ª vez. Pelé responde com três gols

Na semifinal, o adversário era a França, dona do melhor ataque da competição – 15 gols em quatro partidas, sendo oito de Fontaine. Vavá abriu o placar, e Fontaine empatou. Era o primeiro gol sofrido por Gilmar, e havia a preocupação de como os brasileiros reagiriam a isso. O time ficou perdido por uns 10 ou 15 minutos, até que voltou ao jogo. Didi fez 2 a 1. No segundo tempo, Pelé meteu três gols, e a França diminuiu no final: 5 a 2.

19) Medo de jogar de branco. Camisas azuis foram compradas

Brasil e Suécia disputariam a final.  As duas seleções jogavam de amarelo, e um sorteio definiu que os brasileiros deveriam usar outra cor. A primeira sugestão foi o branco, mas alguns jogadores, principalmente os mais velhos, ficaram cabisbaixos, pois a camisa branca foi utilizada na derrota para o Uruguai, em 1950. Optou-se pelo azul, e dois membros da delegação foram ao comércio de Estocolmo comprar o uniforme. Arrancaram os escudos e números das camisas amarelas e costuraram nas azuis.

20) Suécia sai na frente. Didi tranquiliza os jogadores

Os suecos fizeram 1 a 0, mas o “complexo de vira-lata” não veio à tona. Didi pegou a bola, levou-a ao meio de campo e disse: “Não foi nada, pessoal. Vamos encher esses gringos”. Com duas assistências de Garrincha, em lances parecidos, Vavá virou o placar. Pelé (duas vezes) e Zagallo fecharam a conta: Brasil 5 a 2, e o fantasma de 1950 não apareceu para assombrar.