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  27/02/2007 - 09h00
Paulo César Magalhães ajuda a nascer o Cerâmica Atlético Clube

Nico Noronha, do Pelé.Net

PORTO ALEGRE - Paulo César Magalhães, gaúcho da cidade de Sant'Ana do Livramento, fronteira com o Uruguai, nasceu para ser jogador de futebol. Foi direcionado para isso. Ao contrário de tantas mães que lutam para tirar os filhos dos joguinhos de futebol nas calçadas, nas ruas ou em qualquer campinho, querendo que se dediquem aos estudos e a buscar profissões de melhor conceito social, dona Nelina desejava mesmo que os filhos fossem correr atrás da bola.

Os três meninos foram obedientes. O Paulo, o Bozó e o Volnei. Bozó virou profissional, chegou a jogar no América-MG, mas o sucesso como jogador não não foi o esperado e hoje é preparador físico do Foz (PR). Volnei não passou da categoria juvenil no Grêmio. Foi mesmo Paulo quem chegou mais longe e viveu as grandes emoções que o futebol proporciona. A maior delas, o título mundial interclubes, que alcançou correndo na lateral-esquerda no gramado do Estádio Nacional de Tóquio, em 1983, na final contra o Hamburgo.

Paulo César Magalhães jogou profissionalmente até março de 1997 e, após parar de correr atrás da bola como a mãe tanto insistira, resolveu se aventurar como empresário. Arrumou um sócio e investiu suas economias numa empresa do ramo da alimentação, de forma mais específica, de fermento químico. "Entrei com o dinheiro e o sócio com as idéias. Me dei mal. A empresa faliu, o sócio sumiu, e estou até hoje pagando dívidas trabalhistas", conta PC.

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"Estou há dois anos sem beber, achei que jamais iria conseguir isso", vibra muito PC
Teve de raspar as poupanças, que eram de R$ 200 mil, leiloou dois carros, e hoje paga regularmente o restante das dívidas com ex-funcionários, após acordo judicial. O baque foi grande e Paulo César caiu em depressão. Mas eis que o futebol surgiu de novo em sua vida e a felicidade voltou. No momento ele trabalha na criação de um novo clube profissional do Rio Grande do Sul, o Cerâmica Atlético Clube, da cidade de Gravataí, na região metropolitana de Porto Alegre.

O Cerâmica já ganhou registro na Federação Gaúcha de Futebol e no segundo semestre deste 2007 o primeiro time entrará em campo, com sonhos de logo ingressar na série B do futebol gaúcho. Ele, que já está há dois anos trabalhando em Gravataí, no momento orientando um grupo de 30 juniores, será o treinador.

Pedra fundamental do estádio será lançada em março
Paulo César, enquanto fala ao Pelé.Net, mostra o campo de futebol do Cerâmica Atlético Clube, ainda sem as traves, com o gramado passando por reformas e aponta o local onde será levantado o primeiro módulo de arquibancadas. "O lançamento da pedra fundamental será dia 8 de março", avisa e convida.

A comunidade está se entusiasmando com o projeto, que transformará o local, antes de um time amador, de meninos, num novo clube profissional do Estado. O presidente do Cerâmica, Décio Becker, já tem empresários da região comprometidos a ajudar e ainda busca um parceiro forte que venha a ser o patrocinador oficial.

"Vamos construir uma arena moderna, que ao final terá capacidade para até 13 mil pessoas, e ela tem como modelo o campo do Centro de Treinamentos do Grêmio, em Eldorado do Sul", informa Paulo César, sem esconder o entusiasmo pelo que está vivendo e revelando que sua eterna relação com o Grêmio se mantém.

Ainda joga no time de masters do clube onde passou os melhores momentos da carreira e conta que ajuda o Grêmio em promoções sociais como visitas a comunidades do interior ou mesmo de outros estados. "Quando jogo, fico meio quietinho na lateral, pedindo socorro para o Luiz Eduardo", fala, rindo, referindo-se ao ex-zagueiro que, segundo PC, está numa condição física e atlética bem melhor.

Renato Gaúcho sempre foi o melhor parceiro
Além de Luiz Eduardo, com quem mantém uma relação de forte amizade, Paulo César não perde contato com outros amigos, ex-jogadores gremistas, sendo o maior deles Renato Portaluppi, com o qual até morou nos anos 80, quando defendiam o Grêmio.

Eram parceiros no campo e, mais ainda, fora dele. Parte da imprensa gaúcha fazia uma verdadeira patrulha e denunciava festas na noite gaúcha nas quais eram destacados protagonistas. "Nos chamavam de Os Três Mosqueteiros", lembra o ex-lateral, citando o amigo e ex-lateral-direito Paulo Roberto como o terceiro integrante do trio que fazia sucesso nos gramados e nos bares noturnos.

Entre as muitas histórias daquele período, PC lembra uma e diz que é para fazer justiça. Em dezembro de 1984, um ano após terem conquistado o Mundial no Japão, ele pegou emprestado um carro zero quilômetro de Renato e, numa das mais movimentadas avenidas da capital gaúcha, na alta madrugada, dormiu na direção e um táxi rachou o veículo ao meio.

Quebrou os dois braços, algumas costelas e manchou o currículo do ponteiro, pois ninguém acreditou que estivesse sozinho. Os veículos de comunicação apostaram que Renato havia fugido da cena do acidente, pois sua imagem já estava um pouco arranhada em Porto Alegre. Paulo César jura que estava mesmo sozinho e que agora, mais de 22 anos depois, nem haveria motivo para esconder a verdade.

O contato com Renato tem até aumentado nos últimos meses, pois conseguiu dominar o computador, com o qual não se entendia até há pouco. Diz ter melhorado também no cuidado com seu corpo, que antes sofria em conseqüência da vida desregrada. Após o mal-sucedido negócio empresarial, conta que chegou perto do fundo do poço, entregando-se de vez à bebida.

PC comemora dois anos sem beber
O pior momento, entretanto, foi superado. "Estou há dois anos sem beber, achei que jamais iria conseguir isso", vibra o homem que, como orientara dona Nelina, jamais deveria ter se afastado do universo para o qual foi empurrado desde cedo, o do futebol.

Quando veio o convite para trabalhar no Cerâmica e ajudar no projeto, inicialmente trabalhando com meninos, viu que o destino lhe apresentava um caminho de retorno à felicidade. "Juntou a fome com a vontade de comer", diz o renascido Paulo César Magalhães.

Hoje mora com a mãe, numa casa enorme, de quatro andares, na cidade de Canoas, também na região metropolitana da capital gaúcha. Os demais habitantes do lar são o irmão mais novo, o Volnei, a irmã Marijane - única entre os cinco filhos de Nelina que jamais se aventurou no esporte, pois a maior, Marineide, foi da seleção gaúcha de basquete e chegou a jogar ao lado de Hortênsia - e um sobrinho que, afirma, "será um craque".

Entre a casa e a sede do Cerâmica Atlético Clube, um ônibus o embala por uma hora e meia, todos os dias. Não reclama e nem faz comparações com aquela época em que, como lembrou, "a gente trocava de carro a cada seis meses". No veículo coletivo, acrescenta, "é o momento de paz que tenho, para pensar na vida, em tudo o que já fiz e no que vou fazer daqui para a frente".


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