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Jogadoras do vôlei de Jacareí acusam calote e pedem ajuda até aos pais

Luiz Pires/Vipcomm
A levantadora Fernandinha é uma das líderes do time de vôlei feminino de Jacareí Imagem: Luiz Pires/Vipcomm

Guilherme Costa e Luiz Paulo Montes

Do UOL, em São Paulo

2013-08-14T06:00:00

14/08/2013 06h00

O Brasil é o atual bicampeão olímpico do vôlei feminino. Enquanto a seleção faz sucesso, porém, um time agoniza no interior de São Paulo. Sem receber há dois meses, jogadoras de Jacareí acusam um calote e chegaram a pedir ajuda aos pais para bancar as contas. Essa situação pode ficar ainda pior nos próximos dias: se não encontrar um patrocinador até sexta-feira, a equipe vai encerrar as atividades.

O prazo para Jacareí entregar garantias financeiras e ratificar a inscrição na Superliga feminina, na verdade, acabou na última segunda-feira. Na última terça, a diretoria da equipe foi ao congresso técnico da competição para pedir à CBV (Confederação Brasileira de Vôlei) que adiasse o prazo.

“O que a gente não quer é ficar parado. Vou tentar mostrar à CBV que o mercado já fechou e que eles vão deixar 13 atletas e toda uma equipe sem emprego se não derem um prazo maior”, explicou Antônio Carlos Magalhães, o Tonhão, diretor da Apef (Associação de Professores de Educação Física) de Jacareí, entidade responsável pela gestão do time.

As jogadoras mais experientes da equipe também estão ajudando nesse processo de prospecção de aportes. É o caso da levantadora Fernandinha, campeã olímpica com a seleção brasileira em Londres-2012. “Temos feito algumas reuniões com potenciais patrocinadores e entramos em contato com pessoas que trabalham com captação de recursos. Estamos falando e marcando reuniões. Estamos tentando”, explicou a atleta.

O inicio do projeto

A dívida com as atletas já ultrapassa os R$ 300 mil. “Ninguém tem condições de ficar aqui, pagando aluguel, telefone, internet e celular. Começa a ficar pesado. Desde que nós chegamos aqui, temos nos mantido com as nossas economias”, relatou Fernandinha.

Em 2012, Jacareí jogou a primeira divisão do Campeonato Paulista de vôlei masculino com o nome do Palmeiras. No entanto, a Abef decidiu encerrar a equipe neste ano para priorizar o time de mulheres, cujo custo de manutenção é mais barato.

O projeto foi apresentado à Abef em maio por Robson Guerreiro, o Robinho, que é acusado pela entidade e pelas jogadoras de ser o responsável pelo calote. Ele teve auxílio de Jefferson Campos, conhecido como Kiko, profissional que trabalha com captação de recursos.

“Eu nem vou responder a essas acusações. Eu estou até doente por causa disso. Afinal, também não recebi e também tive de mudar minha vida para lá. Escolheram o meu nome porque precisavam de alguém para tomar as pedradas”, contestou Robinho.

A versão da Abef é que Robinho e Kiko apresentaram o projeto à entidade, em maio deste ano, e disseram que já tinham patrocinadores fechados para custear a manutenção da equipe. Eles já chegaram ao clube com o elenco montado.

O início dos problemas

“Nós começamos a identificar problemas no primeiro mês, quando o salário não caiu. Ele [Robinho] disse que tinha contatos com empresas e políticos, que arrumaria várias coisas a equipe. Falou muito para as atletas e para nós, mas era tudo balela. Mentira”, disse Tonhão.

A despeito do atraso no primeiro mês de salários, as jogadoras seguiram treinando. Quando a dívida começou a se avolumar, as mais experientes do grupo tentaram negociar diretamente com Robinho e Kiko. Na última terça-feira, houve uma reunião em um escritório que o responsável pela captação de recursos mantém em Alphaville, na Grande São Paulo.

“Tudo estava indo bem até que nós vimos que não tinha nada de verdade na história dele [Robinho]. Quando tivemos essa certeza, na sexta-feira da semana retrasada, passamos isso para ele. Ele pediu um prazo até terça. Mesmo sabendo das enrolações dele, demos esse tempo. Na terça-feira, fui com a [oposto] Renatinha à reunião, que foi uma enrolação só. Nós perguntamos se ele pagaria na hora, mas nunca teve nada”, contou Fernandinha. “Cada hora era uma desculpa. Ele ofereceu dinheiro sujo, de política, mas eu disse que estava fora de dinheiro sujo. O cara é muito irresponsável! Ele trouxe 13 atletas para cá sem ter como pagar”, continuou a levantadora.

“Não procede. Isso não existe. Como eu vou oferecer dinheiro sujo? No Brasil é muito simples: se eu tenho dinheiro sujo, eu limpo e pago as meninas”, respondeu Kiko.

Depois da malfadada reunião de Robinho e Kiko com as atletas, elas adotaram postura contundente e disseram à Abef que não aceitavam mais trabalhar com o treinador. A entidade entrou em contato com ele e o demitiu.

O início das contradições

“Liguei na quarta-feira de manhã para falar que nós não queríamos mais o trabalho dele. Ele disse ‘tudo bem’, assim, como se não tivesse acontecido nada”, afirmou Tonhão.

Robinho e Kiko, contudo, divergem dessa versão. “Nunca houve dinheiro nenhum. Nem sujo e nem limpo. Se houvesse, as atletas nunca saberiam a origem. Elas teriam recebido, e nós não estaríamos vivendo esse problema”, ponderou o responsável pela captação de recursos.

Kiko trabalha primordialmente no segmento de cultura. Ele faz captação de recursos para projetos e recebe comissões por negócios fechados. “Existia um projeto, e eu me envolvi por causa disso. Infelizmente, não aconteceu. O risco é inerente”, disse o empresário.

O que aumenta a discussão sobre o time é que as jogadoras não assinaram nenhum contrato. Elas treinaram durante dois meses sem qualquer garantia legal de que receberiam o que havia sido acertado.

“O Robson prometeu para as meninas que elas assinariam contrato diretamente com os patrocinadores, não com a gente. Seria uma coisa diferente”, explicou Tonhão. “Eu nem sabia disso”, discordou Kiko.

O técnico e o responsável pela prospecção comercial alegam que todos no time sempre souberam que o projeto dependia de contratos fechados. Segundo eles, a ideia foi apresentada a mais de 20 empresas e teve boa recepção em algumas.

“O projeto foi feito como qualquer projeto de captação, mas em momento algum nós falamos sim ou não para as atletas. Elas foram informadas de todos os casos – até de situações sigilosas como acordos políticos com outras cidades”, afirmou Kiko.

As jogadoras e a diretoria da Abef dizem que os responsáveis pelo projeto prometeram um patrocínio dos Correios, que colocariam a marca Sedex no time. Em nota oficial enviada ao UOL Esporte, a empresa rechaçou essa possibilidade.

“A política de patrocínio esportivo dos Correios prevê o incentivo apenas às confederações das modalidades esportivas e seus eventos”, diz o texto. “Com base nessa política, a empresa indeferiu o pedido de patrocínio individual do time de Jacareí em duas ocasiões (maio e julho), inclusive informando sobre a proibição do uso da marca Sedex”, completa a nota.

“A diretoria dos Correios mandou uma declaração dizendo que não apoia equipes, e sim federações ou confederações. Pode até ser verdade, mas por que eles informaram isso só em junho? O pedido foi recebido em fevereiro”, questionou Kiko.

Outros caminhos

O empresário citou negociações com Hypermarcas e Pepsico, que teria se interessado em colocar a marca Toddy na equipe, mas desistido por conta da sede: “Nós também tivemos sinalizações positivas da HP, da Impacta e de outros lugares. Assim é o processo de captação”.

Segundo as jogadoras e a Abef, Robinho e Kiko disseram que já tinham fechado um acordo com os Correios. A acusação é que eles só admitiram o fracasso da negociação quando a dívida já estava consolidada.

“Eu montei a equipe porque eu era o técnico, mas fiquei sabendo no meio de julho que um patrocinador ia sair. Tentei arrumar de outras formas, mas fui mandado embora antes”, disse Robinho. “Ele está se fazendo de coitado, como se tivesse sido expulso. Nós só decidimos afastá-lo porque não tinha sentido de trabalhar com uma pessoa em quem não confiávamos mais”, respondeu Fernandinha.

O futuro

A conta de atletas e da Abef é que a manutenção do time tem custo anual de R$ 1,6 milhão. Kiko também contesta esse valor – segundo ele, o projeto estava orçado em R$ 2,5 milhões.

Os dois lados também divergem sobre a culpa. Enquanto jogadoras e a Abef preferem responsabilizar a dupla Robinho-Kiko, os dois atribuem a crise a fatores como o calendário e o mercado.

“Houve uma pressão muito grande das federações para aprovar logo o time e fechar o calendário. Se existe um grande culpado, esse culpado é o calendário do vôlei feminino no Brasil”, teorizou Kiko. “A culpa também é das empresas brasileiras, que não veem o esporte como mecanismo de divulgação. É uma situação contingencial”, adicionou o empresário.

Por fim, existe uma divergência tripla sobre o futuro. Atletas e Abef, cujo foco de curto prazo é a captação de aportes, falam em estender a disputa e levar o caso à Justiça. Robinho ainda espera orientações sobre o que fazer sobre o caso, e Kiko, mais otimista, acredita em uma solução apaziguadora.

“Ainda não decidi se vou processá-los, mas a vontade existe. Por enquanto, estamos usando todos os esforços para tentar encontrar patrocinadores”, afirmou Tonhão. “Eu faço um apelo ao bom senso. Todos deveriam sentar e conversar”, disse Kiko.

Diante do teor das acusações dos dois lados, o discurso conciliador de Kiko parece descolado da realidade. Antes de decidir quem tem razão nesse caso, o vôlei feminino de Jacareí tem a sobrevivência como prioridade.