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EUA são potência no vôlei sem liga profissional, TV e apoio popular. Como?

Ivan Alvarado/Reuters
Americanos são potência em esporte sem liga profissional e TV Imagem: Ivan Alvarado/Reuters

José Ricardo Leite

Do UOL, em Katowice (Polônia)

11/09/2014 06h00

Tricampeão olímpico (1984, 1988 e 2008), um título mundial (1986) e duas vezes vencedor da Liga Mundial (2008 e 2014). Isso só com os homens. Entre as mulheres, três pratas olímpicas, duas vezes vice mundial e pentacampeonato mundial do Grand Prix. Você pode não acreditar, mas estamos falando de um país em que o vôlei vive certo amadorismo. E se a surpresa foi pouca, então saiba de mais uma: estamos falando dos Estados Unidos, maior potência esportiva do planeta.

Parece difícil de compreender, mas um dos países mais vencedores de títulos importantes e que tem times históricos (como a geração de ouro de 1984) e um dos jogadores considerados os maior de todos os tempos, Karch Kirlary, não possui uma liga profissional em seu país e os principais jogadores precisam procurar emprego fora.

Do elenco americano que está no Mundial, há atletas que atuam na Rússia, Coreia do Sul, Alemanha, Polônia, França, Turquia e Áustria, além de dois que estão sem emprego. O fato se explica por algo que também chega a ser novidade para quem não acompanha a cultura esportiva americana: mesmo com todo o histórico de títulos, o vôlei não é popular no país. Sem ligas, não há transmissão na TV.

“O vôlei é um esporte pequeno nos Estados Unidos. É jogado nas universidades, nas ligas entre as faculdades, mas não é televisionado. Acho que as aspirações para um jovem querer ser profissional não são incentivadas”, falou o treinador da seleção americana, John Speraw.

Mas brotar talentos no vôlei não é algo que seja problema nos Estados Unidos. Formar uma boa seleção não tem relação com a falta de apreço do público. A explicação é que os jogadores são revelados pelos campeonatos universitários, em que os estudantes têm que se dedicar a atividades esportivas e dali brotam os maiores talentos do país em todas as modalidades.


A qualificada estrutura de brotar talentos pelas universidades gera jogadores de bom nível, porém, no momento em que optam pelo profissionalismo, têm que sair do país e se tornam desconhecidos do público. Apenas são vistos quando se juntam à seleção americana em grandes competições.

“Acho que o sistema universitário é benéfico em algumas coisas, como na formação pessoal daquele futuro jogador. E acho que há um bom nível de talentos que saem de lá. Nós produzimos bons jogadores de vôlei. Mas depois eles precisam sair para um jogador em um nível mais alto”, disse o técnico da seleção americana.

“Muitas universidades têm de fato uma estrutura igual ou melhor do que os clubes de primeira linha ao redor do mundo. Nós temos um forte e qualificado programa universitário. Temos o vôlei muito bem posicionado em termos de praticantes nas escolas. Temos 600 escolas com programas de vôlei para jovens. Acho que muitos jogadores são desenvolvidos até os 20 ou 22 e há uma organização para o time nacional”, falou Doug Beal, presidente da Federação americana de vôlei.

Com estrutura invejável para revelar talentos e grande número de jovens podendo iniciar a prática do vôlei, só resta o detalhe final: tornar o esporte popular entre os torcedores por meio da criação de uma liga profissional e que seja transmitida pela TV.

A solução que parece simples no papel é bem mais difícil na prática. Há muitos anos os dirigentes americanos tentam emplacar a criação de uma competição, mas faltam interessados em investir e patrocinar a ideia.

“Temos tentado. Mas é difícil porque é caro e necessário muito dinheiro. Nosso país tem muitos outros esportes com ligas profissionais de alto nível. É diferente completamente de outros países. Por isso é muito mais difícil. Nós estamos tentando e estamos tentando, mas levará alguns anos. Quem sabe em três ou quatro anos. Sabemos que é muito importante pra nós. Esperamos fazer, estou trabalhando duro”, falou Beal.

Com ar de certa resignação, o técnico John Speraw cita o exemplo do futebol, que teve liga profissional criada tardiamente (na década de 90) e ainda sem ser um esporte ganhador no país, como é o vôlei.

“Até nos EUA as pessoas não gostavam de futebol. Quando se criou a liga profissional, as pessoas começaram a gostar. Mas foi um trabalho de longos anos e necessário muito investimento”, falou. “Todos esperam que isso aconteça. Tudo nos EUA precisa de muito dinheiro, e a verdade é que não há interesse em investir dinheiro no vôlei americano. Há preferência por esses esportes que se vê mais na TV. Vôlei não está na TV. Temos que ser criativos nisso”, continuou.

No vôlei masculino, a seleção americana é das que mais costumam impor dificuldades para o Brasil. Venceu a equipe de Bernardinho na final da Liga Mundial deste ano, na da de 2008 e também na decisão dos Jogos Olímpicos de Pequim, no mesmo ano.

Os americanos estão no Grupo E do Mundial, ao lado de Polônia, Argentina, Austrália, Sérvia, Irã, Itália e França. Apenas três países dessa chave se classificarão para a seguinte, se juntando a três do Grupo F, que possui Brasil, Rússia, Alemanha, Finlândia, Cuba, Canadá, Bulgária e China.