Vôlei

Presos na Finlândia por estupro, cubanos do vôlei buscam difícil recomeço

Kalle Parkkinen/AFP Photo
Luis Sosa foi julgado em 2016 (foto) e condenado a três anos e meio de prisão Imagem: Kalle Parkkinen/AFP Photo

Luis Augusto Símon

Colaboração para o UOL, em São Paulo

07/04/2017 04h00

Em 2 de julho de 2016, seis jogadores da seleção masculina de vôlei de Cuba foram detidos na Finlândia sob acusação de estupro de uma mulher finlandesa. Naquela noite, enfrentariam a Finlândia pela Liga Mundial. Em 20 de setembro, foram julgados.

Dariel Albo, de 24 anos, foi inocentado. Luis Sosa, de 21 anos, condenado a três anos e meio de prisão. Rolando Cepeda (27), Abrahan Alfonso (21), Ricardo Calvo (19) e Osmany Uriarte (21) foram condenados a cinco anos de prisão.

Eles eram protagonistas do melhor momento do vôlei cubano após um período de total decadência. Haviam conquistado, após 16 anos, o direito de disputar uma Olimpíada. Cepeda tinha contrato para jogar na Grécia. Sosa iria atuar na Argentina. Perderam tudo. E Cuba, sem os seus astros ascendentes, foi um saco de pancadas no Rio. Perdeu as cinco partidas que disputou e venceu apenas um set.

Eles estão em cidades separadas. Em Turku, permanecem Luis Sosa e Osmay Uriarte. Em Kylmäkoski, Rolando Cepeda, Ricardo Calvo e Abraham Alfonso. Em 16 de maio, haverá o julgamento de um recurso. Eles sonham com uma redução de pena ou até com uma extradição, que permitira cumprir a o tempo restante em Havana.

Gazzetta dello Sport
Abrahan Alfonso, Ricardo Calvo e Rolando Cepeda cumprem pena em Kylmäkoski Imagem: Gazzetta dello Sport

O jornalista italiano Stefano Arcobelli acha difícil uma mudança, por conta de exames de DNA e de um vídeo que comprovam o ato criminoso. O testemunho da mulher – que tem o nome mantido em sigilo – é considerado muito consistente. Ela disse que foi puxada pelos cabelos quando tentou reagir.

Arcobello voou até a Finlândia e entrevistou os jogadores. Seu relato mostra depoimentos de quem sabe que a vida esportiva dificilmente terá um recomeço e uma certa perplexidade com o que aconteceu. Tentam engrenar um discurso de preconceito, de julgamento apressado e não assumem a culpa.

Confira abaixo os depoimentos dos cubanos presos:

Rolando Cepeda
“É terrível o que estamos vivendo. Conseguimos a classificação depois de 16 anos, com muito custo, e tudo virou fumaça com uma velocidade absurda. É muita coincidência estranha: tínhamos uma equipe forte e começávamos a jogar no exterior. O processo foi feito em um clima muito hostil. Será que é porque somos jogadores, estrangeiros e temos a pele escura? Por falarmos em espanhol que não traduziram e só acreditaram na mulher?

Tudo que se refere a Cuba é muito amplificado.

Perdi todo o dinheiro que ganhei na Grécia, onde atuava. Em Cuba não tem Skype e minha mulher, meus dois filhos e minha mãe vão até Moscou para conversar comigo. Não há problema de visto para ir até Moscou. Estou destruído, mas começo a reagir. Já fiz peso a -15º C e meu dia só vale a pena das 12h às 13h, quando faço comida cubana. Estou confiante. Nós cubanos somos muito instintivos, as coisas fáceis às vezes custam caro".

Osmay Uriarte
“Fui o primeiro a conhecer a mulher, não pensei que iria acabar com a minha carreira e a vida. Ela falou que gostava de esportistas altos e negros. Não tive coragem de assistir à Olimpíada na TV, foi muito duro para mim. Só vi o céu depois de sete meses. Não tenho força para levantar e tomar um ar fresco. Não faço outra coisa que ver filmes e filmes - não posso escutar música cubana porque aqui não entra DVD pirata e não tenho originais. O dia termina às 16h. Não me levanto às 7h para ir ao ginásio.

Temos de tomar banho para refrescar e temos que deixar a porta aberta. Não tenho dinheiro para telefonar, tem apenas um número que podemos usar, mas temos de pagar 23 mil euros no final de um ano. A falta de liberdade é uma coisa terrível. Sinto falta de minha mãe. Fiz uma tatuagem dizendo ‘O amor de mãe é o único que dura para sempre’.

Não tenho do que me arrepender. Não fiz sexo com ela. Preciso esclarecer o caso no dia da apelação".

Luis Sosa
“Estávamos começando outra historia para o vôlei cubano. Agora, estamos sepultados e abandonados. Tomara que na apelação conheçam nosso ponto de vista".

Ricardo Calvo
“Peço ajuda aos santos para sobreviver. Talvez como somos cubanso e falamos muito rapidamente, o juiz não quis acreditar em nós".

Abraham Alfonso
“Na hora crucial da audiência, estávamos nervosos e pudemos dar uma imagem equivocada. Ela só ria da gente. Estamos arruinados para sempre".

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