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Jogadoras se incomodam com Tifanny e querem regras mais rígidas para trans

Reprodução/Facebook
Tifanny tem se destacado no Bauru Imagem: Reprodução/Facebook

Carolina Canossa, Leandro Carneiro e Thiago Rocha

Do UOL, em São Paulo

16/01/2018 04h00

Tifanny Abreu é o nome mais falado pelos fãs de vôlei desde o fim do ano passado. Liberada por Comitê Olímpico Internacional (COI), Federação Internacional de Vôlei (FIVB) e Confederação Brasileira de Vôlei (CBV), ela passou a defender o Bauru na reta final do turno da Superliga - estreou no dia 10 de dezembro - e se tornou a primeira transexual a atuar no torneio nacional. E o seu desempenho chamou a atenção. Começou a aumentar sua pontuação a cada jogo e logo iniciou o debate se ela teria alguma vantagem sobre as adversárias por ter se desenvolvido como homem. O que parecia ser mais uma grande discussão de redes sociais chegou às quadras. Atletas, treinadores, empresários e dirigentes passaram a reclamar.

O UOL Esporte conversou com uma série de jogadoras que estão na disputa da Superliga. Elas preferiram não se identificar, mas demonstraram incômodo com a situação. Todas elas admitiram que o assunto é recorrente em conversas entre atletas.

O principal ponto questionado pelas jogadoras é a força de Tifanny. Ela vem melhorando seu desempenho a cada dia que passa e já tem marcas de pontuação que deixam Tandara, principal atacante da seleção brasileira, para trás. A média é de 5 pontos por set, contra 4,91 da jogadora do Vôlei Nestlé.

As atletas questionam o fato de a transição de gênero feita por Tifanny ter acontecido quando ela já tinha 29 anos. Com isso, antes de fazer o processo, teve uma formação óssea e muscular a base de testosterona, o hormônio masculino, o que as atletas consideram “injusto”. Há quem também cite que o desenvolvimento de órgãos como pulmões e coração, maior no corpo de homens do que em mulheres.

As jogadoras temem ainda que o sucesso de Tifanny aumente o número de trans no vôlei feminino, causando perda de espaço de atletas cis - com o mesmo gênero desde o nascimento - e desequilíbrio na modalidade.

Segundo apurou o UOL Esporte, a situação de Tifanny vai além de uma reclamação das atletas. Alguns clubes também já mostraram um certo incômodo com a sua presença na competição. O assunto é constantemente debatido por dirigentes da CBV. A FIVB também avalia a situação. A inclusão de transexuais no esporte ainda será pauta no COI depois dos Jogos Olímpicos de Inverno deste ano.

Treinadores e empresários já se mostraram contrários à presença da jogadora na Superliga. Ary Graça, presidente da FIVB e ex-mandatário da CBV, foi procurado por agente de atleta questionando a liberação para Tifanny atuar.

Apesar de toda a argumentação, o estafe de Tifanny acredita que as constantes críticas sofridas pela jogadora é uma tentativa de desestabilizá-la.

O que as atletas e até alguns empresários gostariam é que um estudo profundo fosse feito para avaliar quanto tempo demoraria até que um corpo que cresceu com testosterona se igualasse fisicamente ao de uma mulher. Atualmente, o COI exige que uma atleta fique dois anos nesse processo de transição, o que as jogadoras consideram insuficientes. A entidade ainda pede que uma atleta tenha menos de 10 nanomol de testosterona por litro de sangue. Tiffany, testada constantemente, tem 0,2 nanomol/l.

Há quem defenda Tifanny e explique o excesso de pontuação com o fato de ela ser a bola de segurança do Bauru. Os números corroboram essa tese. O seu aproveitamento no ataque é de apenas 46%. No jogo contra o Fluminense, por exemplo, ela atacou 63 bolas, 49 vezes mais do que Paula Pequeno, a segunda maior atacante de Bauru no jogo. Walewska, a líder no quesito aproveitamento, acerta cerca de 58% das bolas em que ataca.

Apesar do incômodo com o que tem acontecido em quadra, as jogadoras que foram procuradas pelo UOL Esporte ressaltaram que há uma preocupação com Tifanny em relação a tudo o que ela passou para chegar até este momento na carreira. Elas dizem que não querem vê-la sem ter como atuar. Todos os entrevistados afirmaram não ter qualquer problema com a pessoa Tifanny e sua identidade de gênero.

O UOL Esporte entrou em contato com Tiffany. Ela não quis comentar o conteúdo da matéria e justificou que tanto o Bauru quanto o estafe que cuida de sua carreira a proibiram de dar entrevistas antes das partidas pela Superliga. Mas, de forma breve, defendeu a permissão que recebeu para atuar em competições femininas.

“É a lei e precisa ser respeitada. Qualquer coisa que eu disser além disso vai causar um desconforto que eu não preciso ter”, limitou-se a dizer a jogadora.

Polêmica na Itália

A situação não chega a ser novidade na vida de Tifanny. Ela sofreu os mesmos questionamentos em sua passagem pelo vôlei italiano, há um ano. Em entrevista ao jornal "Corriere della Serra", Emanuele Catania, diretor-geral do Millenium Brescia, contestou a presença dela no Golem Software Palmi. A sua alta média de pontos e a falta de regras foi o principal questionamento do dirigente. Jogadoras também reclamaram de sua presença e até houve ameaças de processo na Justiça.

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