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Como o caso Giba mostra a realidade da mulher-mãe (e atleta) na sociedade

Roberto Filho/Agnews
Giba evento e a ex-mulher Cristina Pirv Imagem: Roberto Filho/Agnews

Dibradoras

Colaboração para o UOL

03/03/2018 07h13

O ex-jogador de vôlei Giba esteve sob holofotes ao longo desta semana quando veio à tona uma entrevista de sua ex-mulher, Cristina Pirv, ao Uol dizendo que os valores devidos pelo ex-atleta em pensão alimentícia aos seus filhos já somavam 82 mil reais.

Do outro lado, Giba alegava não ter condições de arcar com todo esse valor.

No entanto, três dias depois da avalanche de críticas que enfrentou nas redes sociais, subitamente Giba apareceu com, pasmem, 82 mil reais para quitar seus débitos com os filhos.

Pois bem, pode-se dizer agora que o campeão olímpico “não deve nada” nem às crianças, nem à ex-mulher. Quer dizer, nada em termos financeiros. Porque o que talvez Giba - e outros tantos jogadores de futebol por aí envolvidos em processos sobre pensão alimentícia - não perceba é que o assunto aqui não deveria ser sobre pensão. Nem sobre dinheiro. O assunto aqui é presença.

Segundo declaração de Pirv ao UOL, a última vez que Giba viu os filhos foi em 19 de janeiro deste ano, há um mês e meio. “Não é a primeira vez que ele fica longe dos filhos. Agora, por exemplo, ele não vê os filhos desde o dia 19 de janeiro e não tem previsão de volta. Mesmo quando morava no Rio, ficava um mês e meio (sem vê-los)”, afirmou.

“Ele não tem ideia de como é a rotina dos filhos durante a semana, não tem a menor ideia de como é a vida deles”, completou.

O ex-jogador foi procurado pelo Uol, mas não quis se manifestar.

Ao que parece, esse caso não foge do ‘padrão’ que milhões de homens adotam por aí sobre paternidade. Para eles, ser pai é pegar as crianças em um final de semana esporádico e levá-las para passear. Pagar o colégio, a pensão para a esposa e reclamar que ela “exige dinheiro demais”.

É preciso dizer que, é verdade, há casos em que as mulheres também não fazem bom uso do dinheiro pago em pensão e gastam mais consigo mesmas do que com os filhos. Mas na grande maioria dos casos, o que se vê são mulheres sobrecarregadas, dividindo suas vidas entre o trabalho e a difícil jornada de uma mãe solteira, enquanto os homens aproveitam a vida normalmente e se lembram das crianças esporadicamente.

A história do casamento de Pirv e Giba repete a história de tantas mulheres por aí - como muitas esposas de jogadores - que abrem mão de suas vidas para seguirem os maridos. Romena, Pirv abandonou sua carreira no vôlei para priorizar a de Giba. Mudou-se para o Brasil, adaptou-se a uma nova realidade. Descobriu amantes do ex-jogador e decidiu terminar o casamento. Ainda assim, permaneceu no país, para que ele pudesse ficar perto dos filhos. No entanto, mesmo perto, ele parece se manter longe, sem ser o pai presente que toda criança espera.

De acordo com a ex-jogadora, houve uma ocasião há 3 anos em que Giba sequer passou no hospital durante os três dias que sua filha ficou internada por causa de um problema no apêndice. Alguém já viu algo parecido por perto?
“Eu preciso sacrificar a minha vida para ele fazer as coisas dele. Eu que tive que ficar dormindo, eu e as duas crianças no hospital, porque não tinha com quem deixar o menor”, disse.

Não é de hoje que a maternidade se apresenta como um “fardo”, enquanto a paternidade se mostra um “lazer” - muitas vezes opcional para os pais quando lhes convêm.

Aliás, em 2018 já deveria existir uma palavra só para designar a função mútua que os dois “concordaram” em assumir a partir do momento que conceberam uma criança. Nem maternidade, nem paternidade, uma única palavra apenas para designar a função “cuidar dos filhos”. Assim como em uma casa onde moram duas pessoas, as duas dividem as responsabilidades que ela exige, com um filho a lógica deveria ser a mesma: mãe e pai dividindo a responsabilidade de cuidar dele.

Mas na lógica da sociedade, é da mulher a função de cuidar das crianças. Já imaginaram a revolta antológica que aconteceria se o mesmo caso descrito aqui fosse invertido? Se fosse Pirv quem tivesse priorizado sua carreira e dito a Giba e às crianças para virem com ela se quisessem. Se fosse ela quem tivesse largado a filha no hospital com o pai sozinho tendo que dar conta de tudo, porque tinha outros compromissos. Se fosse Pirv quem não visse os filhos desde 19 de janeiro, o que estariam dizendo dela por aí? Uma mãe irresponsável, abandonou os filhos, só pensa nela... se quer viver sozinha, então por que teve filho?, e daí em diante.

No caso do esporte, a situação é ainda pior, porque a atleta trabalha com seu corpo - e usá-lo para a gravidez pode afastá-la das quadras, dos gramados ou das piscinas para sempre. Na Espanha, por exemplo, ficar grávida era sinônimo de demissão por justa causa, conforme revelou o jornal Marca em 2016. Segundo a publicação, os contratos da liga feminina afirmavam que um rompimento de vínculo das jogadoras com os clubes poderia se dar caso “as jogadoras não cumprissem as normas da federação no controle antidoping ou se FICASSEM GRÁVIDAS”.

Quantas atletas já não vimos abrirem mão de serem mães para não precisarem abdicar de suas carreiras? Quantas já não foram julgadas por insistirem na carreira quando grávidas? No próprio vôlei, há o exemplo de Isabel, que atuou em alto nível até o sexto mês de gravidez e foi bastante julgada por isso pela sociedade e pela imprensa.

Ser mãe para uma atleta não é exatamente uma opção simples, já que seu corpo, o principal instrumento de trabalho, sofrerá alterações significativas que te afastarão das funções por meses - um tempo que poderá ser definitivo para te deixar obsoleta na carreira para sempre. Mãe não tem a opção de ser coadjuvante - ela tem que ser protagonista.

Parece que ser pai, no entanto, é estar liberado das responsabilidades. Pode escolher quando quer tê-las. E, se por acaso, um dia calhar de uma das crianças ter dor de ouvido em uma dos poucos dias que passar com ele e isso o fizer passar a noite acordado no hospital, não lhe faltarão elogios nas redes sociais: QUE PAIZÃO!Até vira a noite cuidando de seus filhos no hospital! Quem dera mais pais fossem como você!

Mas o que Pirv faz todos os dias - o que as mães fazem todos os dias - não é mais do que a obrigação. E se um dia se permitem ir ao bar, passarão a noite tendo que responder “onde estão as crianças?” ou “nossa, está vindo ao bar sozinha? Mas quem está cuidando delas?”. E se em outra situação vissem as crianças sozinhas andando na praça ou no supermercado, perguntariam a elas: “cadê a mãe de vocês? Ela deixou vocês sozinhos?” - É interessante perceber como, nesses casos, a pergunta nunca é “cadê o pai de vocês?”.

Então, mais do que a pensão, é importante cobrar de TODOS OS PAIS, atletas ou não - de Giba e de tantos outros jogadores que são cobrados por atrasos de pensão alimentícia (apenas uma busca simples no Google mostra mais de 300 mil resultados, com nomes de Edilson Capetinha a Romário e Zé Elias) - a presença. É disso que os filhos precisam, afinal. Dinheiro é só um detalhe. O que eles querem mesmo é ver o pai na arquibancada quando estiverem disputando o campeonato da escola, ou poderem mostrar para ele o elogio da professora no caderno. Não há 82 mil reais que paguem a ausência de um pai - nem que substituam sua presença.

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